
O Centro de Aracaju precisa, sim, de revitalização. Disso ninguém discorda. O problema começa quando revitalizar passa a significar desapropriar imóveis, deslocar comerciantes, modificar a identidade de um lugar centenário e apostar mais em maquetes do que em soluções concretas. O governador Fábio Mitidieri apresentou um projeto ambicioso para transformar a chamada Rua da Frente na denominada “Vila Vaticano“, com hotel, mirante, hub de inovação, centro de economia criativa e uma orla fluvial. A proposta impressiona no papel. Mas a pergunta continua sem resposta: quanto custará essa transformação para quem já vive e trabalha no Centro?
O próprio secretário especial de Planejamento, Orçamento e Inovação informou que apenas a elaboração dos projetos arquitetônicos, urbanísticos e de engenharia consumirá entre oito e nove meses. Depois disso ainda virão licitação, contratação e execução das obras. Em outras palavras, antes mesmo de uma máquina entrar em campo, quase um ano terá passado. E ninguém consegue afirmar quando a obra ficará pronta. Em um investimento estimado em mais de R$ 100 milhões, o cronograma sugere que a população ainda verá muitas apresentações antes de enxergar qualquer resultado concreto. Dependendo do calendário político, a obra poderá atravessar governos, o que naturalmente aumenta as dúvidas sobre sua conclusão nos moldes anunciados.
Enquanto isso, a realidade continua funcionando todos os dias. Ali existe um comércio consolidado há décadas. São empresas familiares, atacadistas, varejistas, trabalhadores, clientes e fornecedores que construíram uma identidade econômica própria. Fala-se em preservar atividades e relocar comerciantes, mas entre o discurso e a prática existe uma distância enorme. O presidente da Associação dos Comerciantes, Maurício Vasconcelos, manifestou preocupação justamente com esse período de transição, porque qualquer intervenção dessa magnitude pode gerar insegurança para empresários e trabalhadores. A história mostra que mudanças urbanas mal conduzidas costumam cobrar uma conta alta exatamente de quem produz riqueza diariamente.
Também não se pode ignorar o patrimônio histórico. Aqueles casarões não são apenas paredes antigas. Eles contam a formação econômica e cultural de Aracaju. São testemunhas silenciosas da construção da capital, da vida comercial às margens do Rio Sergipe e da memória de milhares de famílias. Cada fachada preservada representa um pedaço da identidade sergipana. Modernizar é necessário. Apagar referências históricas para substituí-las por uma estética genérica seria um preço alto demais para qualquer cidade que respeite sua própria origem.
Outro ponto que chama atenção é o nome escolhido para o empreendimento. “Vila Vaticano”. Pode soar sofisticado para alguns, mas qual é a conexão cultural entre o Vaticano e o Centro Histórico de Aracaju? Sergipe possui personagens suficientes para homenagear sua própria história. Se a intenção fosse valorizar a identidade local, nomes ligados à formação da capital fariam muito mais sentido. Afinal, foi o presidente da Província, Inácio Joaquim Barbosa, quem transferiu a capital de São Cristóvão para Aracaju em 1855, dando origem à cidade planejada que hoje conhecemos. Uma revitalização voltada à memória poderia muito bem carregar um nome sergipano, e não importar uma identidade completamente alheia à cultura local.
Há ainda uma alternativa evidente que permanece esquecida. Se o objetivo é recuperar o Centro, por que o Governo do Estado não começa pelo Hotel Palace, patrimônio público pertencente à Emsetur? O prédio já existe, ocupa posição estratégica e poderia ser restaurado para receber hotel, mirante, restaurantes, galerias, espaços para startups, economia criativa e atividades culturais, exatamente como prevê parte da proposta atual. Recuperar um patrimônio abandonado produziria desenvolvimento sem exigir uma transformação tão profunda sobre um comércio consolidado e sobre um conjunto urbano que já possui dinâmica própria.
Também seria mais inteligente fortalecer o eixo compreendido entre o Hotel Palace, a Praça Fausto Cardoso e o entorno dos prédios históricos, regiões que convivem há anos com imóveis fechados, calçadas deterioradas, baixa circulação e necessidade urgente de investimentos. Levar vitalidade para áreas hoje esvaziadas parece uma estratégia urbana mais lógica do que deslocar o foco para uma região onde o comércio continua ativo e movimentado. Revitalizar não deveria significar trocar um problema de lugar, mas resolver os problemas onde eles realmente existem.
Toda grande obra pública merece ser debatida antes de ser celebrada. O Centro de Aracaju precisa de investimentos, preservação e planejamento. Precisa olhar para o futuro sem virar as costas para sua história. A população espera intervenções que fortaleçam o patrimônio, protejam empregos e valorizem a identidade sergipana. Porque projetos bonitos encantam em apresentações. Mas cidades são feitas de pessoas, de memória e de trabalho. E esses três patrimônios, até hoje, nunca puderam ser desapropriados sem que toda a sociedade pagasse a conta e ficasse apenas no papel como: A Rota do Leite, a nova ponte para a Barra dos Coqueiros e o VLT Aracaju/Laranjeiras sem estação em Nossa Senhora do Socorro, município mais populoso do Estado.
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