Eleição atípica

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Duas chapas foram registradas para as eleições da Ordem dos Advogados do Brasil Secção Sergipe. A Chapa 1 (“OAB de TOD@S”) é encabeçada pelo atual presidente Inácio Krauss que vai para à reeleição. A Chapa 02 (“Nova Ordem”) traz à frente o neófito e pouco conhecido advogado Danniel Alves Costa que aposta nos advogados recém formados, mas tem o ex-presidente Carlos Augusto Monteiro como seu mentor e articulador. Ambos os candidatos fizeram seus registros de forma cuidadosa, respeitando os protocolos de saúde.

A falta de motivação era tamanha que senti saudades da última campanha em que Henri Clay foi candidato, quando uma multidão de pessoas saiu em caminhada do escritório da Advocacia Operária em direção à Ordem, atrapalhando o trânsito da capital. O ato foi seguido de um discurso inflamado de HC que adora um microfone. Empolgação e fogos não faltaram.

Não muito diferente e igualmente vibrante foi a inscrição da advogada opositora Roseline Rabelo, na época apoiada por Carlos Augusto que, assim como Clay, só não fez atrapalhar o trânsito.

Não fosse a figura de Carlos Augusto Monteiro, o arquiteto da Chapa 2 (“Nova Ordem”), estaríamos diante de uma eleição atípica do histórico de disputas pela OAB/SE pois teríamos, de um lado, um grupo da situação que, em tese, comanda a Ordem há décadas (Chapa 1 “OAB de TOD@S”) em detrimento de um grupo encabeçado pela nova “cara” da advocacia sergipana – poderíamos de fato contemplar o desejo de mudança ou não do eleitorado da nossa classe. Seria sim uma disputa honesta, de cartas na mesa, sem bastidores ou subterfúgios ocultos.

Mas o cenário de propostas e chapas da OAB/SE permanece o mesmo, sem novidades. É o que chamamos de crise da representatividade.

Na política como na OAB estamos diante da crise da democracia representativa, caracterizada sobretudo pelo enfraquecimento do vínculo representativo entre o eleitor e o candidato. Resultado: o eleitor não se sente representado, há um desencantamento e descrença diante da oferta e o resultado são eleitores apáticos e desiludidos, muitas vezes hostis às instituições representativas tradicionais. É o que tenho sentido nos bastidores das eleições da OAB/SE.

Voltando aos ti-ti-tis atuais, nos meus cafés escutei de um colega que Carlos Augusto teria procurado Arnaldo Machado para ser candidato e ele teria se recusado pois estava no meio do doutorado que o exige muito. Depois o bom Carlinhos fuçou sem sucesso outros nomes para chapa. Com isso, partiu para o plano “C”, optando por um nome que, mesmo sem expressão e popularidade na advocacia tradicional, tivessse potencial de votos junto ao jovem advogado. Assim nasceu a chapa de Costa e Monthe.

Enquanto Carlos Augusto montava a Chapa 02, Inácio Krauss se movimenta com astúcia, porém sem tanta malícia, para manter a união do seu grupo. Krauss foi capaz de frear Ana Lúcia e contemporizar as pretensões de Aurélio Belém.

Blogs diziam que o grupo rompera e que ABES seria candidato iniciando uma terceira via. Outros afirmavam que Ana Lúcia já não mais atendia Krauss. Lançaram até um áudio contra Krauss, desabonando sua pessoa e conduta. Mas nosso presidente encarou com maestria as dificuldades, contornando-as tais quais os obstáculos pandêmicos. Portou-se como um estadista e manteve o grupo forte e coeso.

Enquanto isso, surgira um grupo denominado “PAUTA LIVRE”, formado por advogados  independentes que discutiam de forma inteligente a Ordem e como ela deveria ser, conquistando  por suas colocações e argumentos o público mais novo.

Dentre os assuntos, comentaram sobre indicações para os tribunais superiores; sobre o histórico da instituição advocatícia e sobre a boa advocacia, mas nenhum deles se revelou disposto a assumir o “timão do barco” e “pôr o bloco na rua”, talvez por medo de enfrentar o velho sistema político ou talvez por receio de pôr a mão na massa. Como dizia o profeta: pregar e não praticar é negar a Deus. De acordo com os pensadores da advocacia sergipana, o grupo teria projetos políticos para o futuro, mas, logo na inscrição da Chapa 2, um deles apareceu como candidato ao Conselho Federal. Logo, ficou subentendido que tratava-se de apoiadores de Carlos Augusto insatisfeitos com a indicação de Costa para encabeçar a chapa.

Política é assim mesmo, e política de classe pior ainda. Penso que a “Pauta Livre” foi tão livre que voou, voou e desapareceu no horizonte. Esperamo-la no próximo verão – Eleições de 2024 – e que ela volte de fato mais livre.

É preciso compreender que o litígio de Carlos Augusto e Henri Clay é pessoal e restrito aos litigantes. Não podemos ficar no meio desse muro de lamentações e esquecer que somos advogados, todos potenciais candidatos e membros da mesma instituição, não somos meninos de recado de nenhum deles.

Carecemos sim analisar as entrevistas dos candidatos que nos representarão nos próximos três anos e avaliar a representatividade e capacidade administrativa de cada um. Colocar na balança seus atributos, experiência de Ordem e a capacidade de transitar em todas as esferas da Justiça, colocando a advocacia no seu patamar. Clamamos por alguém que reveja seus discursos e não coloque nossa classe em apuros. Frases como OAB preta e cobranças por campeonatos de futebol em plena pandemia não pegam bem. Pensem nisso!

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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