Editorial: Entre a amnésia e a conveniência, Sergipe acende a luz amarela

Luiz Eduardo Costa fez aquilo que jornalista de verdade faz quando o ambiente começa a cheirar a perfume caro em cima de problema velho: abriu a janela. E abriu com a autoridade de quem não chegou ontem, não aprendeu política por legenda de Instagram e não confunde análise com torcida organizada. Luiz Eduardo é jornalista, escritor, membro da Academia Sergipana de Letras e nasceu em Maruim. Também é tratado em veículos locais como decano do jornalismo sergipano. Isso não é currículo de enfeite. É estrada. É sola de sapato. É memória viva numa terra onde muita gente tenta apagar o passado com a borracha da conveniência.

O texto dele acendeu uma luz amarela no governo de Sergipe e, mais importante, na cabeça do eleitor sergipano. Porque Luiz Eduardo não escreveu uma fofoca de beira de calçada. Ele colocou o dedo numa contradição política que estava desfilando em carro aberto, sorrindo para a câmera e fingindo que ninguém tinha visto. Segundo a publicação do AndersonsBlog, Luiz Eduardo analisou as declarações do governador Fábio Mitidieri sobre a cassação do prefeito Everton da Saúde, de Porto da Folha, aliado do governador, e apontou a diferença de postura quando a Justiça Eleitoral atinge aliados ou adversários.

A pergunta central é simples, mas tem o peso de uma bigorna caindo no pé do discurso oficial: vale defender a vontade popular apenas quando ela favorece o nosso grupo? Porque, se a regra muda conforme o beneficiado, isso não é princípio. É cardápio político. Quando o aliado é cassado, aparece o discurso da urna soberana. Quando o adversário é retirado do caminho, surge o silêncio institucional, aquele silêncio elegante, com terno bem passado e cara de quem esqueceu a senha da própria memória. Aí a política vira restaurante self service da moralidade: cada um pega o valor democrático que combina com o prato do dia.

Luiz Eduardo foi cirúrgico ao tocar no ponto mais sensível. Ele escreveu que Fábio Mitidieri deveria sua eleição à cassação de Valmir de Francisquinho, que o teria derrotado nas urnas, e afirmou que o governador “sequer passaria para o segundo turno”. É nesse trecho que nasce a imagem do “terceirinho”, não como ofensa gratuita, mas como síntese política incômoda: se a disputa fosse apenas pelo voto depositado na urna, a história poderia ter sido outra. A frase é dura, mas jornalismo não existe para passar hidratante em ferida pública. Existe para mostrar onde a pele política está inflamada.

E aí entra o humor ácido da vida real. O governador fala em respeitar a escolha do povo com a mesma naturalidade de quem chega atrasado à missa e quer puxar o Pai Nosso. O problema não é defender a urna. Defender a urna é bonito, necessário e democrático. O problema é lembrar da urna somente quando ela veste a camisa do nosso time. A urna não pode ser santificada no palanque dos aliados e tratada como detalhe processual no caso dos adversários. Democracia não é ar-condicionado de gabinete: liga quando está quente para o governo e desliga quando refresca para a oposição.

O texto também aponta que Mitidieri estaria “trabalhando” para uma nova cassação de Valmir. Essa acusação, pela gravidade política que carrega, precisa ser lida como uma crítica pública à coerência do discurso, não como sentença judicial. Mas ela coloca na mesa um debate incontornável: o governador deve se concentrar em governar Sergipe ou em torcer para que o tapetão faça aquilo que a urna talvez não faça? Porque eleição se ganha com obra, serviço, presença, entrega e convencimento. Quando o caminho vira a tentativa de diminuir o campo adversário, a política deixa de ser competição e vira campeonato de W.O. com foguetório na arquibancada.

A grandeza do texto de Luiz Eduardo está justamente em lembrar que a política tem memória. E memória, em Sergipe, deveria ser artigo de primeira necessidade, vendido ao lado do pão e do café. Ele não escreveu para bajular facção, nem para fazer dança de salão com narrativa pronta. Escreveu como quem diz aos novos jornalistas: anotem, porque poder público sem cobrança vira novela repetida. Hoje o personagem fala uma coisa, amanhã pratica outra, depois aparece no São João sorrindo como se a contradição fosse apenas uma quadrilha bem ensaiada. Só que, nesse arraial, quem paga a sanfona é o povo.

Por isso, a luz amarela acesa por Luiz Eduardo não deve ser vista como ataque pessoal, mas como advertência republicana. Se Fábio Mitidieri quer defender a vontade popular, ótimo. Que defenda sempre. Se quer respeitar a urna, excelente. Que respeite quando ela sorri e quando ela faz careta. Se quer falar em coerência, melhor ainda. Que pratique antes de discursar. Porque na política, como na vida, não há nada mais perigoso do que o pregador que esquece o sermão na hora de agir. E quando a memória do povo entra em cena, não há marketing, festa, frase bonita ou foguetório capaz de esconder o terceiro lugar da contradição.

Vide o texto de Luiz Eduardo Costa:

UM CASO DE HIPOCRISIA OU DE AMENÉSIA

Ao comentar a cassação do Prefeito Everton de Porto da Folha, que é seu aliado, e fazer críticas à Justiça Eleitoral, o governador Mitidieri   está sendo no mínimo hipócrita, porque a decisão da Justiça afetou seus interesses pessoais. Parece ter esquecido de que, ele mesmo, deve sua eleição à cassação injusta de Valmir de Francisquinho, que o derrotou nas urnas, e ele sequer passaria para o segundo turno.

Agora, continua com esperança, e “trabalhando ” para uma nova cassação de Valmir. Isso é respeito às urnas? Talvez, o governador hoje envolvido nas festanças de junho, tenha temporariamente perdido a memória, ou esteja fazendo pouco caso da memória do povo. Teria ele alguma autoridade moral para dizer: ” Aqui tem que se honrar a escolha do povo e respeitar a escolha do povo. Eu não misturo as coisas. Eu respeito a decisão vinda da urna, porque foi assim que o povo quis “.

Logo ele, o governador Fábio Mitidieri, que exerce o cargo porquê a vontade do povo foi desrespeitada? Estamos diante de um caso explícito de hipocrisia, que diz respeito ao conceito moral, ou de amnésia grave, que cabe na área das patologias neuro-cerebrais? Ao eleitor sergipano que não é hipócrita ,nem sofre de amnésia, caberá dar a resposta.

Luiz Eduardo Costa

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.

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