Editorial: Quando zombam do trabalhador, Sergipe inteiro sangra

Pare por alguns segundos e assista o vídeo publicado clicando aqui. Mas não o veja apenas como eleitor. Veja como filho de alguém que trabalhou até as mãos endurecerem. Como neto de uma mulher que dividia o pouco que tinha para que ninguém dormisse com fome. Como pai ou mãe que sai de casa quando o céu ainda está escuro, carregando no peito a angústia de não saber se o dinheiro chegará ao fim do mês. Quando colocam uma faca em cena, imitam uma voz semelhante à de Valmir de Francisquinho e transformam sua origem humilde em espetáculo, aquilo deixa de ser humor e passa a ser humilhação. E é impossível não se indignar. Indigna o trabalhador, indigna o feirante, indigna quem já foi olhado de cima para baixo por causa da roupa, do sotaque ou do lugar onde nasceu. Porque não estão apenas zombando de um homem. Estão debochando de milhares de sergipanos que venceram a vida com suor, calo nas mãos e dignidade. É a velha crueldade social usando celular novo, edição moderna e o mesmo preconceito antigo. E o povo sente. Sente porque reconhece naquela cena a dor de tantas vezes em que tentaram fazê-lo acreditar que nascer pobre era motivo de vergonha.

Existe um nome para isso. Aporofobia. É o desprezo por quem tem pouco, por quem veio de baixo, por quem precisou trabalhar antes de aprender a sonhar. A faca que tentam transformar em motivo de riso é a mesma que cortou carne para alimentar famílias. É instrumento de trabalho de um marchante. É memória de feira. É o som da sobrevivência começando antes do nascer do sol. Quem ri desse gesto talvez nunca tenha precisado afiar nada além do próprio discurso. Talvez nunca tenha sentido o medo de voltar para casa sem dinheiro e encontrar um filho esperando o pão.

Não existe pecado em nascer em berço de ouro. Que todos os pais possam oferecer conforto, educação e oportunidades aos filhos. Também não há problema em estudar fora de Sergipe, morar em outro estado ou visitar a terra do Tio Sam duas, três ou quantas vezes a vida permitir. O problema começa quando o berço de ouro vira trono, quando o privilégio produz amnésia e quando quem conhece os aeroportos do mundo esquece as estradas de barro por onde caminha a maioria do povo. O ouro do berço não pode cegar os olhos para a torneira seca, para a água prometida que não chega e para milhares de famílias sergipanas que ainda enfrentam, dentro de casa, uma dificuldade que nenhuma fotografia de viagem consegue esconder.

Há pessoas que, graças às oportunidades que tiveram, puderam oferecer aos filhos uma vida longe das dificuldades, com estudos em grandes centros e residência até fora do país. Isso é legítimo, e seria absurdo condenar qualquer pai ou mãe por desejar o melhor para os seus. Mas existe uma diferença profunda entre proporcionar horizontes aos filhos e permitir que o próprio conforto produza distância da realidade de quem ficou. O problema não é ter filhos morando na terra do Tio Sam, nem visitá-los duas vezes por ano. O problema é cruzar oceanos para estar perto dos seus e, ao voltar, continuar incapaz de enxergar o povo que está ao lado. É frequentar aeroportos, acumular carimbos no passaporte e ainda manter o coração distante do homem que planta, da mulher que vende, do marchante que corta carne e do trabalhador que sustenta Sergipe com as próprias mãos.

Valmir construiu sua trajetória política em Itabaiana, mas sua história começou muito antes dos palanques e dos gabinetes. Foi machante, vendeu picolé na feira e trabalhou muito, muito mesmo, para chegar onde chegou. Conheceu o peso do serviço braçal, o calor da rua e a incerteza de quem precisa transformar esforço em sustento. Depois, tornou-se empresário, formou-se em Direito, foi vereador por cinco mandatos e chegou à Prefeitura, assumindo, em janeiro de 2025, seu terceiro mandato como prefeito do município. Nada disso o coloca acima de críticas, nem obriga alguém a apoiá-lo. Todo político deve responder por suas propostas, alianças, contas e resultados. Mas existe uma fronteira moral que não pode ser ultrapassada. Quando a crítica abandona a administração e passa a ridicularizar o machante, o vendedor de picolé e o trabalhador que venceu pela própria força, ela deixa de examinar um homem público e começa a humilhar uma classe inteira. Porque, naquele instante, não estão rindo apenas de Valmir. Estão rindo de todos os que trabalharam até as mãos doerem para conquistar o direito de sonhar.

Talvez seja essa identificação que ajude a explicar os abraços, os gritos e a vontade de aproximação observados por quem acompanha Valmir nas ruas. Não se mede competência pelo volume do aplauso, mas também não se deve fingir que o afeto popular é vazio. Existe o abraço protocolar, oferecido porque a autoridade chegou. E existe o abraço de reconhecimento, aquele em que o trabalhador parece dizer sem palavras: “Eu conheço essa estrada. Eu também vim daí.” O povo não abraça apenas um político. Muitas vezes, abraça o picolé vendido, a carne cortada, o sapato gasto e todas as humilhações que precisou engolir para continuar de pé.

Por isso, vale a pena assistir ao vídeo. Não para rir, mas para sentir. Sentir a dor de quem já foi humilhado por ser pobre, de quem já entrou em um ambiente e percebeu, pelo olhar dos outros, que sua roupa, seu sotaque ou sua origem pareciam incomodar. Assista pensando no homem que afia a faca no mercado, na mulher que limpa a casa alheia, no menino que vende alguma coisa para ajudar a mãe. Pense em quantas vezes essas pessoas foram tratadas como inferiores apenas porque nasceram longe das piscinas, dos sobrenomes influentes, dos ambientes luxuosos e das frequentes viagens à terra do Tio Sam. A faca do vídeo pode estar apontada para Valmir, mas o corte atravessa a memória e a dignidade de milhares de sergipanos. Um povo pode até suportar uma crítica dura. O que ele não esquece é o instante em que tentaram fazê-lo sentir vergonha da própria história.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.

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