Das “qualidades” do Sr. Presidente

0

O discurso do ódio, indecoroso, que destrata os semelhantes, calunia os adversários, desrespeita a ordem constitucional vigente, além de ser vulgar e desconexo da realidade, vocaliza o despreparo do capitão Jair Messias Bolsonaro para ocupar o cargo de presidente do Brasil. E não é novidade que seja assim. Se há uma qualidade a destacar no capitão é a sinceridade: nunca enganou nenhum eleitor, muito menos seus fiéis seguidores. Foi transparente sobre quem era e o que seria caso eleito.

Perante os olhos do mundo, perplexos com o que estão assistindo, Bolsonaro é um acidente de percurso inexplicável na história política do Brasil. E olhe que a democracia deste país já está acostumada a derrapadas e sobressaltos.

Talvez ele seja franco até demais, um sincericida assumido a expor a própria atávica ignorância, que vai minando o governo de slogan grandiloquente e terrivelmente cristão. Mas não basta ser sincero para dirigir uma das maiores nações do mundo. Principalmente quando alguém revela estas terríveis qualidades:

É homofóbico e misógino – Bolsonaro falando sobre a recusa do Museu de História de Nova York em sediar o evento organizado pela Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos, que faria uma homenagem a ele, reconhecendo sua imagem de homofóbico: “O Brasil não pode ser um país do mundo gay, de turismo gay. Temos famílias”. E arrematou: “Quem quiser vir aqui fazer sexo com uma mulher, fique à vontade. Agora, não pode ficar conhecido como paraíso do mundo gay aqui dentro”. (26 de abril)

É desrespeitoso 1 – “Se você perguntar a fórmula da água, não sabe, não sabe nada. São uns idiotas úteis que estão sendo usados como massa de manobra de uma minoria espertalhona que compõe o núcleo das universidades federais”, foi o que Bolsonaro disse sobre estudantes e professores que protestavam contra os cortes na educação. (15 de maio)

É antiético, indecoroso, desumano e irresponsável – “Ele não vai querer ouvir a verdade. Conto pra ele. Não é minha versão. É que a minha vivência me fez chegar nas conclusões naquele momento. O pai dele integrou a Ação Popular, o grupo mais sanguinário e violento da guerrilha lá de Pernambuco e veio desaparecer no Rio de Janeiro”, declarou sobre o desaparecimento durante a ditadura de Fernando Santa Cruz, pai do presidente da OAB, acrescentando uma mentira, que ele foi justiçado pelos próprios companheiros. A afirmação que pode ser enquadrada na lei de crimes de responsabilidade. (29 de julho)

É xenófobo – “Não tem nenhum indício forte de que esse índio foi assassinado lá. (…) Buscarei desvendar o caso e mostrar a verdade sobre isso aí.” Sobre o assassinato do cacique Emyra Waiãpi, após invasão da terra indígena Waiãpi, no Amapá. O cacique teria sido esfaqueado, segundo testemunho indígena. Bolsonaro é citado até nas grandes publicações do exterior pelo seu desejo insano de promover a exploração econômica das reservas indígenas. (29 de julho)

É desrespeitoso 2 – Em vídeo no qual aborda o programa Mais Médicos, o presidente afirma que os médicos não aprovados na revalidação dos diplomas deveriam “arranjar outra profissão, ou então ficar como enfermeiros, ganhando menos”. (1º de agosto)

É nepotista e mal-educado – “Não botaram minha esposa. Por quê? Bota a minha esposa! Trabalhou na Câmara comigo, porra! Bota lá, porra! (…) Vamo parar com essa história, essa bobeira. A campanha acabou pra imprensa, eu ganhei. A imprensa tem que entender que eu, Johnny Bravo, Jair Bolsonaro, ganhou, porra. Ganhou, porra!”. Sobre ele e seu filhos terem empregado 102 familiares ao longo dos anos. (5 de agosto)

É incivilizado – “(É) um herói nacional, que evitou que o Brasil caísse naquilo que a esquerda hoje em dia quer”. Sobre o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, único oficial do Exército condenado em razão da prática de ato ilícito durante a ditadura e que teria torturado pessoalmente a ex-presidente Dilma Rousseff, a atriz Bete Mendes, o médico e vereador Gilberto Natalini (PV-SP), dentre inúmeras outras vítimas. A Arquidiocese de São Paulo denunciou mais de 500 casos de tortura ocorridos no DOI-Codi entre 1970 e 1974, quando Ustra era o comandante. (8 de agosto)

É escatológico e ignorante – “É só você deixar de comer menos um pouquinho. Você fala para mim em poluição ambiental. É só você fazer cocô dia sim, dia não, que melhora bastante a nossa vida também” (9 de agosto)

É separatista – “Queria que a Globo botasse no ar um vídeo com uma canção lá do Nordeste, chama-se Chuva de Honestidade”, afirmou. “É uma canção que é mais velha que eu, de 54, e o que o Nordeste sempre precisou foi disso, chuva de honestidade. E o Brasil agradece”, acrescentou. Antes já havia se referido aos governadores da região como “governadores de Paraíba”, disse que as prefeituras nordestinas são mais inadimplentes, o que não é verdade, e demonstrou “seu amor” à região afirmando que só faltava crescer a cabeça para se tornar um nordestino. Entre os nordestinos subiu para 53% os que consideram seu governo ruim ou péssimo. (11 de agosto)

É desrespeitoso 3 – Naquela mesma aparição ele soltou essa pérola sobre os jornalistas: “Não tem nenhum urubu aí? Urubu que eu chamo é repórter. Vocês [cinegrafistas] não. Vocês são tropa amiga. Não tem nenhum urubu não?” (11 de agosto)

É refratário à ciência – “A questão do Inpe, eu tenho a convicção de que os dados são mentirosos, e nós vamos chamar aqui o presidente do Inpe para conversar sobre isso, e ponto final nessa questão”, afirmou o capitão, durante um café da manhã com jornalistas estrangeiros. “Mandei ver quem está à frente do Inpe. Até parece que está a serviço de alguma ONG, o que é muito comum”, insinuou. Provocou a revolta e a demissão do presidente do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o cientista Ricardo Galvão, 71 anos, professor titular da USP, membro da Academia Brasileira de Ciências, presidente da Sociedade Brasileira de Física durante três anos, membro do Conselho Científico da Sociedade Europeia de Física durante três anos. “Maus brasileiros usam dados falsos contra a Amazônia”, insistiu Bolsonaro, ignorando que a economia brasileira corre risco de perdas adicionais de R$ 5 trilhões em consequência da política ambiental do governo, segundo calcularam pesquisadores da UFRJ, UFMG e UnB.

É descortês e mau diplomata 1 – Bolsonaro afirmou que a Alemanha “vai deixar de comprar à prestação a Amazônia”, quando se referiu à suspensão dos investimentos do país europeu no Fundo Amazônia: “Pode fazer bom uso dessa grana, o Brasil não precisa disso”. (11 de agosto)

É descortês e mau diplomata 2 – Apoiando abertamente a reeleição de Mauricio Macri, disse que o Brasil poderia ver “irmãos argentinos fugindo para cá” caso o que ele chama de “esquerdalha” vença as eleições presidenciais de 27 de outubro. A crítica foi direta à chapa Alberto Fernández e Cristina Kirchner, que venceu com folga, no domingo, as prévias presidenciais da Argentina, nosso terceiro maior parceiro comercial, depois de China (com quem também já criou problema) e Estados Unidos. (12 e 13 de agosto)

É chulo e disparatado – “Vamos acabar com o cocô do Brasil. O cocô é essa raça de corruptos e comunistas”, disse, em visita ao Piauí, onde foi participar da inauguração de uma escola do Sesc que leva o seu nome. (14 de agosto)

É esse o homem que preside o Brasil. Como disse Valdete Souto Severo, presidente da Associação Juízes para a Democracia, “não é possível seguir afirmando que vivemos em um Estado Democrático de Direito se a pessoa eleita para nos representar nega, constante e diariamente, os mais elementares princípios para uma convivência humana minimamente saudável e democrática”.

Comentários