A tecnologia e a legitimação de desigualdades

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Jailton Santos Silva
E-mail: jailton-santos25@hotmail.com
Mestrando em Educação (PPGED/UFS)

A sociedade contemporânea tem vivenciado um desenvolvimento tecnológico substancial, que tem impactado diretamente as mais diversas áreas dessa sociedade. Nos dias atuais, a tecnologia perpassa as relações e os “modos de ser” que se estabelecem nos mais variados contextos das relações sociais: família, educação/escola, saúde, agricultura, transporte, meios de comunicação, entreoutros.

Diante das inovações na robótica, genética, biotecnologia, telecomunicações e informática que caracterizam a Terceira Revolução Industrial, a técnica enquanto expressão da relação que se constitui entre homem e natureza tem nos revelado cada dia mais a sofisticação dessa relação, o que resulta em impactos sociais tanto positivos quanto negativos.  Não é fácil negar os benefícios sociais resultantes do desenvolvimento tecnológico, no entanto, também é ingênuo afirmar que tal desenvolvimento têm atingido a todos os indivíduos da mesma forma, garantindo a melhoria nas condições de existência de forma equânime.

Com a tecnologia estas contradições se evidenciam de forma iminente. De fato, o aperfeiçoamento de técnicas médicas como da cirurgia a laser, o aprimoramento de próteses para os membros amputados, a melhoria de objetos como óculos, aparelhos auditivos, entre outros que potencializam a condição natural de existência, se constituem em impactos sociais significativos para a vida humana. A implantação de silicone, os suplementos alimentares e toda uma gama de procedimentos estéticos, são tecnologias quepermitem uma realização pessoal na busca do corpo “belo” e que acabam criando padrões e modos de inserção social em determinados grupos, impactando consideravelmente a vida social. Diante disso, é notável a influência da tecnologia na vida dos indivíduos, no entanto o que pode ser questionado é a quem é acessível o amplo usufruto dessas tecnologias, bem como quais os impactos são produzidos pelas mesmas na sociedade contemporânea.

O que observamos é que a tecnologia apesar de essencial para o desenvolvimento e de impactar a vida social como um todo, tem sido excluída pelo mercado de uma parcela de indivíduos que diante do baixo poder aquisitivo não possui acesso a múltiplos benefícios advindos especialmente das tecnologias. Afinal, não são todos que podem fazer uma cirurgia estética, não são todos que podem comprar as melhores próteses, óculos, aparelhos auditivos ou ainda os melhores celulares, computadores, carros, só para exemplificar.

Se por um lado a tecnologia cria melhores condições de existência, por outro traz impactos biológicos e sociais importantes. No âmbito da agricultura, basta olharmos para a nossa dispensa de alimentos e notarmos que grande parte do que consumimos na sociedade contemporânea decorrem de espécies transgênicas modificadas geneticamente. Os derivados do milho, da soja e algodão em sua grande maioria são produzidos a partir de espécies transgênicas e colocados para o consumo da população sob o discurso da incapacidade de ocasionar riscos à saúde humana.

De fato ainda existe uma grande controvérsia a respeito da nocividade dos transgênicos, no entanto já se sabe que a transgenia resultante desse aperfeiçoamento tecnológico das espécies, prejudica a biodiversidade uma vez que cria uma demanda pela utilização de agrotóxicos, cada vez maior, o que acaba tendo repercussões sobre a saúde humana e a diversidade de espécies. Além disso, os transgênicos reforçam a desigualdade social, uma vez que seus valores de mercado são mais acessíveis a uma população de baixo poder aquisitivo que os valores dos produtos orgânicos, que se apresentam como mais saudáveis à saúde humana, em face da ausência dos agrotóxicos.

Estes argumentos permitem afirmar que a celebração tecnológica presenciada na sociedade contemporânea, necessita ser encarada sobre diversos enfoques. Se seu uso permite um controle social da natureza produtor das melhorias na condição de existência, é indispensável também observar se essa melhoria tem ocorrido para a coletividade, ou simplesmente se tem sido direcionada para uma parcela privilegiada da sociedade.

Portanto, estabelece-se o desafio desse avanço tecnológico, desenvolver políticas que diminuam esse fosso de desigualdades do acesso e usufruto das tecnologias. Quiçá chegará o dia em que possamos baixar em nossos celulares – desde os mais populares – um aplicativo que diminua as desigualdades sociais.

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