“Eles nada aprenderam nem esqueceram”

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“Eles nada aprenderam nem esqueceram.”

A frase acima, muito repetida atualmente por vasto conjunto de formadores de opinião, é atribuída a Charles-Maurice Talleirand-Périgot (1754-1838), fora aplicada aos Reis Bourbons, franceses e espanhóis, quando estes após vinte e cinco anos de banimentos e perseguições, ao serem restaurados no poder, estavam a repetir os mesmos erros que conduziram a sua derrubada anterior, em farto exemplo de grande sangria em fuzilamentos e degolas.

Talleyrand, o célebre político francês, contemplara tudo isso em sobrevivência e serventia exemplares.

Fora poupado pelo Terror, servindo a República, do Diretório ao Consulado, destacado Ministro no Império de Napoleão em ascensão e queda. Continuou Ministro no fugaz reinado de Luís XVIII, persistindo também nos “Cem Dias” de Bonaparte, e no retorno definitivo dos reis Bourbons, Luís XVIII e Carlos X, após a debacle de Waterloo.

Sua frase tema do momento, “os Bourbons não terem aprendidos nada…”, se referia à queda tumultuada de Carlos X, que só não teve a mesma sorte do irmão, Luís Capeto (Luís XVI), porque conseguiu fugir da turba enfurecida conseguindo manter a cabeça presa no pescoço. Perdera a coroa mas conservara o cocuruto.

Quanto à coroa, ajustou-se melhor a uma outra dinastia, a do Rei burguês, Philipe de Orleans, de quem Talleyrand se fez também Ministro, não chegando a contemplar a queda deste rei financeiro, porque não veria as “Jornadas de “Julho”, provocadas de novo pelo populacho enfurecido, afinal morreria, dez anos antes, em 1938, sem ver os fatos bem narrados por Alexis de Tcqueville, em seus “Souvenirs” de 1948.

De Talleyrand, sabe-se que na juventude pulava o muro do Seminário para ter encontros amorosos com belas mulheres, fato que o levou a receber sanções por descumprimento ao compromisso de celibato.

Tal “abrasamento”, o pecado sexual que fazia ferver o sangue, não o impediria de receber a sua ordenação como Presbítero e depois granjear a sotaina episcopal, com os rins cingidos por faixa violácea, em votos celibatários, quando assumiu o Bispado de Autun, na comuna da Borgonha do Franco Condado.

Como Bispo, conspirou nas prévias da Revolução Francesa, abjurando depois as próprias vestes episcopais para abraçar a Constituição Civil do Clero, sendo excomungado pelo Papa, restando genial em sobrevivência politica, entre tantos defeitos e enormes virtudes.

Pois bem!  Segundo o pensar deste célebre político, conhecido como “diabo manco”, por deficiência física a limitar-lhe os movimentos, os Reis Bourbons insistiam em cometer os mesmos erros dos seus antepassados.

Desacertos que lhes seriam fatais, pois terminaram escorraçados pelas multidões enfurecidas.

E as multidões não se enfurecem por acaso.

Atualmente, mesmo sem fúria nem ira, os articulistas vêm empregando o mote de Talleyrand, para concentrar suas baterias contra o PT, o alvo da vez, que insiste em teimar contra os fatos, a última eleição em particular, imaginando agora que tudo mudou, há uma perigosa correnteza iliberal e antidemocrática a resistir, uma maré fascista, quiçá nazista, a repulsar.

De repente, tais pessoas, face a eleição do Capitão Bolsonaro, imaginam que 60% dos brasileiros viraram seguidores de Hitler, Mussolini e Hirohito, cujos cadáveres, de tão distantes e esquecidos, não valem nem aquele sábio réquiem sertanejo, de bom responso: “defunto que não se conhece, nem se reza, nem se oferece”.

Um deboche que em melhor correção, vale repetir: “Defunto que não conheço, nem rezo, nem ofereço!”.

Sem zoada ou caçoada, a frase de Talleyrand, bem vale uma reflexão diante de outros fatos como aqueles que vem acontecendo na França em crescente agitação popular, e em Sergipe por estultice recorrente, individual e só nossa, de opiáceo próprio, particular.

Na França, o noticiário fala dos “gilets-jaunes”, os coletes-amarelos, multidão assim fantasiada para bem protestar contra o insucesso da política econômica do Presidente Emanuel Macron, que no ensejo  de seguir diretrizes emanadas da união europeia, está elevando o preço dos carburantes, de modo a desestimular o uso dos motores diesel, numa política madrasta contra o cidadão que gradativamente vem sendo forçado a destinar seus automóveis ao ferro velho, substituindo-os por motores elétricos, ainda escassos e mais custosos, e de menor autonomia.

Em verdade, poder-se-á dizer, que tudo isso seja uma consequência da “destruição criadora”, corolário advindo da notável tese, “A Teoria do Desenvolvimento”, datada de 1911, do economista austro-americano, Joseph Alois Shumpeter (1883-1950).

Há, no entanto, um erro nesta avaliação, porque a destruição criativa não pode ser fruto de uma imposição governamental, como está ocorrendo na França.

A destruição criativa decorre das nascentes tecnologias que por comodidade, rapidez e melhor custo substituírem naturalmente os processos produtivos antigos, aposentando-os por obsoletos.

Neste contexto, não foi à toa que o Presidente Bolsonaro conseguiu sua eleição prescindindo de tempo televisivo, dispensando espaço de jornais e até contrastando bons conceitos de maus formadores de opinião.

Vimos todos, com real surpresa, que uma simples “live” alcançou notáveis índices de compartilhamento, deixando a imprensa escrita, o rádio e a televisão batendo cabeça sem entender que toda mídia, sobretudo a mais custosa, está sendo banida para a lata de lixo da história das comunicações.

Ou não tem sido assim com os jornais perdendo assinantes, mundo afora?

Voltando agora à politica de Macron querendo aumentar o custo do carburante ao privilegiar uma tecnologia nova que ainda não conquistou seu espaço, no gosto e desejo popular, me faz lembrar da tola decisão petista de universalizar em terra pátria a tomada de três pinos, única no mundo, colocando o Brasil na contramão do mundo todo; um excelente óbice nas relações comerciais internacionais de compra e venda, inspirado no estado islâmico, como se fala na internet.

Uma concessão, diga-se em acréscimo, que dada à nossa amorfia e pusilanimidade, não ensejou protestos, nem reprovação.

Quanto a Sergipe e a nossa estultice particular, o noticiário fala que estamos junto a outros Estados do Nordeste, querendo peitar o Presidente Eleito, boicotando reunião geral de governadores e ensaiando uma rebelião jagunça por querer se fazer melhor ouvido em rasgos de oposição.

Ouve-se no noticiário que ousaram até marcar uma audiência especial e particular, para melhor firmar sua insolência e impertinência.

Infelizmente voltaram todos com o rabo entre as pernas.

Digo infelizmente, porque no contexto mal ponderado da Federação, perdeu-se a oportunidade de atender-se um velho interesse dos Presidentes de longa data, isso desde o tempo da Sudene, o de reunir os Governadores do Nordeste, como se fora um médio Estado, sem maior expressão.

Não pensam alguns, que melhor vingaria se fossem apagados os limites e barreiras, de molde a cercar problemas e limitar soluções?

E aqui vale lembrar uma opinião atribuída a Graciliano Ramos, quando da extinção dos Estados brasileiros, no período getulista do Estado Novo: “Se o Estado de Alagoas sumisse do mapa, que bela enseada não surgiria!”

No entanto, nós de Sergipe, teimamos em nada ver, sem enxergar que por excessiva insignificância nossa e de nossas escolhas, perante o contexto republicano e federalista, as obras bancadas pela União, aqui se eternizam sem conclusão.

Um rotineiro desapreço de todos os governos federais, sem exceção!

Lembremos, neste sentido, que a duplicação da nossa BR101 (miúdos 100  Km do Rio Sergipe ao Piauí-Real, outros 100 Km da Praia Formosa ao São Francisco) em décadas de remancho, vem consumindo até verbas do rancho do nosso Exército.

E nesse desmancho ou desmantelo, está agora sendo inaugurada, uma extensíssima lonjura de 18 quilômetros, com direito a banda de música, foguete e mis papocos, com presença de Ministro em fim de feira, sem ninguém contemplar na própria cara, a vergonha bem expressa de tamanha descompostura.

Como não denunciar pior compostura se nestes 18 km concluídos, um Himalaia de rochedo foi demolido e planeado, um Aconcágua rompido e perfurado, e um pantanal amazônico testou saneado e soterrado?

Por acaso há nestes longuíssimos e inesgotáveis 18km de estrada, um terreno pior no mundo para maior desafio a qualquer engenharia, em pontes, túneis e obras d`arte, para plantar uma dupla via, na ligação do Velho Chico ao Rio Real?

Será que é por que no meio existe areia, muita areia, “areia do Maruim, e quem não gosta de areia, areia!, também não gosta de Mim?i, Areia!”

Deve ser alguma coisa mucuim! Coisa de quem não gosta, não de mim, mas de nós. Ou então é falta de vergonha mesmo!

Palmas então para tantos paspalhos aplaudindo o descaso da inauguração!

Tomem jeito, seus mequetrefes!

Babando ovo de um Ministro em fim de feira, firmando promessas a não cumprir!

Neste particular, melhor restou Bolsonaro no noticiário.

Não recebeu ninguém! E nem devia!

Nem o Governador daqui, nem o de além!

Sem desdém, mas invocando mando e comando!

“ Querem fazer oposição, firmar febril resistência, que se virem!”  Uma frase que não  foi dita mas restou bem dita, porque prevaleceu.

E assim o tema volta, com a frase de Talleyrand retornando, afinal Sergipe gosta de ser a cauda infantil, que tenta abanar o cachorro, em desvalia hemi ceitil.

Ficou na oposição nos albores da nova república, único Estado em que o PMDB perdeu, no Plano Real Brasil afora, e depois quando Lula ocupou o Planalto e por aqui apareceu em maio de 2003, dando até “puxão de orelhas” no então nosso Governador, em praça pública, recebendo aplauso até de vil canalha,

Quem quiser rever, veja o texto, “Puxão de Orelhas”, folhas 204 e 205 do meu livro “Despercebido,… mas não indiferente”, com foto e tudo.

É só revisitar a história, para saber dessa nossa luta inglória que agora se repete.

E o pior é que na última eleição, a renovação levou o que bem já merecia, mas varreu o que nos foi melhor destaque, em décadas!, num rescaldo triste a vingar pior.

Os que não pensarem assim, que louvem Sergipe de vento em popa!

Preparado para a guerra, ó que tolice! Parecendo elevar-se aos píncaros gloriosos da nação, sobretudo agora tingido de vermelho, posando de oposição ferrenha em resistência ao Presidente Bolsonaro, Sergipe se desalinha na contramão, sem nem mesmo esperar o aplauso ao capitão refluir.

Se na França os “coletes-amarelos” estão apedrejando as forças da ordem e em Sergipe voltamos estultamente à oposição federal, é porque ali e aqui teimamos em esquecer, e nada aprender, como os Bourbons.

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