A SORTE DE ZAMIR NO NAUFRÁGIO DO BAEPENDI

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      O Dr. Zamir de Oliveira não morreu afogado no naufrágio do navio Baependi em 1942, conforme relatei no artigo “Infâmia no Litoral de

Dr. Zamir de Oliveira

Sergipe”, publicado no Portal Infonet, em 20 de abril de 2009.   Passados quase três anos de sua publicação, fui contatado por familiares do médico confirmando que ele  havia sobrevivido à tragédia, ao lado de outros companheiros.
     Disse à época: “Entre os sobreviventes, o médico Viterbo Storry. No momento do ataque ao Baependi, ele conversava no convés com outro médico, o Dr. Zamir de Oliveira, que infelizmente não teve a mesma sorte. Ambos eram médicos da Saúde Pública e haviam sido nomeados recentemente para o Serviço Nacional da Peste em Pernambuco".
     Colegas de faculdade, amigos na vida particular, funcionários de um mesmo serviço com nomeações simultâneas, quis o destino juntar Samir e Viterbo em mais uma oportunidade, nessa grande tragédia.
       Para Sueli Padula, filha de Zamir que reside no Rio de Janeiro, após seu pai se atirar ao mar, minutos antes do afundamento do navio torpedeado, ele conseguiu se apoiar numa viga de madeira, que o manteve na superfície por aproximadamente quinze minutos, até ser jogado por uma onda mais forte ao encontro de uma baleeira, onde já se encontravam outros náufragos. O próprio Zamir, em entrevista concedida à imprensa carioca uma semana depois, conta o seu drama. Tive acesso a vários recortes de jornais da época, com depoimentos de Zamir, entre eles A Noite, O Globo, A Manhã e o Diário da Noite.
       Manter-se na baleeira durante toda a noite e a madrugada do dia seguinte não foi tarefa fácil para eles. Na completa escuridão de uma noite sem luar os homens revezavam-se nas manobras para manter a baleeira na superfície, enfiando roupas nas fendas lascadas pela força do mar, baldeando água que não parava de entrar, deixando  a pequena embarcação com risco iminente de adernar.
      Nessa luta de horas intermináveis viram um grande clarão e um pavoroso estrondo. Não imaginavam eles que outro navio – o Araraquara, havia sofrido  também o ataque nazista. Era nove da noite, isso quer dizer que os sobreviventes vagavam há duas horas sobre  as ondas violentas, perdidos no meio da noite e ao sabor do vento. Somente ao amanhecer, exaustos e quase  completamente despidos, eles avistaram uma linha branca no horizonte, a faixa de areia de uma praia.
      Não há relatos precisos sobre o local onde Zamir e seus infortunados amigos tenham postos seus pés sobre a terra firme. Ele relata em entrevista concedida ao jornal A Manhã, do Rio de Janeiro, edição de 22 de agosto, que era a Praia de Moita Verde (sic), no norte da Bahia, mas creio eu que poderia ter sido o pontal do Saco, ou regiões inóspitas no extremo sul de Sergipe, às margens do rio. Imagino que eles entraram pela foz e chegaram a essa região, tanto é que ele refere a chegada, após “caminhada de 4 horas” , à cidade de Estância, onde receberam cuidados médicos.
      No livro O Brasil na mira de Hitler: o afundamento de navios brasileiros pelos nazistas (Editora Objetiva, 2007), de Roberto Sander, há uma referência a um povoado de pescadores denominado Canoas, como primeiro local de chegada dos sobreviventes. Ambos, no entanto, convergem sobre o atendimento recebido no Hospital Amparo de Maria, em Estância, onde ficaram internados por dois dias, seguindo depois para Aracaju.
         No dia seguinte Zamir embarcou de Aracaju num avião da FAB com destino a Recife e em 21 de agosto, por avião da Condor, chegou ao Rio de Janeiro onde teve, no Aeroporto Santos Dumont, recepção de herói.
        O Baependi, navio mercante da frota do Lloyde Brasileiro, construído em 1899 em Hamburgo, na Alemanha, foi apresado pelo governo brasileiro  em 1917, durante a 1ª Guerra Mundial, com outros navios. Na época eles estavam ancorados em portos brasileiros.
        Naquele fatídico dia 15 de agosto de 1942, o navio fazia a rota Rio-Recife, com 306 pessoas a bordo, entre tripulantes e passageiros. Após uma breve parada em Salvador, seguiu viagem e quando passava pelas imediações da foz do Rio Real, foi atingido por dois torpedos do submarino alemão U-507, comandado pelo Capitão de Corveta Harro Schacht, que residia em Hamburgo, coincidentemente a mesma cidade onde foram construídos o U-507 (1940) e o Baependi (1899). Navegando a 20 milhas da costa numa profundidade de 40 metros, o Baependi afundou em menos de cinco minutos, levando consigo 270 pessoas, que não tiveram tempo de colocar-se a salvos. Os médicos, colegas e amigos  Zamir e Viterbo, felizmente, tiveram melhor sorte.
        Já no Rio de Janeiro, Zamir casou-se em novembro com a Sra. Léa Mattos de Oliveira e voltou, dessa vez de avião, para Recife, cidade para a qual havia sido nomeado para o Serviço Nacional de Peste. De Recife, foi mandado para Campina Grande, na Paraíba e se alistou como médico de um quartel sediado na cidade – exercia a função de médico militar e de coordenador do Serviço Nacional de Peste.
       Um ano após, foi transferido para o Serviço de Peste de Santos, em São Paulo e mais tarde regressou para o Rio de Janeiro. Até sua aposentadoria, trabalhou em várias partes do Brasil no combate às Endemias Rurais – DNERU – do Ministério da Saúde. Pertenceu à Organização Pan-americana de Saúde e à Organização Mundial de Saúde.
      Por ter tido contato direto por muitos anos com produtos de combate aos transmissores das doenças endêmicas – o BHC era utilizado largamente – teve linfoma de Hodgkin e faleceu em 18 de outubro de 1993.
        Zamir de Oliveira foi um símbolo de resistência e obstinação frente aos atos de barbarismo, com todos os requintes da crueldade nazista. Tendo escapado de uma agressão covarde, passou a lutar sem tréguas contra a peste bubônica, que surgia em surtos por vários pontos do interior do país.
        Há um aforismo popular segundo o qual a guerra, a fome e a peste andam sempre juntas. De fato, a história confirma a aliança dessas três calamidades que sempre se conjugam na conspiração contra a humanidade. O médico Zamir de Oliveira foi maior que todas elas.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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