A convenção da máquina: luzes, lideranças e um segundo voto desaparecido

A convenção governista de 5 de agosto foi bonita, grandiosa e produzida com tanto cuidado que, em determinados momentos, parecia lançamento de automóvel, premiação musical e final de campeonato ao mesmo tempo. Havia telões, luzes, bandeiras, caravanas, música, fumaça, espetáculo pirotécnico e liderança política saindo até de dentro dos refletores. Fábio Mitidieri foi oficializado candidato à reeleição, Jeferson Andrade virou o vice e André Moura e Rogério Carvalho formaram a dupla apresentada ao Senado. Uma estimativa conservadora coloca o público entre cinco mil e sete mil pessoas, talvez mais considerando a circulação ao longo da noite. Não houve contagem oficial, mas o tamanho do evento, as caravanas e o impacto no trânsito confirmam que foi uma mobilização de grande porte. A convenção também consolidou uma aliança que vai do PT ao União Brasil, passando pelo PSD, PP, PSB, PCdoB, PV, Solidariedade e PRD.

A máquina funcionou. Prefeitos trouxeram caravanas, vereadores carregaram bandeiras, deputados apresentaram seus grupos e candidatos proporcionais desfilaram como quem já escolhia o gabinete. O Centro de Convenções ficou parecendo uma reunião de condomínio em que todos eram síndicos. Foi uma impressionante demonstração de capilaridade territorial, organização e capacidade de transportar aliados dos 75 municípios. Mas havia uma diferença perceptível entre lotar um espaço com lideranças organizadas e produzir uma manifestação espontânea de eleitorado. A convenção de Valmir de Francisquinho foi realizada no bairro Santa Maria, fora do circuito tradicional dos grandes centros de eventos, construindo deliberadamente uma imagem de proximidade popular. A de Fábio foi o grande baile das forças políticas: muita autoridade por metro quadrado e uma quantidade de candidato suficiente para fazer o eleitor comum perguntar se havia entrado na fila certa.

O palco, aliás, virou um resumo perfeito do problema. Tinha tanta liderança querendo aparecer que, em determinado momento, Fábio precisou pedir que as pessoas se afastassem e deixassem espaço para a circulação. Foi o governador tentando administrar, ao vivo, o excesso de governismo. Todo mundo queria ficar perto, sair na fotografia, acenar para a câmera e garantir prova documental de que compareceu. Fábio quase precisou criar uma Secretaria Extraordinária para Desocupação de Palanque. A cena produziu força visual, mas também revelou aquela doença antiga das grandes coligações: há mais gente querendo subir ao palco do que militante disposto a descer dele e pedir voto na rua.

Fábio fez o discurso mais completo da noite. Falou de emprego, segurança, alfabetização, escolas, alimentação, saúde, infraestrutura, turismo e programas sociais. Atacou a oposição, defendeu a parceria com Lula, celebrou a reconciliação com Rogério Carvalho e encerrou falando de família, fé e Jesus. Foi prestação de contas, sermão, ataque político e sessão de reconciliação em um único pronunciamento. O governador demonstrou consciência de que possuir prefeitos, deputados e estrutura não garante eleição automática. Sua melhor percepção foi reconhecer que gestão e política são próximas, mas não são a mesma coisa. Em português de campanha: obra não anda sozinha até a seção eleitoral, hospital não aperta botão e asfalto ainda não aprendeu a pedir voto.

Jeferson Andrade assumiu o papel do vice que não veio para decorar palanque. Fez o discurso mais combativo, atacou as chamadas fake news e convocou os aliados para o confronto nas ruas e nas redes. Érica Mitidieri produziu o momento mais emocional, cercada por representantes de movimentos sociais e falando sobre assistência às pessoas vulneráveis. Fábio mostrou gestão, Jeferson mostrou os punhos e Érica apresentou o coração. A convenção montou uma espécie de corpo humano eleitoral completo. Só faltava descobrir se esse corpo conseguiria caminhar sem tropeçar na quantidade de gente amontoada sobre o palco.

A fala de André Moura foi uma das melhores e mais seguras da convenção. André não tentou fingir que virou petista, nem pediu que Rogério acordasse liberal na manhã seguinte. Fez política adulta, pragmática e compreensível. Disse que diferenças ideológicas existem, mas que Sergipe precisa de representantes capazes de abrir portas em Brasília. Chamou isso de “política que resolve”, em contraposição à política do “blá-blá-blá”. Foi elegante, direto e politicamente hábil. André parecia o único homem naquele palco plenamente confortável dentro de uma aliança que poderia provocar crise de identidade até em aplicativo de localização. Estendeu a mão para Rogério sem esconder de onde vinha, transformando uma composição improvável numa demonstração de maturidade institucional.

O problema é que André e Rogério deram as mãos, mas parte dos aliados continuou com uma delas escondida no bolso. João Daniel afirmou que o PT ainda precisaria discutir o segundo voto para o Senado. Cláudio Mitidieri, irmão do governador e candidato do PSD, declarou que votará em André Moura e Alessandro Vieira, deixando Rogério olhando para a própria chapa como quem descobre que foi removido do grupo da família. Maisa Mitidieri precisou explicar que a chapa oficial é André e Rogério, enquanto Alessandro e Edvaldo apoiam Fábio, mas correm por fora. Portanto, a convenção conseguiu unir antigos adversários no palco, mas não conseguiu colocar os dois números senatoriais na cabeça de todos os aliados. A dupla foi oficializada. A fidelidade ao segundo voto ainda está aguardando despacho.

O saldo foi positivo na estética, na mobilização e na demonstração de força. Fábio mostrou que possui a maior coleção de prefeitos, partidos, parlamentares e lideranças do atual cenário sergipano. Mas foi, sobretudo, uma convenção da política organizada para a política organizada. Valmir procurou produzir no Santa Maria a fotografia de uma candidatura cercada pelo povo; Fábio produziu no Centro de Convenções a fotografia de um governo cercado pela máquina. As duas imagens têm valor, mas comunicam coisas diferentes. A festa de Fábio teve luz, som, multidão e qualidade de produção. Também teve palco congestionado, aliados com votos senatoriais particulares e uma unidade que funciona perfeitamente quando o assunto é governador, mas começa a tossir quando alguém pergunta: “E o segundo voto para o Senado?”. A convenção impressionou Sergipe. Agora resta descobrir se aquela multidão era uma rede de eleitores ou apenas o maior encontro de lideranças políticas com ar-condicionado da história recente do Estado.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.

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