Há jornalista que acompanha política como quem acompanha previsão do tempo: anota se choveu, registra a temperatura e segue a vida. Gilvan Manoel é de outra escola. Ele guarda recibo. Editor do Jornal do Dia, veterano da imprensa sergipana e observador de longa distância do poder, Gilvan possui uma qualidade perigosíssima para qualquer político: memória. Ele não escuta apenas o discurso de hoje. Abre a gaveta, procura o discurso de ontem e coloca os dois frente a frente. Foi exatamente isso que fez no artigo “Arrogância de Fábio Mitidieri pode custar caro na eleição”, publicado em 8 de agosto. E político adora arquivo quando é do adversário. Quando é o próprio, chama de perseguição.
A primeira navalhada do artigo vem da relação entre Fábio Mitidieri e Belivaldo Chagas. Durante muito tempo, Fábio elogiou a herança recebida e chegou a falar de um Estado entregue organizado e saneado. Depois que Priscila Felizola, filha de Belivaldo, atravessou a rua política e foi parar na chapa de Valmir de Francisquinho, a memória governista aparentemente recebeu uma atualização de software. De repente, aquela herança tão elogiada passou a carregar problemas que teriam exigido dois anos de correção. Gilvan aponta a contradição com a simplicidade cruel que mais machuca na política: se estava tudo tão ruim, por que antes estava tão bom? O problema de reescrever o passado é que sempre aparece um jornalista inconveniente com acesso ao arquivo.
Gilvan chama isso de “pura ingratidão” e relembra medidas duras adotadas por Belivaldo para reorganizar as contas estaduais, além de ajustes previdenciários e obras iniciadas anteriormente e entregues já no governo seguinte. Pode-se discutir a intensidade da crítica, mas a pergunta permanece sentada no meio da sala como visita que ninguém consegue expulsar: o que realmente mudou, a situação do Estado ou a posição política de Belivaldo? Em Sergipe, às vezes basta alguém trocar de palanque para o currículo administrativo sofrer uma reforma completa. O antigo aliado vira problema histórico em velocidade superior à de qualquer obra pública.
O artigo também volta a 2022 e lembra que Fábio Mitidieri venceu Rogério Carvalho por diferença pouco superior a 40 mil votos. Foram 623.851 votos contra 582.940. Gilvan utiliza esses números para furar um dos balões favoritos de qualquer grupo governista: a sensação de invencibilidade. Máquina ajuda. Prefeito ajuda. Deputado ajuda. Dinheiro, estrutura e tempo de televisão também não atrapalham ninguém. O que não existe é transferência automática de voto. Eleitor não vem com controle remoto na mão do governador. Quem acredita nisso costuma descobrir no domingo da eleição que fotografia com quarenta prefeitos vale exatamente o mesmo voto que fotografia sem prefeito nenhum.
É nesse ponto que Gilvan escolhe a palavra mais indigesta para qualquer governante: arrogância. Não acusa Fábio de não possuir força. Ao contrário, reconhece a máquina, os aliados e a estrutura. O alerta é outro: poder demais pode produzir uma doença política conhecida como surdez eleitoral. Primeiro o governante escuta todo mundo. Depois começa a escutar apenas quem concorda. Em seguida, acredita que aplauso de aliado é pesquisa de opinião. Quando percebe, está cercado de gente dizendo “governador, foi maravilhoso” enquanto o eleitor está do lado de fora pensando exatamente o contrário. A urna possui uma característica desagradável: ela não bate continência para máquina administrativa.
Há, entretanto, um trecho do artigo em que é preciso separar a pimenta do fato. Gilvan sustenta que Fábio teria atuado nos bastidores para a impugnação de Valmir em 2022. Essa é uma afirmação política do articulista e não deve ser tratada automaticamente como fato demonstrado sem prova específica. A exclusão eleitoral de Valmir e seu impacto político são acontecimentos conhecidos; atribuir diretamente a Fábio Mitidieri uma ação determinante sobre decisão judicial exige demonstração própria. E justamente aqui o jornalismo precisa fazer aquilo que Gilvan cobra dos políticos: memória com responsabilidade. Uma boa crítica fica ainda mais forte quando não precisa emprestar certeza ao que continua sendo acusação.
A parte quase profética da história veio no dia seguinte. Gilvan publicou o alerta no sábado, 8 de agosto. No domingo, Fábio voltou ao centro de uma controvérsia depois de usar a palavra “marchante” numa provocação a Valmir de Francisquinho. Gilvan não previu a frase, evidentemente, mas havia identificado o comportamento: o risco de o excesso de confiança transformar o próprio tom do governador em pauta eleitoral. É como o jornalista escrever que existe gasolina espalhada no chão e, vinte e quatro horas depois, alguém entrar na sala brincando com fósforo. Não significa que Gilvan tenha poderes sobrenaturais. Significa apenas que ele estava olhando para o filme enquanto muita gente se distraía com a fotografia.
Talvez seja essa a maior virtude de Gilvan Manoel como articulista: ele incomoda porque lembra. Recupera frases, compara versões, confronta alianças antigas com discursos novos e não aceita facilmente aquela velha tradição política de Sergipe segundo a qual toda declaração deveria vir com prazo de validade de três dias. Não é necessário concordar com tudo o que escreve para reconhecer a importância desse método. O bom articulista não precisa adivinhar outubro. Precisa fazer o leitor enxergar agosto com mais clareza. E Gilvan colocou uma pergunta bastante incômoda sobre a mesa de Fábio Mitidieri: quando a confiança de quem tem governo, máquina e aliados deixa de ser força e começa a virar soberba? O problema para qualquer governante é que essa pergunta não será respondida por assessor, prefeito ou deputado. A resposta vem da urna. E urna, como Gilvan sabe há décadas, possui péssimo hábito de não bajular ninguém. Leiam o artigo: https://jornaldodiase.com.br/260148-2/
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