Editorial: A eleição começou com feira, pesquisa, briga e vice sumido

A campanha eleitoral começou oficialmente em 16 de agosto e Sergipe acordou como quem descobre que a festa finalmente começou depois de três meses vendo o pessoal arrumar as mesas. O Tribunal Superior Eleitoral liberou a propaganda eleitoral e, numa velocidade que faria inveja a entrega de aplicativo, apareceram bandeiras, adesivos, carreatas, caminhadas, vídeos e candidatos subitamente apaixonados por calçada, feira e aperto de mão. O carro adesivado voltou a ocupar seu lugar de patrimônio imaterial da política brasileira. Basta colar um número no vidro traseiro e o automóvel deixa de ser um Onix financiado em sessenta parcelas para virar manifesto ideológico sobre rodas. Em Aracaju, a largada de Valmir de Francisquinho teve adesivaços simultâneos em dois pontos da cidade, com participação de Priscila Felizola, candidatos e apoiadores, e a própria campanha divulgou presença expressiva de público. A cena mostrou uma característica que vai marcar esta eleição: rua cheia produz imagem, imagem produz postagem e postagem produz a impressão de que outubro já começou em agosto.

Fábio Mitidieri também entrou na temporada do adesivo, com mobilizações em Aracaju e participação em agendas ao lado de André Moura, que abriu sua campanha ao Senado percorrendo diferentes pontos da capital com o governador e outros integrantes da chapa. A campanha virou quase aplicativo de localização: candidato visto na Barão de Maruim, depois na Farolândia, em seguida no 13 de Julho, dali para outro bairro e, se bobear, antes do jantar já está aparecendo em outro município. A política descobriu o GPS e resolveu leva-lo a sério. Ricardo Marques iniciou sua movimentação enquanto outras candidaturas também buscaram espaço presencial ou digital. O resultado é uma espécie de olimpíada da visibilidade. Tem candidato correndo atrás de eleitor, eleitor correndo para resolver a própria vida e assessor correndo atrás dos dois com o celular na horizontal gritando: “Olha para cá!”. A campanha moderna talvez seja o único ambiente em que três pessoas conversam e seis estão filmando.

Mas adesivo, descobrimos rapidamente, possui uma vantagem extraordinária sobre determinadas alianças: quando bem colocado, demora mais para descolar. Pastora Salete deixou a chapa de Ricardo Marques, na qual ocuparia a vaga de vice, e anunciou apoio a Valmir de Francisquinho. Ao justificar a decisão, afirmou não ter percebido prioridade nem unidade interna na caminhada. Ricardo respondeu que respeitava a escolha e que apresentaria um novo nome para vice no momento adequado. Pronto. A campanha mal tinha colocado o tênis e uma chapa já precisou voltar ao departamento de recursos humanos. O mais curioso é que vice normalmente enfrenta uma luta histórica para conseguir aparecer. Nesse caso, bastou desaparecer para virar o assunto do fim de semana. A cadeira vazia ganhou protagonismo, concedeu entrevistas imaginárias e quase pediu música no Fantástico. Política tem dessas coisas: na convenção, todo mundo segura a mão de todo mundo como final de novela. Poucos dias depois, alguém descobre que aquela fotografia tinha prazo de validade menor que iogurte aberto.

Enquanto o adesivo ainda estava criando intimidade com a lataria, a política começou a distribuir cotovelada. Em Lagarto, André Moura elevou o tom contra Ibrain Monteiro e fez críticas também a Sérgio Reis e Fábio Reis, depois da redefinição de alianças no município. Paralelamente, a disputa continuou frequentando o Judiciário. A ação apresentada pela Federação Renovação Solidária contra o pedido de registro de Valmir de Francisquinho avançou para audiência de instrução marcada para 19 de agosto, com autorização para depoimentos por videoconferência. A medida é processual e não representa julgamento definitivo sobre o registro da candidatura. Em outro episódio eleitoral, Luiz Carlos Focca informou que recorreria ao TRE de Sergipe depois de decisão de primeira instância que determinou a retirada de publicação e multa de R$ 5 mil em caso envolvendo André David. Está montado o kit básico da eleição de 2026: candidato, coordenador, social media, fotógrafo, motorista e advogado. Dependendo do ritmo, o advogado ainda vai precisar levar outro advogado para conseguir acompanhar o primeiro.

Sergipe entrou, enfim, naquele período maravilhoso em que tudo vira sinal político. Carro adesivado vira demonstração de força, fotografia com liderança vira adesão histórica, rompimento vira terremoto, pesquisa vira manchete, entrevista vira resposta, resposta vira nova entrevista e processo judicial ganha análise antes mesmo de o café esfriar. A Justiça Eleitoral autorizou a campanha nas ruas e na internet a partir de 16 de agosto, mas nenhuma resolução consegue regulamentar a imaginação dos palanques. Até outubro haverá feira, rádio, rede social, caminhada, pesquisa, denúncia, resposta, processo, abraço, sorriso e quilômetros de adesivo tentando convencer o eleitor de que aquele vidro traseiro aponta o futuro de Sergipe. Talvez a maior tarefa do cidadão seja justamente a menos cinematográfica: separar multidão de voto, slogan de proposta, acusação de prova, pesquisa de sentença e decisão provisória de julgamento definitivo. Porque gráfica imprime adesivo, marqueteiro fabrica bordão e rede social entrega alcance. Só existe uma mercadoria que continua teimosamente fora da linha de produção: a consciência de quem aperta o botão da urna.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.

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