ABES pergunta pela foto, (DAC) Daniel sorri e 2018 aparece no retrato

Antes que alguém escolha um lado por mim, deixo duas coisas bem claras. Sou crítico ferrenho da atual administração de Danniel Costa na OAB/SE e sou amigo pessoal de Aurélio Belém do Espírito Santo. Não é amizade de fotografia nem crítica de ocasião. Já critiquei Danniel quando considerei necessário e continuarei fazendo isso. E tenho por Aurélio respeito, amizade e consideração suficientes para lhe dizer justamente aquilo que talvez fosse mais confortável não dizer. Desta vez, olhando friamente para a fotografia da 14ª Corrida da Advocacia, acho que Aurélio carregou um pouco demais na tinta. A pergunta “a quem interessa essa foto?” é legítima. Só não vejo ainda razão para pedir perícia no enquadramento, apreender o celular do fotógrafo e intimar quem estava sorrindo no canto esquerdo.

Danniel Alves Costa (DAC) apareceu numa fotografia coletiva ao lado de Emília Corrêa, Valmir de Francisquinho, Priscila Felizola e outros advogados e autoridades. Isso, sozinho, não transforma o presidente da Ordem em cabo eleitoral de ninguém. E digo isso sem qualquer constrangimento, mesmo sendo crítico de sua gestão. Justiça não consiste em absolver os amigos e condenar os desafetos. Se Daniel utilizar a estrutura da OAB para favorecer candidatura, pedir voto, fazer campanha ou comprometer a independência institucional, que seja cobrado com todo rigor. Mas uma foto numa corrida ainda é uma foto numa corrida. Se começarmos a criminalizar enquadramento, a OAB precisará criar a Comissão Especial da Selfie, com relator para analisar tamanho do sorriso e corregedor para medir quantos centímetros separavam o presidente de cada candidato.

A memória, porém, deixa a discussão ainda mais interessante. Em 2018, Jozailto Lima publicou no JLPolítica a reportagem “OAB/SE foi usada na campanha de Henri Clay Andrade, afirmam advogados”. Henri Clay disputava o Senado e ABES integrava a direção da Ordem como secretário-geral. A matéria registrava denúncias sobre eventual atuação eleitoral de integrantes daquela administração. Faço questão da ressalva porque Aurélio é meu amigo e porque jornalismo sério exige isso: denúncia não é condenação. Não estou dizendo que ele tenha cometido irregularidade. Seria injusto e irresponsável. Estou dizendo apenas que quem viveu de perto uma controvérsia muito mais pesada em 2018 talvez deva ser especialmente cuidadoso antes de transformar uma fotografia de 2026 em prova de comprometimento institucional.

Até porque DAC (Daniel) já apareceu muitas vezes com Fábio Mitidieri em solenidades, eventos, festas e agendas da advocacia. E nunca considerei que uma fotografia, isoladamente, fosse prova de apoio eleitoral ao governador. Por coerência, não posso mudar de Código quando muda o personagem retratado. Se fotografia com Fábio pode ser institucional, fotografia com Valmir também pode ser institucional. Neutralidade não pode funcionar como semáforo partidário: verde para o político de um grupo, vermelho para o adversário e amarelo quando ninguém sabe ainda quem vencerá a eleição. Presidente da OAB precisa conversar e aparecer com autoridades. É parte do cargo, não necessariamente parte de uma campanha.

A própria Ordem já colocou candidatos de diferentes campos políticos no mesmo ambiente institucional. Em 2022, promoveu sabatina com postulantes ao Governo, sob regras de igualdade e apartidarismo. Portanto, proximidade física não significa proximidade eleitoral por combustão espontânea. Foto não é filiação. Sorriso não é santinho. Aperto de mão ainda não constitui pedido de voto. Aurélio tem razão ao exigir independência da OAB e eu estarei ao lado dele sempre que houver fato concreto que justifique essa cobrança. Mas justamente porque sou seu amigo, não preciso concordar com tudo. Amizade que só aplaude é torcida organizada. Às vezes, respeito também significa dizer: meu caro, aqui acho que você exagerou.

E há ainda uma ironia deliciosa nessa história. Toda essa discussão talvez esteja revelando muito mais sobre a próxima eleição da OAB/SE do que sobre Valmir, Emília, Priscila ou qualquer candidato ao Governo. Se uma fotografia da Corrida da Advocacia já produziu tamanha temperatura, quando começar a verdadeira corrida pela Presidência da Ordem será recomendável instalar ar-condicionado industrial na sede. Aurélio mostra que estará vigilante. Daniel certamente terá sua gestão julgada. Grupos começarão a se movimentar e cada café será interpretado como convenção partidária clandestina. A eleição da Ordem ainda está adiante, mas os sinais de fumaça já começaram a subir.

Por isso faço esta defesa pontual de Daniel Costa sem retirar uma vírgula das críticas que tenho à sua administração e faço esta observação a Aurélio sem retirar um milímetro da amizade que tenho por ele. É exatamente essa independência que permite cobrar coerência dos dois lados. Quando Daniel errar, criticarei. Quando Aurélio tiver razão, reconhecerei. E quando um amigo exagerar, direi também. Porque amizade não exige cegueira. E oposição séria não precisa transformar toda selfie em flagrante.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.

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