Toda educação nasce da confiança na inteligência do outro

Toda criança sabe; ela só não sabe que sabe.

Domingos Pascoal de Melo

Essa afirmação nasceu da observação, da convivência e de muitos encontros com crianças, jovens, professores, escritores e leitores. Não surgiu em uma biblioteca nem em uma sala de aula universitária. Nasceu da experiência. Nasceu da vida.

Ao longo de décadas dedicadas ao incentivo à leitura e à escrita, percebi que nenhuma criança chega ao mundo vazia de inteligência, de sensibilidade ou de criatividade. O que muitas vezes lhe falta não é conhecimento, mas alguém que a ajude a descobrir o conhecimento que já existe dentro dela.

Grandes ideias costumam caber em poucas palavras.

René Descartes escreveu: “Penso, logo existo.” Ao colocar o pensamento como fundamento da existência, inaugurou uma nova forma de compreender o ser humano.

Séculos depois, Paulo Freire ensinou que “Educação não transforma o mundo. Educação muda as pessoas. Pessoas transformam o mundo.” Com essa afirmação, mostrou que a verdadeira mudança social começa no interior de cada indivíduo.

Monteiro Lobato, por sua vez, acreditava que “um país se faz com homens e livros.” Sua frase continua lembrando que nenhuma nação alcança grandeza sem investir simultaneamente na formação humana e na cultura.

Rubem Alves acrescentou outra dimensão ao afirmar que “há escolas que são gaiolas e escolas que são asas.” Para ele, educar não era aprisionar a inteligência, mas oferecer condições para que cada pessoa descobrisse a liberdade de pensar.

É nesse horizonte que nasce a convicção de que toda criança sabe; ela só não sabe que sabe.

Essa frase não afirma que a criança sabe tudo. Afirma algo ainda mais profundo: ela traz consigo uma capacidade extraordinária de aprender, imaginar, criar, interpretar e reinventar o mundo. O papel do educador, da família e da sociedade não é somente depositar conhecimento em sua mente, mas despertar aquilo que nela já existe em potência.

Foi essa compreensão que inspirou a criação das Academias Juvenis de Letras, das Antologias Literárias dos Encontros de Escritores e Leitores, dos concursos literários e de tantas outras iniciativas sempre inclusivas, (Crianças, Jovens e Adultos podem participar), e voltadas à democratização da literatura. Cada criança que publica seu primeiro texto descobre que possui uma voz. Cada jovem que participa de um concurso literário percebe que pode transformar suas inquietações em arte. Cada novo escritor revela que o talento, muitas vezes, estava apenas esperando um convite para florescer.

Talvez a maior missão da educação não seja ensinar respostas, mas despertar perguntas; não seja transmitir certezas, mas revelar possibilidades; não seja dizer ao estudante quem ele deve ser, mas ajudá-lo a descobrir quem já é.

Quando uma criança percebe que sabe, nasce a confiança. Quando acredita em si mesma, nasce a coragem. E quando encontra na palavra um caminho para expressar o que pensa e sente, nasce o escritor, o cidadão e o ser humano capaz de transformar a realidade.

Por isso, continuo acreditando que toda grande transformação começa por uma descoberta silenciosa, feita no íntimo de cada pessoa: Toda criança sabe; ela só não sabe que sabe. E talvez seja essa a mais nobre missão da educação: ajudá-la a descobrir.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.

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