Editorial: Quando o rádio canta “Valmir”, resta a Fábio escutar

Quem trabalha em rádio conhece uma lei que não aparece nos manuais, mas funciona com a precisão de um relógio suíço: quando um personagem entra na pauta no primeiro bloco, reaparece no segundo, volta no terceiro e ainda ganha um “só mais uma informação” perto das nove da manhã, ele já deixou de ser simples notícia. Virou quase funcionário da emissora. Tem ouvinte que liga o rádio às seis horas e, antes mesmo de o café passar, já ouviu “Valmir” tantas vezes que começa a desconfiar do aparelho. Olha para o visor, aperta um botão, muda de estação e, para sua surpresa, lá está ele outra vez. Parece defeito de fábrica, mas não é. É política em frequência modulada.

Sem contar uma a uma as menções, seria injusto afirmar quantas vezes o nome aparece durante a programação. O curioso é a impressão que fica. O rádio muda a vinheta, muda o patrocinador, muda a previsão do tempo, muda o trânsito, muda o entrevistado e muda até o humor do apresentador, mas, quando o ouvinte imagina que finalmente o assunto tomou outro rumo, alguém solta a frase inevitável: “Mas, voltando a falar de Valmir…” É nesse momento que a notícia começa a adquirir ares de refrão. O nome deixa de ser apenas um substantivo próprio e passa a funcionar como vírgula, ponto-final e trilha sonora de toda a manhã.

Foi impossível não lembrar de um dos maiores clássicos da propaganda política sergipana. Quem viveu os anos dourados das campanhas certamente ainda escuta, em algum compartimento secreto da memória, aquele carro de som atravessando os bairros sem pedir licença: “Mendonça Prado é o 25-10… “Mendonça Prado é o 25-10… “Mendonça Prado é o 25-10…” Cinco minutos depois, o carro voltava. Na hora do almoço, reaparecia. No fim da tarde, passava novamente, como se tivesse esquecido alguma coisa na rua anterior. Quando finalmente desaparecia, continuava estacionado dentro da cabeça do eleitor. Décadas depois, ainda há quem se lembre do 2510 mais rapidamente do que do CEP da própria casa, o que prova que certas campanhas terminam nas urnas, mas permanecem em cartório permanente na memória popular.

É exatamente aí que mora a ironia. Sem perceber, o rádio acaba produzindo um fenômeno curioso: quanto mais comenta um personagem político, mais espaço esse personagem ocupa na memória coletiva. Se a notícia é boa, ele aparece. Se é ruim, aparece também. Se é crítica, aparece. Se é elogio, reaparece. No fim das contas, quem nunca ouviu falar passa a ouvir, quem já conhecia passa a escutar mais e quem não queria saber ouve do mesmo jeito. É quase um jingle involuntário, criado não por marqueteiros, mas pela repetição diária de comentaristas, entrevistadores e analistas.

Tem manhã em que o apresentador parece abrir o programa dizendo: “Bom dia. Temperatura de 26 graus, trânsito lento na Beira-Mar e Valmir”. Daí vem a economia, e aparece Valmir. Brasília entra na pauta, e Valmir retorna. Fala-se em pesquisa eleitoral, e ele surge novamente. O assunto passa pelos bastidores, desembarca em Itabaiana e, quando o ouvinte pensa que o personagem finalmente saiu de cena, Valmir reaparece como quem pergunta: “Vocês acharam mesmo que eu tinha ido embora?” É uma presença tão constante que, em pouco tempo, o nome já parece ter cadeira própria no estúdio, caneca personalizada e senha do Wi-Fi.

Quando chega o intervalo comercial, acontece a melhor cena da manhã. Depois de uma hora inteira ouvindo o mesmo nome, entra uma música do Chiclete com Banana. Só que o cérebro do ouvinte, já devidamente condicionado, resolve colaborar com a brincadeira. A música já não toca como foi gravada. Na cabeça dele, começa assim: “Valeu, Valmir, nosso amor… Valeu, Valmir demais…” Pronto. O rádio conseguiu transformar até o Chiclete com Banana em comentarista político. A música termina, o microfone abre e vem a surpresa de absolutamente ninguém: “Voltamos agora para falar de Valmir de Francisquinho.”

Enquanto isso, talvez a comunicação do governo pudesse aproveitar a lição. Se o Pato já conquistou tanto tempo de microfone, Fábio Mitidieri poderia responder no mesmo idioma que o cérebro entende: o da música e da repetição. Em vez do “quá-quá”, quem sabe um animado “Voa, voa”. De um lado, o Pato nadando de braçada. Do outro, o governador tentando decolar ao som do axé. Seria uma disputa política, zoológica e musical pelo controle da memória popular, com refrão, pesquisa e confete.

Porque eleição também tem trilha sonora. Alguns candidatos fazem discursos; outros constroem memória. E a memória, quase sempre, nasce da repetição. O cidadão liga o rádio para saber se vai chover e, quinze minutos depois, já descobriu quem brigou, quem respondeu, quem rompeu, quem fez aliança, quem desfez a aliança e quem jurou que nunca esteve aliado a ninguém. Antes que o café esfrie, já ouviu “Valmir” tantas vezes que começa a suspeitar que ele também apresenta o programa. A moral da história talvez seja a mais antiga da comunicação: o eleitor pode esquecer um discurso inteiro, mas dificilmente esquece um bom refrão. E, às vezes, sem perceber, quem critica demais termina cantando o jingle do próprio adversário: : “Valeu, Valmir, nosso amor… Valeu, Valmir demais…”.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.

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