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(Foto: Divulgação) |
Em meados dos anos 1980, quando a ditadura civil-militar dava indícios de que não ia bem das pernas, mas ainda persistia, num Sergipe ainda distante dos grandes centros urbanos, onde a informação demorava a chegar, surgia a Karne Krua. Liderada por Silvio Campos, a banda se esforçava para levar adiante algo novo para a capital do estado: uma banda que, a princípio, executava o punk rock, com atitudes libertárias e posicionamentos ideológicos que caminhavam na contramão do que era mais corriqueiro. Nesta época, o rock em Sergipe ainda era tímido, para não dizer quase inexistente. Em 2012, esta banda, que pode ser considerada uma pioneira para o gênero por estas terras, completa 27 anos com o disco novo intitulado “Inanição”.
Trata-se de algo um tanto raro por aqui. Embora exista há quase trinta anos, o cenário voltado para o rock em Sergipe passou muito tempo escondido, alheio ao grande público, fosse por opção ou não. Entre o surgimento da Karne Krua e os dias atuais, foram poucas as bandas que conseguiram manter-se e durarem por tanto tempo. E mais: neste caso, trata-se de um grupo que mesmo tendo sofrido grandes alterações, fossem elas em termos sonoros ou no corpo de integrantes (Silvio, o vocalista, é o único remanescente), manteve-se por meio da filosofia do “faça você mesmo”, algo fundamental para bandas independentes que não possuem patrocinadores ou grandes gravadores envolvidas em sua promoção.
Ao passo em que o tempo correu, muita coisa mudou. A quase “trintona” Karne Krua passou a ganhar companheiros, que juntos movimentaram o universo rock’n’roll de Sergipe: bandas que flertavam com o grunge, o heavy metal, o alternativo e até com o blues passaram a ganhar visibilidade, mesmo que somente entre seus pares, em um primeiro momento. Da Snooze nos anos 1990, aos Renegades of Punk nos anos 2000, passando pela The Baggios – hoje uma das bandas de maior respaldo no cenário local -, o rock sergipano se desenvolveu e, ao seu modo, cresceu. Se antes havia poucas casas que serviam como palco para shows de rock, hoje elas existem em maior número, mesmo que ainda acabe sendo insatisfatório para uma demanda cada vez maior.
O que vemos diante disto não é um mero fenômeno, desprovido de motivações, objetivos e relações com o mundo circundante. O surgimento do rock sergipano, sua caracterização própria, os rumos que tomou até agora e a influência que surtiu em parte da sociedade sergipana é parte de um pedaço da cultura de nosso estado, ainda que pouco explorada. Afora dispersas reflexões (como esta) e reportagens, muito pouco se sabe sobre a origem deste gênero de da movimentação que sucedeu a isto. O depoimento mais consistente a respeito é o dossiê elaborado por Adelvan Barbosa, um dos mais ativos e importantes colaboradores do rock em Sergipe, e que se encontra em seu blog (http://escarronapalm.blogspot.com.br/2011/03/dossie-rock-sergipano.html). Desde o seu fanzine “Escarro Napalm”, produzido em fins dos anos 1980, até o seu atual “Programa de Rock”, transmitido pela Aperipê FM, Barbosa vem oferecendo importantes pistas sobre a importância que este estilo de vida vem ganhando por aqui.
Conhecer o rock sergipano é entender parte da cultura de nosso estado, que dialoga com o exterior e se transforma, gerando algo completamente novo. Assim como manda o preceito clássico do rock’n’roll, há um diálogo com a realidade em volta e com a sociedade que cerca estes músicos, havendo traços específicos que são exclusivamente nossos ou adaptações do que se conhece lá fora. O importante é percebermos que se existe uma cena voltada para o crescimento desta cultura, ela é importante e reveladora. Um prato cheio para entender um lado de nossa música muitas vezes obscurecido por um outro predominante, seja em termos econômicos, ou culturais. Eis uma pergunta que, dentro de mim, não quer calar: afinal, o que é o rock sergipano?
*Graduando em História pela Universidade Federal de Sergipe. Bolsista do Programa de Educação Tutorial (PET/FNDE/MEC). Integrante do Grupo de Estudos do Tempo Presente (GET/CNPq/UFS) coordenado pelo Prof. Dr. Dilton Cândido Santos Maynard.
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