Giltinho Garcia: o sorriso largo de quem passou pela vida com leveza

Há pessoas que passam pela vida da gente como visita. Outras ficam como lembrança. Giltinho Garcia fica como presença. Daquelas presenças boas, leves, serenas, que chegam antes pela energia do que pela palavra. Ele era assim: abria aquele sorriso largo, acolhedor, limpo, e parecia dizer sem dizer que estava tudo bem. Quem conviveu com Giltinho sabe que ele tinha um jeito raro de chegar: sem peso, sem arrogância, sem maldade, com aquela tranquilidade que desarmava qualquer ambiente.

Filho de Gilton Garcia, Giltinho carregava um sobrenome de história em Sergipe, mas nunca fez disso uma moldura de vaidade. Foi presidente da Segrase, diretor de órgãos públicos, empresário, corretor, homem de compromissos, responsabilidades e trabalho. Mas, acima de cargos e funções, era amigo. Era gente. Era daqueles que a gente gostava de encontrar porque sabia que viria um abraço, uma palavra calma, uma risada tranquila e aquele sorriso que parecia ter luz própria.

Giltinho também tinha uma paixão antiga, bonita e verdadeira: a vaquejada. Paixão que nasceu ainda menino, por volta dos 12 anos, e que depois passou para o filho, Giltinho Neto. Na vaquejada, como na vida, ele era inteiro. Tinha firmeza, alegria, seriedade e amor pelo que fazia. Não era homem de alarde. Era homem de presença. Falava pouco, mas quando falava, a gente escutava. Sorria muito, e quando sorria, a gente guardava.

Eu tive a felicidade de conviver com Giltinho em várias fases da minha vida. Lá atrás, na juventude, quando pegava carona com ele na época da boate Saveiros. Depois, quando ele estava na Segrase e eu também circulava pelos órgãos do Estado. E, mais recentemente, nesses últimos meses, quando nossa convivência voltou a ficar forte, próxima, bonita. Giltinho vendeu um apartamento meu. Eu precisava vender, e ele apareceu daquele jeito dele, tranquilo, resolvendo tudo sem fazer barulho: “Faustinho, tenho um comprador”. Era assim. Chegava leve e fazia a vida parecer menos difícil.

Eu brincava dizendo que ele era meu primo rico e eu era o primo pobre. “Você é Garcia, eu só tenho Leite no nome”, dizia eu. Ele ria com aquele sorriso dele e respondia: “Que nada, Faustinho”. Era uma brincadeira simples, mas hoje vira memória preciosa. Porque é isso que fica quando alguém parte: não são os grandes discursos, são as pequenas cenas. A carona, a risada, o abraço, a frase repetida, o jeito de olhar, o modo de chegar.

De uns tempos para cá, parecia que Giltinho estava mais desapegado das vaidades da vida. Não ligava tanto para aparência, dinheiro ou formalidade. Um dia brinquei porque ele estava com a camisa para fora da calça. Ele respondeu que tinha muita coisa para resolver, muita coisa para botar em dia. Talvez fossem sinais. A vida, às vezes, fala baixo. O problema é que nós vivemos correndo tanto que só entendemos depois, quando a saudade começa a juntar as peças.

Ontem, quando soube por Pedrinho Barreto que Giltinho estava fazendo transplante de fígado, em Salvador, com a pressão alta, senti o coração apertar. Pedrinho disse: “Faustinho, vamos rezar por Giltinho”. E naquele instante a gente percebe como somos frágeis. A gente acha que ainda tem tempo para ligar, para encontrar, para abraçar, para dizer o quanto gosta. Mas, às vezes, nesse deixar a vida seguir, a vida leva quem a gente queria que ficasse mais um pouco.

Hoje, eu queria chamar os amigos de Giltinho para uma reflexão. Vamos lembrar dele pelo que ele foi de mais bonito: o sorriso, a leveza, a amizade, a simplicidade, a alegria e o coração bom. Vamos trazer Giltinho para perto não pela dor da perda, mas pela gratidão de ter convivido com ele. Vamos lembrar das boas horas, das conversas, das vaquejadas, dos encontros, das histórias, das brincadeiras, dos abraços e daquele jeito único de chegar iluminando o ambiente.

Nós perdemos Giltinho aqui na terra, mas eu tenho certeza de que Deus o recebe com alegria no céu. Recebe com amor, com misericórdia e com a mesma luz que ele espalhou entre nós. Imagino Giltinho chegando lá em cima com aquele sorriso largo, tranquilo, sereno, como quem diz: “Está tudo certo”. E Deus, com certeza, abrindo os braços para acolher um filho querido, um amigo leal, uma alma boa.

Que Deus conforte seu pai, sua mãe, seus irmãos, seus filhos, sua família e todos os amigos que hoje sentem essa ausência. Que a dor encontre descanso na fé. Que a saudade encontre abrigo nas lembranças. Que cada um de nós possa guardar Giltinho no melhor lugar possível: dentro do coração. Descanse em paz, meu amigo. Você foi querido em vida, será lembrado com carinho e continuará presente em cada sorriso, em cada história e em cada boa lembrança que deixou entre nós.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.

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