Ensaio sobre o não

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Ele pode ser mais importante que o consentimento que o sim proporciona. Causa desdém, vai e vem e ainda assim permitir o sorriso. Se dito com clemência provoca aceitação. Se falado com rancor, cria causos. Quando expressado com gestos dá margem às interpretações variadas. Falado com afinco torna-se o que é: o fim! Quem vive em constante afirmação se perde num beco de lamentações. É batata!

 

 

Sobre seu poder, só posso escrever uma coisa: é fantástico! É maravilhoso o que podemos conseguir para nós quando emitimos uma opinião contraria ao que condiz a maré de pensamentos e gestos, que costumeiramente estamos suscetíveis. Sempre tive inveja de quem em seu mais alto ápice poder de conscientização pessoal renegou o inquestionável e assim partiu pela janela apertada que vai ao encontro do estabelecido. Adoro os ‘dissentes’ (minha próxima tatuagem).

 

 

Uma ligação não atendida pode significar muito mais que uma ligação não atendida. Em recente caso, me peguei pensando se atender era a melhor opção. Porque a partir do “alô” que não dei, não abri mais uma vez minha vida para que me deixassem sem estabilidade. Todas as minhas negações são muito bem pensadas, porque ao concordar posso machucar com palavras, criar dramas e assim me esvair em cansaço. Pensando sobre minhas recusas cheguei à conclusão que são para evitar o cansaço das relações.

 

 

Não sei para você, mas toda vez que disse sim sem querer dizer, me arrebentei. Chorei. Tive raiva de mim e não fui capaz de aceitar o outro em sua grandiosidade. Querendo agradar, fazendo “por onde”, calando ao invés de me colocar como alguém realmente, esse sim mal falado não trouxe nada além de estagnação mental, profissional e amorosa. Odeio a sensação de que o sim é inevitável sempre. Babaquices à parte, dizer que não sinto mais o que não sinto realmente se mostrou sempre melhor. Em todos os casos.

 

 

O talvez enche demais a paciência, ta louco! Não me permito ter ao meu lado quem não se decide, porque assim acabo absorvendo os medos, as inseguranças e estremeço só em pensar passar pela vida sendo um talvez ao lado de pessoas que nasceram no berço da dúvida. Teríamos menos idiotas nos governando se não suportássemos com tanta elegância os talvez ditos. Meu Deus, por que tem pessoas que não se permitem?

 

 

Oito ou oitenta é sem dúvida a máxima que melhor me vem à cabeça. Uma coisa que percebo, com os anos, é a sabedoria de aceitar ou negar o que nos é oferecido, sem com isso criarmos grandes dramas. Já cobrei demais de pessoas que não tinham a menor condição de me dar o desejado. De seus nãos me irritei, disse verdades momentâneas, cuspi horríveis tristezas e hoje avalio o quanto me desgastei em mensagens, palavras, gestos (que se fossem hoje seriam evitados). A velhice só traz de bom a certeza de que muitas ações foram por demais exageradas.

 

 

Querer ter um sim, sempre, é burrice. Na clemência pelo sim acabamos permitindo ser pisados em troca de migalhas que não sacia a fome. Ser inquieto e formar instabilidade em troca de boas respostas não fazem mais parte de minha vida, porque não se faz mais preciso passar por um machucado pra saber o que é dor. Hoje falo poucos sins. Quase nunca, talvez. Sempre que preciso, nãos.

 

 

Essa mudança causa estranhamento, é claro! Se não atendo um telefone, se recuso viagens, se não permito que o outro escute minha voz em determinados momentos é porque (pra mim) assim é o melhor do momento. Sabe, de tanto ouvir recusas a gente aprende a recusar também. As pessoas que mais me negaram algo são as que hoje solicitam de mim palavras e para estas nada mais em troca. O silêncio virou remédio.

 

 

Sei que quando digo não, gero uma força que futuramente virá em minha direção de forma negativa também. Acabar com laços de amor, por exemplo, não significa o fim sempre, às vezes é melhor assim do que aceitar que o sim faça parte de algo nada substancial. Mas o contrário, dizer sim pra tudo também não é certeza de que o planeta conspirará para que o mundo nos dê mais sins. Isso não é regra divina, não pode ser. Se assim o fosse, de tantos sins que dei só teria em troca permissões. Acredito que o que desejo volta certamente pra mim. Mas o não nem sempre é ruim, então não posso ter medo de pronunciá-lo.

 

 

Se eu pudesse algum dia conceituar meu não, seria para explicar que ele me protegerá da insegurança, do vazio e de molhar meu rosto mais uma vez. O choro, filho do não que recebi algumas vezes, foi sempre mais salgado. O organismo da gente não aguenta a negação. É como se fosse um pus expelido devagar através da lágrima, é quase sangue. Daí justificaria dizer não naquele momento. A maioria do não dito vem do outro que não sustentaria o sim, caso este fosse pronunciado.

 

Meus nãos fazem parte de minha proteção e da certeza de que o meu sim não teria tanto poder assim pra mudar as coisas. E cá entre nós, um sim sem utilidade nada mais é que um não assassinado em nossa boca.

 

 

 

 

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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