A escolha de um vice raramente é apenas a escolha de um nome. É uma espécie de exame de imagem política, daqueles que revelam não apenas o que existe, mas principalmente o que o candidato principal teme que esteja faltando. Fábio Mitidieri escolheu Jeferson Andrade porque deseja cercar o governo com a própria estrutura do poder. Ricardo Marques foi buscar Pastora Salete porque precisa oferecer identidade popular, religiosa e metropolitana a uma candidatura que ainda procura volume. Valmir de Francisquinho escolheu Priscila Felizola porque entendeu que força eleitoral e experiência municipal não bastam sozinhas. Era necessário acrescentar gestão, formação jurídica, diálogo institucional e uma presença capaz de circular entre o pequeno empreendedor, o setor produtivo e a administração pública. Os três escolheram companheiros de viagem. Apenas um deles, porém, parece ter procurado alguém que também saiba consultar o mapa.
Jeferson Andrade é uma escolha sólida, previsível e politicamente compreensível. Tem quatro mandatos consecutivos de deputado estadual, preside a Assembleia Legislativa, conhece os deputados, conversa com prefeitos e já assumiu interinamente o Governo de Sergipe. Não é pouca coisa. Ele conhece as portas, as chaves e provavelmente até os horários em que os corredores do poder ficam mais silenciosos. Sua presença oferece governabilidade a Fábio, reduz riscos de rebelião parlamentar e mantém a vice dentro do PSD e cumpre um acordo do passado entre seus genitores. É o tipo de escolha que não provoca susto, justamente porque já estava sentada à mesa antes de o convite ser impresso. Jeferson não chega para mudar a direção do automóvel. Chega para garantir que a máquina continue rodando na mesma estrada.
A frase que melhor define Jeferson talvez seja aquela em que se declarou pronto para cumprir a missão e atuar em qualquer posição determinada pelo governador. É uma demonstração de lealdade, qualidade cada vez mais rara na política, onde alguns aliados juram fidelidade pela manhã e consultam outra legenda antes do almoço. Mas a frase também revela o limite de sua indicação. O projeto vem primeiro, Fábio ocupa o centro e Jeferson oferece proteção política ao redor. É um bom vice para um governo que pretende continuar sendo exatamente o que já é. A chapa ganha experiência, estabilidade e ligação com a Assembleia, mas não ganha surpresa. É como relançar um produto conhecido com a inscrição “nova embalagem” quando o conteúdo continua rigorosamente familiar.
Pastora Salete representa outro tipo de escolha. Ela possui três mandatos como vereadora da Barra dos Coqueiros, atuação comunitária, presença religiosa e experiência de oposição na tribuna. Portanto, não seria correto dizer que não possui vida parlamentar. Possui, mas sua experiência está concentrada numa Câmara Municipal e não inclui administração prolongada de prefeitura, secretaria ou órgão executivo. Seu currículo político conhece bem o microfone, a fiscalização e a cobrança. Ainda não foi testado na gestão de orçamento estadual, na coordenação de políticas públicas complexas ou no comando de milhares de servidores. Sua frase “Eu não olho partido, eu olho pessoas” tem apelo emocional e funciona muito bem em plenário. O problema é que governar exige também olhar contratos, metas, contas, indicadores e problemas que não se resolvem apenas com uma fala forte e a plateia dizendo amém.
Ricardo Marques ganhou com Salete uma voz conhecida na Barra, uma ponte com segmentos evangélicos e uma figura capaz de produzir combate político. Ela não é decorativa, tímida ou silenciosa. Ao contrário, entra em controvérsias, denuncia, responde e sustenta posições. Isso oferece ação a uma candidatura que precisa desesperadamente escapar da condição de terceira personagem numa disputa polarizada. Mas a vice de um governador não pode ser escolhida apenas pela capacidade de animar o palanque. Precisa estar pronta para atravessar a porta do gabinete e assumir o comando do Estado no dia seguinte, caso a Constituição determine. Nesse ponto, Salete ainda carrega mais experiência de tribuna do que de administração. É uma escolha de identidade e mobilização. Também é uma aposta. E, na política, aposta é o nome elegante que se dá ao risco quando o material publicitário já foi impresso.
Priscila Felizola entra nessa comparação por uma porta diferente. Ela nunca disputou mandato eletivo antes de 2026, mas não chega à política como alguém que descobriu a administração pública durante uma sessão de fotografias. É advogada, atuou em instituições jurídicas, dirigiu o Senac e tornou se a primeira mulher a comandar o Sebrae em Sergipe. Ali, relacionou se com empresas, municípios, cooperativas, produtores rurais, mulheres empreendedoras e pequenos negócios. Sua experiência não nasceu no grito da tribuna nem no conforto de quatro mandatos sucessivos. Nasceu na obrigação de entregar resultados, formar equipes, cumprir metas e responder por instituições que funcionam todos os dias, inclusive quando não há câmera ligada. Essa diferença parece pequena apenas para quem acredita que governar é uma extensão do palanque.
Sua frase mais forte surgiu quando tentaram reduzir sua escolha ao peso político do pai. “Sou mulher, tenho voz, tenho posicionamento e sei exatamente por que estou aqui.” A resposta não apaga sua origem familiar, nem deveria tentar fazê-lo, porque política também é feita de relações, histórias e heranças. O que a diferencia é possuir um currículo próprio para colocar sobre a mesa. Belivaldo Chagas oferece densidade política. Priscila oferece experiência administrativa. Valmir possui voto, rua, liderança popular e o histórico de gestão de Itabaiana. Priscila acrescenta Direito, empreendedorismo, capacidade institucional e familiaridade com metas. Ela não repete o candidato principal. Completa aquilo que falta. E uma chapa inteligente não coloca duas pessoas para fazer a mesma função, como se o Estado precisasse de motorista e copiloto disputando o mesmo volante.
No fim, os três vices funcionam como retratos dos projetos que representam. Jeferson é o guardião da continuidade, competente para proteger a engrenagem e garantir que o governo mantenha diálogo com a Assembleia. Salete é a voz da mobilização, capaz de incendiar a tribuna, reunir segmentos religiosos e produzir barulho político, embora ainda precise demonstrar musculatura executiva. Priscila é a ponte entre renovação e experiência administrativa, uma combinação rara em que a novidade eleitoral não significa improvisação gerencial. Fábio escolheu alguém para conservar o poder. Ricardo escolheu alguém para dar voz à candidatura. Valmir escolheu alguém para ampliar sua capacidade de governar. Em uma imagem final, Jeferson segura as paredes, Salete toca o sino e Priscila chega com a planta do edifício. E quando o assunto é administrar um Estado, entusiasmo ajuda, lealdade protege, mas saber onde colocar a fundação costuma decidir se a obra permanece de pé.
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