Educação: um futuro perverso?

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“O emprego do século 21 requer habilidades mentais”. Exige raciocínio rápido, capacidade de interpretação e de análise da informação. “Atributos que só são adquiridos com ensino de qualidade.”

Célio da Cunha[1] (representante da Unesco no Brasil para a área de educação)

 

Durante um período da minha vida exerci, algumas vezes, a atividade de professor, seja em sala de aulas da organização que trabalhava, seja como professor convidado de instituições de ensino. De início por conta de uma tremenda timidez, dar aulas para mim era um martírio que tinha que enfrentar apenas por conta do cargo e da minha experiência. Por muitos e muitos anos lutei duramente contra esse medo pavoroso de exposição que tinha e fui aprendendo, gradativamente, a me colocar à frente de um público, terminando por passar um ano em um curso de teatro, que salvou a minha pele e rende frutos até hoje.

 

Todavia, por mais que quisesse sempre vinha à minha mente a comparação de quando eu estava nos bancos universitários de uma então famosa faculdade pública nordestina, poderosa, tão seletiva a ponto de possuir um exame vestibular caracterizado por provas escritas e orais. Portanto, entrar nessa escola não era nada fácil, todavia, não posso negar que era um mundo à parte; salas de aula com microscópios suíços para cada aluno, ar refrigerado, professores oriundos das mais diferentes universidades do mundo, ônibus para alunos, excursões curriculares, sala de estudo individualizada e uma bolsa de estudos para cada aluno.

 

Nessa época da minha vida nunca imaginei que estava vivendo uma experiência que poucas pessoas estavam tendo na mesma ocasião e acredito que poucas têm hoje em dia. Foi na sala de aula da faculdade que aprendi com um famoso e carismático cientista alemão que o professor poderia sair da sala de aula em uma prova e os alunos sequer iriam virar a cabeça para olhar para a prova do colega ao lado. Foi lá que aprendi a pensar rápido, a enfrentar desafios apesar da minha timidez, a sonhar e estar sempre correndo à frente do tempo.

 

Foi com um professor indiano que aprendi que “política precisa um pouco meu rapaz” para poder trabalhar a minha rigidez de postura e de aceitação; foi com a famosa maranhense Maria do Socorro Adussumili[1] que aprendi a ser cumpridor dos horários, a pesquisar, a estudar em vários livros e com um professor holandês que deveria desde cedo aprender a respeitar as diferenças. E no início dos anos 70 tinha aulas curriculares em inglês numa faculdade nordestina. Loucos tempos, perigosos tempos[2], belos e inesquecíveis tempos!

 

Foi na minha formação universitária que vi o poder dos meus professores, e o poder da ética do ensino quando o conselho da minha faculdade se reuniu e decidiu que não iria expulsar um aluno, acusado do “comunista” em pleno governo militar e todos os professores assinaram uma carta de demissão coletiva, um escândalo de tamanha monta, naquela ocasião, a ponto do Governador do Estado sair do Palácio do Governo para ajudar a resolver esse impasse.

 

Os tempos mudaram. Os professores mudaram. O tratamento dado aos mestres mudou, infelizmente. E, também como era de se esperar os alunos mudaram. Muitos anos depois, vivendo uma experiência já como professor em uma faculdade por alguns anos me impressionou com o pouco caso que os próprios alunos davam ao seu curso, às aulas que eles mesmos pagavam, muitas vezes com dificuldade e como, a maioria se engana acreditando que com um simples diploma, muitas vezes conseguido com um sacrifício sobre humano, irá mudar a sua vida por completo.

 

O que aconteceu com nosso ensino? O que aconteceu com nossos professores? O que está acontecendo com nossos alunos de hoje? Não sabem pensar. Não conseguir exprimir o seu pensamento com clareza e muito menos manter uma conversa por algum tempo? O pior ainda, muitos sequer conseguem sonhar, planejar, nem trabalhar com um cronograma e muito menos se imaginar cinco anos à sua frente?

 

Numa época de globalização vi escandalizado que a maioria dos alunos copia e cola tudo da internet, que contratam pessoas para fazer os seus trabalhos curriculares, que não investem o seu tempo para pensar no seu próprio futuro e muito menos conseguem estudar seriamente ou ler sequer um livro.

 

Para onde estamos todos caminhando? Hoje no mundo organizacional observo a falta que uma boa faculdade faz para muitos profissionais. Percebo que muitos entram numa zona de conforto tão jovens que fico imaginando que tipo de “bicho pré-histórico” será dentro de alguns anos?. Medo de decidir, medo de se comprometer, medo de enfrentar conflitos, medo que disseminar conhecimento…

 

O nosso sistema de ensino é arcaico, nossas universidades públicas em sua grande maioria são freqüentadas por alunos ricos que podem assistir aulas durante o dia, os programas de mestrado e pós são para turmas muito pequenas, ao invés de se fazer como no primeiro mundo onde as turmas de pós e mestrado são enormes. Assim sendo, o investimento do governo em um aluno brasileiro que freqüenta a Universidade é da ordem de $ 10,000.00/ano; ou seja cerca de R$ 1.833,00 por mês. Mesmo assim, continuamos na lanterninha mundial a ponto de empresários brasileiros inconformados com a nossa realidade fazerem comentários desse porte:

 

Sinal de alerta[3]

A baixa qualidade do ensino tornou-se uma preocupação para a cúpula das empresas e para os estudiosos da economia

“Não tenho a menor dúvida de que o baixo crescimento do Brasil nos últimos anos está diretamente associado à baixa qualidade do ensino”
Edward Glaeser, economista e professor da Universidade Harvard

“Se o Brasil engrenar um novo surto de crescimento,v ai parar por falta de gente qualificada para trabalhar”
Marcos Magalhães, presidente da Philips

“Estou aflito com os baixos níveis educacionais do Brasil — estamos perdendo a corrida da competência no mundo globalizado”
Jorge Paulo Lemann, acionista da Inbev e das Lojas Americanas

 

A pergunta para reflexão que gostaria de deixar essa semana é: “Como poderemos iniciar um processo de transformação da educação no Brasil que contemple, entre outras coisas, o desenvolvimento da capacidade de pensar dos indivíduos?”



[1] PHD em Mineralogia.

[2] Muitas vezes as faculdades eram atacadas pelos famosos grupos CCC – “Comando de Caça aos Comunistas”

[3] O preço da ignorância, Revista Exame, 26.09.2006

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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