A palavra é nossa

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“Antes era o verbo”. Se Deus, o Todo Poderoso, segundo a Bíblia, fez uso do verbo – Faça-se a luz -, antes mesmo da existência de todas as coisas, eis que temos o princípio fundamental do espírito, o carbono da alma, elemento que está na origem de todas as idéias do mundo: a palavra. Se o mesmo Deus nos fez à sua imagem e perfeição, privilegiando-nos com uma mente que raciocina, um corpo que tem boca para falar e mãos para escrever, façamos valer o impulso criativo do Divino. Pratiquemos a palavra.

Antes que bradem os teólogos, que se insurjam os carolas, que reclamem os  conhecedores de religião, quero dizer que sou um religioso leigo e as primeiras linhas deste meu texto são pura falácia, somente o desejo de me expressar, o meu “Faça-se a luz”, meu entendimento de pouco conteúdo sobre assunto, meu universo particular, universo no qual me sinto um deus, criador de expressões. Expressão…o mundo é meu… que prazer estar tutelando este espaço! Agradeço a oportunidade. Já passei por esta experiência antes, quando fui colunista do Cinform por alguns anos e colaborador eventual em outros jornais. Sei bem o que é isso.

Prazer acompanhado de responsabilidade. Quando estive reunido com a diretoria da Infonet, fui informado de que meu texto seria publicado automaticamente, pelo meu simples comando, sem crivos, cortes ou censura. E agora? Uma tecladinha e tchan…, está lá a minha cabeça exposta. Dessa forma, sinto-me mais deus ainda, responsável por estar manipulando um dos principais instrumentos do relacionamento humano, a palavra, esta que é uma das janelas da alma, a tinta do pintor, a paleta do escultor, o corpo do dançarino, a melodia do compositor, e pode ser o principal álibi, como também a principal testemunha de acusação.

A palavra já me fez passar por diversificados momentos. Por ela já me fiz compreender e fui incompreendido, fui louvado e crucificado, agredi e fui agredido, declarei meus amores e recebi declarações, citei e fui citado, desabafei e ouvi desabafos, ordenei e recebi ordens, acusei e fui acusado, opinei e fui influenciado por opiniões. Por ela amei e fui amado, odiei e fui odiado, senti orgulho e me humilhei, errei e acertei. Por causa dela fiz parte de minha formação de vida e meus desarranjos, e até fui processado judicialmente.

Mas, não há como fugir. Adoro a palavra. Gosto de ler – até bula de remédio que não vou usar -, gosto de escrever – mesmo que ninguém venha a ler -, gosto de ouvir, e ouço – essa é uma mania minha – as palavras prestando atenção na sonoridade, como se fosse música – texto de Saramago fica parecido com música de Tom Jobim. Talvez, daí, a minha brincadeira de compor, de introduzir melodia nos textos, de escrever um texto como se estivesse compondo, tendendo a uma construção métrica e poética das frases. A palavra é arte.

Contudo, acredito que é no entendimento humano onde reside o maior valor que tem a palavra. Na determinação de se fazer compreendido, de expor as suas idéias, no intento de buscar os interesses comuns, de compartilhar experiências. É a palavra o maior instrumento da democracia. Em virtude disso quero oferecer este espaço a quem queira. Não quero ser um deus sozinho. Quero meu universo repleto de conceitos, posto que sou um mutante de opinião, desses que, aparentemente, não tem personalidade formada. E quero ser assim, sempre em estado de formação, consumindo idéias, refletindo. Este espaço é de quem quiser. A palavra não é minha. A palavra é de todos. A palavra é nossa. 

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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