Editorial: Déda não cabe no discurso de Rogério, diz Luciana

A fala de Luciana Déda não é apenas mais um vídeo perdido na confusão barulhenta da política sergipana. É uma pancada emocional na mesa da memória. Quando ela diz “eu carrego o DNA de Marcelo Déda”, não está falando apenas de sangue, sobrenome ou árvore genealógica bonita para discurso de campanha. Está falando de convivência, dor, lealdade e pertencimento. Luciana toca numa ferida que nunca cicatrizou completamente dentro do PT de Sergipe: quem realmente tem autoridade moral para usar o nome de Marcelo Déda? Porque legado não é chaveiro de campanha, não é adesivo de carro, não é camisa que se veste na conveniência. Legado tem peso. E, quando pesa, derruba muita fantasia.

O trecho mais duro vem quando Luciana afirma que alguns “se avoram e utilizam o nome do DNA Marcelo Déda”, mas “sofrem de amnésia”. A frase tem força porque não parece ataque ensaiado por marqueteiro. Parece desabafo de família. Ela diz que, no momento em que Déda “mais precisou” e estava internado “lutando pela própria vida”, havia políticos fazendo campanha no interior e tratando sua morte como certa. É uma imagem brutal. Enquanto um homem enfrentava o câncer, outros já pareciam medir o tamanho da cadeira que ficaria vazia. Política tem dessas delicadezas de necrotério com santinho no bolso. O sujeito ainda respira, e já tem gente calculando legenda, mandato e próxima eleição.

Luciana vai além e solta a frase que muda o tom da história: “foi visita não grata no Sírio Libanês, diante de um tamanho mal que fazia à saúde de Marcelo Déda”. É uma acusação grave, e justamente por isso precisa ser atribuída a ela. Mas o impacto político é enorme. Não foi um adversário qualquer falando numa esquina. Foi Luciana Déda, sobrinha de Marcelo Déda, dizendo ao público que há uma distância entre o discurso de homenagem e a memória íntima da família. Quando ela lembra também dos “e-mails que mandava dizendo que não devia nada a Marcelo Déda”, ela desmonta a narrativa da gratidão eterna. E aí o discurso de Rogério Carvalho, quando tenta abraçar sozinho o legado “dedista”, perde a pose de homenagem e começa a parecer disputa de inventário político.

A história ajuda a entender por que essa fala encontra eco. Rogério Carvalho cresceu dentro do ciclo de Marcelo Déda, especialmente na saúde. Foi secretário municipal de Saúde de Aracaju e secretário estadual de Saúde de Sergipe, trajetória que deu a ele visibilidade, musculatura e identidade pública. Isso é fato. Mas, em política, crescer dentro de um projeto não significa ser dono dele. A relação entre Rogério e o grupo de Déda ficou marcada por tensão quando o PT passou a disputar o comando interno. Marcelo Déda, já doente, apoiava Márcio Macedo para a presidência estadual do partido. Rogério caminhou em outra direção e disputou o controle do PT. A partir dali, o antigo aliado deixou de ser apenas quadro do projeto e passou a ser centro próprio de poder. Afilhado político, quando cresce demais, às vezes começa a achar que a casa foi construída para ele.

A ferida ficou exposta quando Márcio Macedo disse que Rogério deveria respeitar Déda e respeitá-lo. Essa frase é quase um atestado público de que a disputa não era apenas administrativa, nem simples divergência interna de partido. Era conflito de lealdade, de memória e de comando. Rogério acabou vencendo a disputa interna do PT, enquanto o “dedismo” ainda vivia a dor da doença e, pouco depois, da morte de Marcelo Déda. A imagem é pesada: o líder maior do partido estava fragilizado, e o partido já reorganizava o próprio espólio político. Não se trata de negar a história de Rogério dentro daquele governo. Trata se de lembrar que trabalhar com Déda não dá escritura definitiva sobre o legado de Déda.

Por isso, quando Luciana Déda aparece e diz que “é importante que a população saiba quem eram realmente os amigos de Marcelo Déda”, ela não está fazendo apenas política. Está chamando a memória para depor. Rogério pode citar Déda, pode lembrar o governo, pode falar da saúde, pode tentar se apresentar como continuador natural daquele ciclo. Mas há uma pergunta que a fala de Luciana deixa pendurada no ar: quem estava ao lado de Déda quando o aplauso virou silêncio e o poder começou a farejar sucessão? As máscaras não caem todas de uma vez. Elas escorregam devagar, uma frase por vez, um vídeo por vez, uma lembrança por vez. E quando quem segura o espelho é alguém da família, o reflexo costuma ser impiedoso. No fim, o legado de Marcelo Déda não cabe no bolso de nenhum senador. Nem no discurso de quem só lembra do morto quando o vivo precisa de voto.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.

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