Cadê a praia que tava aqui?

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Quando eu era garoto costumava ir com uma turma pescar siri na Praia 13 de Julho. Meu tio José, que morava por aquelas bandas, ainda hoje chama o lugar de Praia Formosa, afinal foi assim que ele a conheceu quando chegou por lá ainda nos anos 50.

Na sua época, a praia era quase uma vila de pescadores e parecia longe à bessa. Tanto que até um dia desses, ainda se lia “Bem vindo à Aracaju” no obelisco da -hoje chamada- curva do Iate. Mas disso ninguém deve se lembrar mais.

Foi a chegada do Iate, aliás, que consolidou a valorização da praia. Iates Clubes naquele tempo eram símbolos de status, sinônimos de aristocracia. Quem tinha carteirinha tava bem na fita, era de “família boa”. Quem não tinha, dava um jeito de entrar pela maré mesmo. Eu era um desses.

Lembro que depois de uma tarde inteira administrando as iscas que fazíamos com cordão e isopor, chegávamos em casa com cheiro de praia e um balde cheio de siris que eram logo devidamente postos na panela com um pouquinho de água e uma boa mão de sal. Depois era só encher a pança (devo confessar que preferia as fêmeas ovadas, não eram tempos “politicamente corretos”).

Aos poucos foram chegando os primeiros edifícios de apartamentos. Primeiro um prédio isolado, depois um condomínio com dois blocos, depois uma porção deles. Posto de gasolina, farmácia, supermercado e o bairro foi ficando cada vez mais chic. Seus imóveis, cada vez mais valorizados.
Por outro lado, a praia ficava cada dia mais estranha. A areia foi sumindo e em seu lugar foram surgindo galhos e folhas de uma vegetação que não existia antes por ali.

Disseram que não era mais pra gente tomar banho porque a água tava cheia de coleiformes fecais. A gente não sabia bem o que era isso, mas já intuía.

Ruim mesmo era o mau cheiro na maré baixa. Não dava nem pra ficar na baloustrada. Uns diziam que ali estava surgindo um novo manguezal, outros juravam que era só mato crescendo em meio à rede de esgotos sem tratamento que desembocava dos canais. Por absoluta falta de consenso, a maioria abandonou o hábito de pescar siri, jogar bola, tomar banho ou fazer qualquer coisa na antiga prainha.      

A maré sumiu e -manguezal ou não- o verde hipertrofiou.

A cidade cresceu, os garotos viraram adultos, casaram, separaram, mudaram de bairro e alguns até de cidade ou de país. A casa do meu tio foi demolida. Em seu lugar surgiu mais um edifício de apartamentos.


 

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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