Por que os preços da cesta básica variam tanto?

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Cesta básica é composta de 12 produtos agrícola
O economista do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese) em Sergipe, Luiz Moura, responde a uma pergunta de muitos consumidores: por que os produtos da cesta básica variam tanto de preço? Ele fala ainda sobre as pressões do mercado internacional, o aumento do consumo no mercado interno e a taxa de juros no país.

 

Portal Infonet – Por que existe uma variação tão grande nos preços dos produtos da cesta básica? Isso acontece no país inteiro ou é localizado no Nordeste?

Luiz Moura – Acontece no país inteiro, no caso do Nordeste essa variação acontece mais por dois motivos. Primeiro: que quando a cesta básica é composta de 12 produtos agrícolas que sofrem variação de preço naturalmente por conta de sazionalidade, quebra de safra, entre outras coisas. A pesquisa [feita pelo Dieese] aqui é feita em Aracaju, São Cristóvão e Socorro, são 20 supermercados e cinco feiras livres. Aracaju tem um bom serviço de feiras livres, que concorrem com os supermercados nesses produtos agrícolas. As feiras têm a prática de monitorar preço de acordo com o que está vendendo para o consumidor, se não está vendendo eles reduzem o preço. Já os supermercados oferecem promoções em alguns dias. Ou seja, têm vários fatores de variações de preço, desde lógicas climáticas até lógicas de vendas de supermercados e feiras. O terceiro fator é que está tendo uma disputa pelo consumidor aracajuano em supermercados e feiras.

 

Infonet – O que o senhor recomendaria aos consumidores?

LM – Nas feiras o preço é mais homogêneo. Nos supermercados há uma variação enorme. Eu recomendaria que as pessoas pesquisassem os preços, não fizessem compras de longa duração, um intervalo de uma semana está bom. Ou, no caso dos produtos agrícolas, procurar as promoções de supermercados.

 

Infonet – Qual a influência do mercado internacional?

LM – Tivemos uma variação de 10% no preço do óleo de soja. O consumo chinês está puxando a produção de soja, o que está valorizando o produto no mercado internacional. Isso está sendo repassado ao óleo de soja, você comprava o óleo de R$ 2,50, hoje, em alguns casos você compra

Preço do óleo subiu e do feijão, desceu
de R$ 3,50 a R$ 4. Foi uma variação enorme, num período muito curto.

 

Infonet – O preço do pão também sofre influência internacional?

LM – Nós tivemos um aumento no preço do pão por conta do aumento do preço do trigo, que passa por esse fenômeno. Além disso tem a situação do boicote da Argentina, que é nosso maior fornecedor de trigo. Vai ter aumento do preço do pãozinho, esse aumento ainda não foi repassado inteiro para o consumidor. Se não tiver aumento vai ter queda na qualidade.

 

Infonet – Mas tivemos também variação para baixo, não é?

LM – Temos a variação para baixo do preço do feijão. O feijão chegou a custar R$ 6,50 nas feiras livres, hoje você já encontra de R$ 3,50, R$ 4. No geral, no mês de março em relação a fevereiro, nós tivemos um aumento de 1,74%, em que pese esses elementos o aumento do óleo de soja e do pão (3,68%), e o feijão teve uma queda de 4,36%.

 

Infonet – E como fica a relação entre preços da cesta básica e salário mínimo?

LM – Quando se olha os últimos 12 meses, teve um aumento de 12% nos produtos da cesta básica. Se a gente compara esse número com o aumento do salário mínimo, percebe que o trabalhador que ganha o salário mínimo gasta praticamente todo o salário com a compra desses produtos. Ele está consumindo menos do que no ano passado, mesmo com o aumento do salário

Luiz Moura
mínimo, porque o salário aumento 9,21% e a cesta aumentou 12%. Além disso, tenho percebido que está havendo a mudança de patamar de alguns preços. O óleo, o pão e a carne estão ameaçando uma elevação. Quando eu falo mudança de patamar é quando um produto aumenta o preço e não volta mais. A carne era vendida a uma média de R$ 8, agora você chega a comprar a carne por R$ 12.

 

Infonet – Por que isso acontece?

LM – Porque o mundo está consumindo mais, o Brasil, mesmo com a questão européia [boicote à carne bovina brasileira], não teve queda de preço da carne de primeiro, teve apenas uma pequena queda da carne de segunda. Houve um aumento real do salário mínimo nos últimos 10 anos. Se ele tivesse sido reajustado apenas pela inflação estaria entre R$ 260 e R$ 270, mas hoje o salário é de R$ 415. Foi um aumento da renda e as pessoas estão consumindo mais leite, carne… O consumo per capita tem aumento no Brasil. Está havendo um aumento no consumo e um aumento da produção só que não está sendo suficiente para suprir a demanda interna e as exportações.

 

Infonet – Existe uma discussão muito grande atualmente entre o presidente do Banco Central, Fernando Meirelles, e o ministro da Fazenda, Guido Mantega, sobre a redução da taxa de juros. O senhor concorda com algum dos dois?

LM – Esse é um debate de economistas com linhas ortodoxas, que vê como tratamento da inflação única e exclusivamente aumentar a taxa de juros para reduzir o consumo, ou seja, inibir o consumo. E os heterodoxos, que é a linha do ministro [Guido] Mantega, que quer deixar a economia funcionar para a produção diminuir o preço. Ambos têm suas razões e ambos têm seus erros. Primeiro, nós estamos tendo aumento de preço dos produtos agrícolas, a taxa de juros influência pouco no consumo deles. Está havendo pressão por aumento de preço de alguns produtos que não são agrícolas, mas também diria que pouco as taxas de juros vão influenciar sobre eles. Temos uma demanda muito forte do setor automobilístico e de eletroeletrônicos, por exemplo.

 

Infonet – E como resolver o problema do aumento de consumo desses produtos?

LM – Uma solução é o que o ministro Mantega falou: aumentar a produção. Só que existe um tempo entre aumentar a produção e o consumo internamente. Vai demorar um tempo para que se construa uma fábrica de automóvel e coloque mais uma turma trabalhando. Então você resolve em parte dessa forma, aumentando a produção, ou você resolve também importando, já que as fábricas do Brasil não conseguem produzir, vamos importar o produto e satisfazer a demanda. E a terceira solução é o que o Meirelles está querendo fazer, que é aumentar a taxa de juros, e que acaba aumentando os financiamentos, que tem sido o grande motivo do aumento da venda desses produtos. E aí, ao aumentar os juros, aumenta o custo do empréstimo dessas pessoas. Outra opção é forçar o mercado a diminuir o número das prestações. Então não existe motivo pra aumentar os juros, mesmo existindo, isso não será suficiente para debelar esse surto inflacionário que nós estamos vendo aí. Isso penalizaria muito mais os consumidores do que ajudaria no combate à inflação. Mas esse é um debate, do ponto de vista teórico, profundo. Mesmo os Estados Unidos, que tinham uma linha ortodoxa radical, não estão aumentando a taxa de juros pra resolver a crise deles. Eles estão com um problema de inflação alta, no entanto, o banco central americano reduziu as taxas de juros: os juros hoje nos EUA são negativos. A inflação é maior do que a taxa de juros cobrada. Seria a mesma coisa de, no Brasil, reduzir a taxa de juros Selic de 11% para 3% e a nossa inflação é 5%. Lá está sendo priorizado o aumento da atividade econômica. Nesse sentido, eu torço para que o ministro Mantega ganhe esse debate, porque o país ficou muito tempo sem crescimento econômico, agora que há essa sinalização positiva, nós não podemos perder essa oportunidade.


Por Gabriela Amorim

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