Batuque: o samba de roda do assentamento Cruiri

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Batuque do Cruiri: tradição de pais para filhos (Fotos: Portal Infonet)

Os conflitos que marcaram a história do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) em Sergipe também produziram frutos culturais naquelas batalhas travadas no século passado pela posse de terra no interior sergipano. Em Pacatuba, por exemplo, os dias de vigilância nas ocupações à Fazenda Cruiri, além de culminar com um desfecho feliz, que beneficiou uma série de famílias sem terra, deu origem a uma manifestação cultural, que mexe com a tradição do local, batizada de ‘Batuque’, grupo folclórico puxado pelas vozes das mulheres que aguardavam o desfecho naquela batalha pela posse da terra.

Cantar e dançar para o grupo, na época de grandes expectativas, era a única forma que aquele povo encontrou para rimar o divertimento com as condições do verbo esperar. E foi neste embalo que a octogenária Andrúnnica dos Santos descobriu em sua animação a missão de dar “vida” às noites no assentamento naqueles pesados momentos da década de 1980. Ela assume essa condição: “inventei o Batuque porque era uma maneira de se divertir e hoje estou feliz”, resume.

No início, o assentamento, na ótica de Andrúnnica seria uma prisão. “A gente não podia sair de lá de jeito nenhum e essa [a cantoria e o samba de roda] era a nossa única diversão”, lembra. E, na atualidade, a idade não se caracteriza como limites ou empecilhos para o ritmo da voz e compasso dos pés. Dona Andrúnnica continua “inteira”, dançando e cantando, fazendo questão, inclusive, das aparições em público para mostrar o talento daquelas senhorinhas que cultivam o melhor de si para manter viva a tradição do ‘Batuque de Cruiri’ em lições transmitidas aos filhos daquele assentamento.

Marco do MST

Samba no pé

Andrúnnica: animação ao luar no assentamento

Marilze: a voz do grupo

O número de participantes varia. Mas pelo menos 17 se mantêm firmes, embalados pelo ritmo da voz de Marilze Neris Bispo, que se classifica como a cantora do grupo. “Ela nos ensinava e a gente dançava na noite de lua”, lembra, fazendo referência à atitude e iniciativa de Andrúnnica. E o ‘Batuque do Cruiri’ permanece animando as noites daquele assentamento, cravado na região do Baixo São Francisco, distante 116 quilômetros de Aracaju, dando vida aos posseiros contemplados pelo decreto de desapropriação assinado pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), para fins de reforma agrária.

O assentamento Cruiri foi constituído em 1989 e apresentou uma característica bem diferente dos demais assentamentos surgidos à época, aos olhos das pesquisadoras Maria Augusta Mundim Vargas, da Universidade Federal de Sergipe (UFS), e Auceia Matos Dourado, da Universidade Federal de Alagoas (UFAL). “Decorreu de uma decisão política do MST, um marco do Movimento Sem Terra de Sergipe”, destacam as pesquisadoras no artigo ‘Afirmações de Limites e o Acesso ao Território: notas sobre a formação dos assentamentos rurais sergipanos’. Elas afirmam que aquele se tornou o primeiro conflito pela posse de terras improdutivas sob orientação do MST.

por Cássia Santana

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