Pomar: “empresariado brasileiro incentiva a inflação”

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Valter Pomar: reforma política para fazer mudanças necessárias (Fotos: Cássia Santana/Portal Infonet)

Em sua passagem por Sergipe, o secretário-executivo do Foro de São Paulo, Valter Pomar, candidato a presidente nacional do PT pela corrente Articulação de Esquerda, conversou com o Portal Infonet e fez uma reflexão sobre os obstáculos que atormentam o governo brasileiro. Para Pomar, a esquerda brasileira, apesar de estar no comando da Presidência da República desde 2003 ainda não conseguiu dar um salto qualitativo e quantitativo em se tratando de representação no Congresso Nacional.

Pomar defendeu uma reforma política de forma a viabilizar mecanismos que possa fortalecer os partidos políticos ideológicos e acredita que as mudanças que o Governo do PT não conseguiu fazer, a exemplo da implementação efetiva da tão sonhada reforma agrária só será possível quando a esquerda conquistar a maioria no Congresso Nacional. “Tem a Presidência da República e não ter uma maioria de esquerda no Congresso Nacional torna muito mais difícil, senão impossível, fazer algumas mudanças mais profundas no país”, considera o líder petista.

Conheça, a seguir, os principais pontos de vista do petista destacados na entrevista que ele concedeu ao Portal Infonet.

Reforma política

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Necessário reforma política, que não depende só de nós. Está provado que, com a atual legislação, em particular com o sistema de financiamento privado empresarial, é muito difícil, quase impossível, ampliar mais do que já ampliamos a presença da esquerda no Congresso Nacional. E não seria só o financiamento público: ter maioria no congresso nacional implicaria em várias coisas: financiamento público, o que eliminaria a influência do dinheiro no processo eleitoral, pelo menos reduziria muito. Mas também mudanças no processo eleitoral propriamente dito, adoção de voto em lista, o que favoreceria os partidos políticos com perfil ideológico e reduziria as candidaturas que não têm este perfil, mudança na composição na regra de participação dos Estados – hoje prevalece uma regra dos anos 70, que a Constituinte de 88 não mudou – que faz com que Estados não tenham representação proporcional. O Senado, por exemplo, é a casa da falta de proporcionalidade. Não seria problema se o senado fosse casa apenas federativa, mas o senado tem poder revisor e, inclusive, pode dar início a tramitação de processo. Volta e meia tem escândalo de corrupção e é um momento que começa na campanha eleitoral, é a devolução do investimento feito por algum empresário corrupto.

Globalmente positivo
Fazemos uma avaliação globalmente positiva do governo Dilma. Melhor do que estávamos na época do Governo Fernando Henrique e estamos melhor do que estaríamos se a gente tivesse perdido a eleição para o Serra [José, ex-governador de São Paulo] ou Alckmin [Geraldo, atual governador de São Paulo]. Com relação à comparação com a herança que recebemos dos governos neoliberais, o Brasil está muito melhor e a população concorda com isso a julgar pelas pesquisas de opinião pública, que apontam Dilma com popularidade e uma avaliação muito alta do governo dela.

Obstáculos na economia
O problema é como prosseguir avançando. Está evidente neste último período que vão se acumulando obstáculos na economia, na política e nas relações internacionais, que exigem do partido e do Governo uma estratégia diferente. O partido precisa produzir uma orientação política que seja capaz de fazer com que a gente supere estes obstáculos.

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Sem mudanças profundas
Para fazer mudanças profundas no país, precisa-se ter maioria congressual e, desde 2002 até agora, a bancada eleita pelo PT e pela esquerda continua mais ou menos a mesma. Três vitórias presidenciais depois, a gente não conseguiu dar um salto de qualidade no tamanho e na força da nossa bancada no Congresso Nacional. Isso significa dizer que a gente tem a Presidência da República e não tem uma maioria de esquerda no Congresso Nacional, o que torna muito mais difícil, senão impossível, fazer algumas mudanças mais profundas no país.

Interferência na economia
Conseguimos proporcionar um nível de crescimento no país muito positivo se comparado com o governo Fernando Henrique. Temos percebido nesses últimos meses e comprovou aquilo que a gente já sabia e já falava: à medida que o governo fizesse o que fez o governo Dilma, que foi baixar as taxas de juros, isso não teria como resultado uma transferência dos recursos que estavam dedicados lá na especulação financeira para a produção. Por quê? Porque uma parte importante do empresariado brasileiro se acostumou a extrair um pedaço dos seus lucros da especulação financeira e não da produção e, quando a taxa de juros caiu em níveis descentes – e ainda precisa cair mais – este setor do empresariado tirou os recursos que estavam na especulação e começou a estimular a inflação, ao invés de investir para ter crescimento. Isso prova que se precisa ter um grau de presença do Estado na economia maior para poder garantir que esses recursos que a sociedade está economizando na especulação se convertam em produção e não em inflação.

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Reforma agrária
Ampliamos a capacidade de consumo da população brasileira e, porque não fizemos a reforma agrária, não ampliamos a produção de alimentos na mesma escala. Se não fizer a reforma agrária, essa capacidade ampliada de consumo do povo em algum momento vai esbarrar na ausência de uma oferta de alimentos para que essas pessoas possam consumir.

Preços dos alimentos
O que estamos vendo nos preços dos alimentos é uma mistura de três fenômenos: a produção de alimentos é feita para pequena e média propriedade  e, como não tem reforma agrária, a produção é menor do que a demanda; a pressão pela especulação, com setores empresariais querendo tirar via inflação aquilo que perderam via taxa de juros e o sistema de distribuição de alimentos é muito oligopolizado. Embora a produção seja pulverizada, poucas empresas controlam a distribuição e o transporte e tem um terceiro fator que são fatores sazonais, a exemplo do que aconteceu com o preço do tomate, que podem acontecer em qualquer momento e em qualquer economia.

Reflexos
A gente mudou o país, mas logo vão se acumulando dificuldades e há dois impactos diretos no processo eleitoral: o primeiro é que um setor do empresariado, que antes aceitava a presença do PT no Governo Federal, hoje já torce o nariz para esta presença e está estimulando abertamente que haja mais candidaturas, que a disputa vá para o segundo turno e que, se possível, o PT seja derrotado. Há uma mudança de postura em um pedaço do grande empresariado e isso gera uma mudança também na base do governo. Setores que integram ou integraram a base do governo ao longo desses anos começam a se sentir empurrados e estimulados a romper a coalizão do governo e lançar candidatura própria.

Cenário 2014
Essa mudança, leva a um cenário em 2014, que pode ser de dois tipos: pode ser tradicional, com o PT contra o PSDB no segundo turno ou um cenário novo, com o PT contra um ex-aliado [a ex-ministra Marina Silva e o governador de Pernambuco, Eduardo Campos]. Na minha opinião, as duas vão estar presente na corrente eleitoral de 2014 e as duas vão se esforçar para ocupar o lugar do PSDB na disputa contra o PT. Mas para isso, eles precisam combinar com o povo e com o PSDB.

Lula
Lula está no centro das investigações agora porque o Marcos Valério, que é um criminoso, está fazendo de tudo para ver se reduz a pena dele e está falando agora coisas que não falou em nenhum momento. Qualquer pessoa tem noção do que significa ujm cara criminoso e condenado que começa a dar declarações para ver se envolve uma personalidade pública importante . o próprio prpocurador geral da república que não tem nenhuma simpatia pelo PT disse ‘vamos com cuidado que esse cara é um jogador’.

Por Cássia Santana

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