Lula em Sergipe: muito palco, pouca obra e discurso eleitoreiro

A visita de Lula a Sergipe teve número bilionário, fotografia bonita, palanque montado e promessa para todos os gostos. Teve Petrobras, Fafen, Hospital de Amor, equipamentos, veículos e até VLT ligando Aracaju, São Cristóvão e Laranjeiras. Foi anúncio demais para entrega de menos. O governo vendeu futuro como se fosse mercadoria pronta na prateleira, mas o sergipano continua querendo saber o básico: quando a BR termina, quando Xingó anda, quando o emprego chega e quando a promessa deixa de ser discurso para virar obra.

O pacote de R$ 72,5 bilhões da Petrobras foi o grande espetáculo da agenda. É um número bonito, imenso, quase cinematográfico. Mas investimento da Petrobras não é pix, não cai no bolso do povo no dia seguinte e não vira canteiro de obras por decreto de palanque. Tem licenciamento, contrato, engenharia, execução e tempo. Muito tempo. O problema é que, em ano eleitoral, promessa ganha salto alto, maquiagem e legenda institucional. Só falta combinar com a realidade, essa velha inconveniente que insiste em cobrar cronograma.

Na saúde, Lula visitou o Hospital de Amor, em Lagarto, e anunciou equipamentos importantes. Ponto positivo, sem dúvida. Mas também sem exagero de propaganda. O hospital já existe, já funciona e já atende. O paciente não quer solenidade na porta, nem discurso emocionado em cima de estrutura pronta. Quer exame marcado, cirurgia feita, remédio disponível e fila andando. Saúde pública não melhora com aplauso. Melhora com serviço funcionando.

O VLT foi o capítulo do realismo fantástico. Sergipe ainda cobra mobilidade básica, transporte decente, BR duplicada e o velho Canal de Xingó, mas de repente apareceu um VLT no discurso como coelho tirado da cartola. Ideia bonita? Pode ser. Obra concreta? Ainda não. Não há trilho, estação, edital, cronograma firme nem pá de cimento. Por enquanto, é promessa com ar-condicionado imaginário.

Mas a grande cena nacional veio com a fala sobre PCC e Comando Vermelho. Lula disse estar triste porque os Estados Unidos classificaram facções brasileiras como terroristas e falou em risco de intervenção. Pronto. A frase saiu de Sergipe e virou comédia nacional com sirene ligada. Enquanto o Brasil sofre com facções que mandam em presídio, favela, porto, rota de droga e até bairro inteiro, o presidente conseguiu transformar criminoso em problema diplomático delicado. Faltou pouco para parecer que o PCC precisava de nota de pesar e o Comando Vermelho de proteção consular. A tal “intervenção americana” virou uma blitz de filme ruim, daquelas que todo mundo comenta, mas ninguém acredita que vá acontecer.

O único momento republicano da agenda foi quando Lula interrompeu a vaia contra o senador Laércio Oliveira na Fafen e pediu respeito. Ali, ao menos, agiu como presidente, não como animador de torcida. Laércio foi vaiado, o ambiente ferveu, e Lula teve que lembrar aos presentes que adversário político também deve ser ouvido. Nas imagens que circularam, dava para perceber o constrangimento de uns e a satisfação de outros. Parte da militância parecia se divertir com a vaia como quem assiste a uma cena ensaiada. Mas Lula, nesse ponto, acertou: civilidade não pode depender da cor da camisa.

No fim, Lula deixou Sergipe com muitos anúncios, Fábio Mitidieri ficou com a fotografia, os petistas saíram sorrindo de Laércio e o povo ficou com a pergunta de sempre: quando isso tudo vira realidade? Porque discurso bonito tem de sobra. O que falta é obra pronta, emprego aparecendo, estrada andando e promessa saindo do palanque. O resto é propaganda com crachá oficial, fumaça eleitoral e aquela velha conversa para boi dormir, agora com direito a VLT imaginário e facção criminosa tratada como crise diplomática.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.

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