As árvores também choram.

0

« À quoi bon aggraver notre tort par la haine? »

Victor Hugo

 

Com este título, “Les arbres pleurent aussi”, o jornalista francês Laurent Greilsamer, redator chefe do caderno quotidiano do Le Monde, publicou uma crônica apreciando dois fatos envolvendo duas árvores.

 

Uma delas, a “castanheira de Anne Frank”, e a outra a “árvore Branca”, razão de distúrbios racistas ocorridos na pequena localidade rural de Jena com cerca de 3500 habitantes, na Louisiana, nos Estados Unidos.

 

A “castanheira de Anne Frank” está à morte. A outra, a “árvore branca”, está a suscitar violência, injustiça e morte.

 

“Que é uma árvore?” Pergunta Laurent Greilsamer, refletindo o drama que as árvores contemplam sem procurar incitar ou promover.

 

A “castanheira de Anne Frank”, assim foi denominada, porque fora sem o querer, um refrigério de ternura e esperança desta jovem judia em meio ao cenário desolador que convivera, forçada a se esconder durante 25 meses num sótão camuflado, fugindo da intolerância dos homens e de sua crueldade. Ela, uma jovem de quatorze anos apenas, a sonhar e imaginar um mundo florido e doce, em meio a tanta aspereza e maldade.

 

Ah maldade! Quanta maldade os homens ainda podem fazer! Os de ontem, os de agora e os que virão. Os de ontem por inspiração, os de agora porque já são notícia, e os que virão porque a intolerância é fruto do temor, e os homens sempre temem o que lhes parece dessemelhantes.

 

Como acontece hoje com “a árvore Branca”, frondosa, admirável e harmoniosa no pátio do Liceu de Jena, aberta em agasalhos a todos, sem distinção, mas que está despertando a odiosidade nunca de todo abolida.

 

E as árvores, indiferentes a estas discórdias, existem para o descanso e para o deleite, dos pássaros ágeis e dos homens frágeis.

A Castanheira de Anne Frank está à morte.

 

Mas, os homens, talvez por serem mais frágeis que as árvores, se fazem em rotina recorrente, intoleráveis e intolerantes. E assim, a árvore frondosa em ramas, em copas e em sombra magnífica, despertara ódios esquecidos, só porque estudantes Brancos se sentiram aviltados, porque seus colegas Negros aí resolveram partilhar deste mesmo abrigo.

 

“E esta árvore é ‘Branca’”, dizem os estudantes brancos; “não é uma árvore ‘Negra’!”.

 

“E o que é uma árvore? Existe árvore ‘Branca’ e árvore ‘Negra’?” Pergunta-se a própria árvore com as suas ramas alongadas em abraços.

 

Com os ouvidos moucos aos dramas das árvores, para os habitantes de Jena, e seus 85% de brancos horrorosos, aquela árvore é “Branca”. E aí está o cerne da questão intolerante que está a matar, ferir e violentar os homens uns aos outros.

 

Igual ao tempo de Anne Frank escrevendo no seu “Diário”, ao qual deu o nome de Kitty”, em páginas de doçura e carinho, imersas num ambiente hostil e deprimente.

 

Mas, o mais deprimente é saber que tudo isso se repete, ensejando fugas, despertando iras, a triturar o espaço vital e legal, e até esmigalhar os sonhos e os anseios do espírito.

 

Restando apenas aos que sofrem apelar para a compreensão dos homens e suas bandeiras. Como Kitty”, o Diário de Anne Frank, no qual esta garota escrevia o que sentia, pensava e o que fazia, em meio a tantas desgraças.

 

Desgraças que se repetem. Daí a crônica de Laurent Greilsmar que passo a traduzir livremente do Le Monde de 08.10.2007:

 

“Que é uma árvore? Nem sempre o sabemos. Na maior parte do tempo nosso olhar desliza, ignora a árvore encontrada. As árvores fazem parte de um todo: nós as desprezamos, passamos sem as ver.

 

Literalmente, nós as fundimos na paisagem. Mas, quando uma árvore retém a atenção: nosso olhar é então fisgado. Nossa mão se põe sobre a casca do tronco como a crina de um cavalo…

 

Pode-se admirar uma árvore, pode-se amá-la. Uma árvore é uma fonte de energia, de vida e de beleza.

 

A gente pensa nisso lembrando que a castanheira situada no pátio da casa de Anne Frank está condenada.

 

Aquela, não é inteiramente uma árvore qualquer. Era um dos raros cenários da natureza, que a jovem adolescente judia, reclusa durante dois anos num celeiro de Amsterdã durante a segunda guerra mundial, podia observar deixando flutuar sua imaginação.

 

Ela aí tinha o seu local preferido, conforme escreve em seu Diário, de 23 de fevereiro de 1944, em companhia de Peter: ‘Nós dois observamos o belo e magnífico céu, a castanheira despida de ramos, do qual cintilavam pequenas gotas, as gaivotas e outros pássaros que pareciam de prata no sol, e tudo isto nos emocionava e nos atraía os dois, a tal ponto que nós não podíamos mais falar. ’

Anneliese Marie Frank, mais conhecida como Anne Frank, (Frankfurt am Main,12 de Junho de 1929 — Bergen-Belsen, início de Março de 1945) foi uma judia obrigada a viver escondida dos nazistas durante o Holocausto. O seu diário, guardado durante a guerra, foi publicado pela primeira vez em 1947, está atualmente traduzido em 67 idiomas, e é um dos livros mais lidos do mundo. O local onde a família de Anne Frank e outras quatro pessoas viveram para se esconder dos nazistas ficou conhecido como Anexo Secreto e tornou-se um famoso museu após a publicação do diário. (Wikipédia, a enciclopédia livre.)

 

A 13 de maio de 1944 ela anota ainda: ‘Nossa castanheira está totalmente florida; de alto a baixo, ela está coberta de folhas e muito mais bela que no último ano’.

 

Esta árvore com 150 anos de idade está hoje doente a ponto de estar em questão abatê-la.

 

Mas, pode-se cortar a árvore de Anne Frank? Ela não se tornou o símbolo de uma reclusão e da liberdade? Não era ela uma grande irmã, uma confidente, uma consoladora? Não foi Anne Frank quem escreveu: ‘Tanto tempo quanto isto dure e quanto eu possa disso aproveitar, estes raios de sol, este céu sem nenhuma nuvem; é-me impossível estar triste’.

 

Ai! Que terrível! No presente, o tronco está atacado por cogumelos, roído e corrompido por insetos parasitas. A metade do seu âmago está oca e ameaça tombar.

 

O proprietário e as autoridades municipais, inquietas, autorizaram sua condenação à morte, propondo replantar no mesmo lugar um enxerto da mesma castanheira.

 

Mas a árvore de Anne Frank encontrou defensores. Tudo, salvo a morte! Um tratamento e uma estrutura leve de sustentação, dizem eles, poderia salvar a castanheira. O Instituto Anne-Frank obteve um prazo até 1ºde janeiro para fazer uma proposta.

 

Que é então uma árvore? Avalia-se melhor agora. É muito mais que uma matéria inerte. É uma amante e um espelho. Uma parcela de história e de esperança.

 

O velho carvalho traz consigo a sabedoria, a acácia a leveza, o choupo a elegância, o cipreste a austeridade. Uma árvore é o sopro e a vida.

 

Na Louisiana, no pátio do liceu de Jena, uma árvore de porte impressionante protegia durante as recreações os jovens Brancos dos raios do sol. Em 2006, jovens Negros tiveram a audácia de se abrigar sob a folhagem protetora. No dia seguinte os alunos descobriram, amarrados a um galho da árvore, três cordas com nós de correr… No Sul profundo, este sinal não engana e significa: ‘negros sujos, passem para o seu caminho!’

 

Annick Cojean contou esta história no Le Monde de 18 de julho. Ela também retratou a incrível sucessão de tensões e de conflitos que se seguiram. E ela retornou no Le Monde de 2 de outubro, sobre a prisão por conspiração, e golpes, e feridas agravadas, após a libertação do jovem negro Mychal Bell.

 

In fine; a administração do liceu mandou proceder à derrubada desta árvore da cólera. Para apagar. Para sepultar a vilã chaga do racismo.

 

Erguida em majestade, aquela árvore protestava. Ela era por si só, abandonada, um grito de dor e de apelo.”

 

 

Por fim: Ao fazer este artigo, eu me lembrei do poeta Araripe Coutinho, pela sua sensibilidade com os que sofrem diante da intolerância do humano.

Achei que a “árvore Branca”, condenada à morte pelo povo de Jena, e “a castanheira de Anne Frank” lhe poderiam ser um tema de muita inspiração.

Fica como sugestão ao amigo Araripe Coutinho, deste não tão poeta, nem tanto afim esteta, que está a lagrimar com este choro de árvores.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
Comentários