A propaganda oficial chama de frente ampla. Fábio Mitidieri prefere chamar os atritos com Rogério Carvalho de “DR”, como se os dois fossem apenas um casal moderno discutindo quem deixou a toalha molhada sobre a cama. O problema é que essa relação não começou no aplicativo de namoro. Começou numa eleição feroz. Em 2022, Rogério e Fábio disputaram diretamente o Governo de Sergipe. Quatro anos depois, aparecem abraçados na mesma chapa, após uma conversa em Brasília com o presidente Lula. Rogério levou a estrela. Fábio ficou com o palanque. E Brasília, como sempre, providenciou o celebrante, o bufê e o pacto pré-nupcial.
O matrimônio ficou ainda mais ecumênico com a presença de André Moura. A chapa anunciada reúne Fábio Mitidieri, Rogério Carvalho e André Moura, uma combinação capaz de fazer ideologia pedir licença, atravessar a rua e fingir que não viu. O PT passou anos ensinando sua militância a identificar a direita, combater a direita e desconfiar da direita. Agora, quando encontra a direita no altar, pergunta apenas onde deve assinar. Não é exatamente uma aliança programática. Parece mais aquele condomínio em que ninguém gosta de ninguém, mas todos concordam que o salão de festas precisa continuar ocupado.
É preciso reconhecer que Marcelo Déda também construiu alianças amplas. Em 2006, sua coligação reuniu PT, PSB, PMDB, PL, PTB e PCdoB. A diferença, porém, cabe inteira numa fotografia. Déda estava no centro porque liderava o projeto. O PT não era um adereço vermelho usado para combinar com a decoração. Tinha candidato, identidade, discurso e comando político. Déda convidava os aliados para seu palanque. Em 2026, o partido chega ao evento do PSD perguntando ao cerimonial onde colocaram sua cadeira. Antes, a estrela iluminava a coligação. Agora, corre o risco de funcionar como iluminação indireta no cenário de Fábio.
Rogério Carvalho tenta apresentar essa mudança como maturidade política. É um nome elegante para certas capitulações. Em 2022, ele queria governar Sergipe e afirmava representar um projeto diferente daquele defendido por Fábio. Agora, precisa explicar que o projeto que deveria ser derrotado se tornou suficientemente agradável para ser reeleito. A transformação foi tão rápida que nem exigiu reforma administrativa. Bastou uma reunião com Lula e algumas fotografias cuidadosamente enquadradas. Rogério não atravessou uma ponte ideológica. Pegou um elevador político e apertou o botão do andar onde havia vaga.
A resistência interna do PT, portanto, não nasceu em laboratório adversário. A Articulação de Esquerda defendeu a pré-candidatura de Carol Rejane e se posicionou contra o apoio ao governador. O diretório estadual, porém, oficializou a aliança com Fábio Mitidieri e retirou a possibilidade de candidatura própria. Agora, integrantes da corrente discutem até se comparecerão à convenção conjunta marcada para 5 de agosto. A direção partidária aprovou o casamento, mas parte da família ainda avalia se comparece à cerimônia, se fica em casa ou se manda apenas uma mensagem educada pelo WhatsApp.
E há motivos políticos para o desconforto. Setores da esquerda, entidades sindicais e professores fizeram críticas ao governo Mitidieri por privatizações, terceirizações e pela condução do diálogo com o funcionalismo. Agora, o PT precisa entrar no palanque, sorrir para as câmeras e explicar que as divergências continuam firmes, fortes e devidamente acomodadas atrás do material de campanha. É a oposição gourmet. Mantém o sabor da crítica, mas vem servida em pequenas porções para não estragar o jantar do anfitrião.
Fábio Mitidieri conseguiu reunir siglas, prefeitos, estruturas e candidatos que até ontem trocavam acusações. Isso demonstra habilidade política, mas não prova unidade popular. Montar uma chapa grande é relativamente simples quando existem cargos, tempo de propaganda e interesses circulando pela sala. O difícil é fazer o eleitor petista esquecer 2022, aceitar André Moura como companheiro de viagem e acreditar que Rogério continua liderando alguma coisa além da fila para entrar no palanque. Fábio montou uma sala cheia. Só ainda não descobriu quantos convidados vieram por convicção e quantos apareceram porque ouviram dizer que haveria poder no cardápio.
Chamar tudo isso de “DR” é uma gracinha eficiente, mas também uma tentativa de transformar contradição política em comédia romântica. Não se trata de um casal que discutiu e fez as pazes. Trata-se de adversários que descobriram, com impressionante rapidez, que a convivência poderia ser eleitoralmente vantajosa. Fábio ganha o apoio de Lula. Rogério ganha espaço na chapa. O PSD ganha uma esquerda domesticada para a fotografia. E o PT tenta convencer a militância de que entrou no casamento sem abrir mão da própria personalidade.
A convenção poderá registrar a união no cartório eleitoral, distribuir adesivos, tocar música e produzir abraços suficientes para alimentar as redes sociais durante uma semana. O que ela não poderá fazer é decretar entusiasmo. Diretório escolhe coligação. Militante escolhe se vai para a rua. Fábio une partidos, mas ainda precisa demonstrar que reúne pessoas. E casamento político sem paixão, sem identidade e com convidados olhando desconfiados para os noivos costuma durar exatamente até a abertura das urnas.
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