
O show de Luan Santana em Sergipe deixou mais do que uma pergunta no ar. Deixou uma sensação ruim, daquelas que a população sente antes mesmo de organizar a indignação em palavras. Porque, enquanto muita gente se arrumava em casa, escolhia a roupa, fazia o cabelo, passava perfume, combinava carona, enfrentava fila, trânsito, calor, cansaço e expectativa, o artista que subiu ao palco pago com dinheiro público parecia esquecer um detalhe básico: aquele espetáculo não nasceu de uma relação privada entre celebridade e fã. Nasceu do bolso do povo.
E é aí que a coisa deixa de ser apenas uma exigência de produção e vira símbolo. Quando um show público, gratuito e bancado pelo Estado impede que sua imagem chegue ao próprio público, algo se quebra. Que delicadeza é essa que aceita o dinheiro coletivo, mas controla a imagem como se o palco fosse uma sala VIP particular? Que popularidade é essa que abraça multidões de perto, mas vira as costas para quem só poderia acompanhar de longe? A festa era pública, o dinheiro era público, a expectativa era pública. Só a imagem, pelo visto, virou propriedade sagrada de camarim.
A população fica indignada porque entende, mesmo sem precisar ler contrato, que há uma injustiça emocional nesse gesto. O idoso que não pôde ir, a mãe que ficou em casa com o filho pequeno, a pessoa com deficiência, o trabalhador que não conseguiu sair do plantão, o morador do interior que também paga imposto, todos eles foram deixados do lado de fora de uma festa que também ajudaram a financiar. E isso dói. Não é só sobre câmera, transmissão ou portal de notícia. É sobre pertencimento. É sobre o povo perceber que pagou a conta, mas não recebeu o direito completo de participar.
O argumento de “proteger a imagem” pode até vestir roupa bonita em show privado, desses com ingresso caro, camarote fechado e exploração comercial milimetricamente calculada. Mas em festa pública ele chega malvestido. Porque, quando o artista aceita cantar em palco sustentado pelo dinheiro da população, precisa entender que a luz que o ilumina também vem do contribuinte. Se queria controle absoluto de ângulo, close, transmissão e narrativa, talvez o ambiente adequado fosse outro. Em palco público, a vaidade deveria ter a elegância de saber seu tamanho.
Luan Santana sempre construiu sua imagem como artista popular, próximo, romântico, acessível, desses que cantam para multidões e vivem da comoção dos fãs. Justamente por isso, o episódio pega tão mal. Porque parece dizer que o povo é bom para lotar praça, cantar junto, gerar foto bonita e justificar cachê, mas não é bom o suficiente para receber a imagem do espetáculo que financiou. Será que o artista quer o aplauso popular, mas não quer a circulação popular da própria apresentação? Quer a praça cheia, mas a transmissão vazia? Quer o carinho do povo, mas com o controle remoto na mão da produção?
Esse caso deveria servir de alerta para governos, prefeituras e parlamentares que contratam grandes shows com recursos públicos. Dinheiro público exige contrapartida pública. Festa popular não pode virar produto blindado por cláusula de estrelismo. O artista tem direito à imagem, claro. Mas a população também tem direito à transparência, ao acesso e ao respeito. Quem canta com dinheiro do povo precisa aceitar que o povo veja, registre, compartilhe e participe. O resto é luxo de bastidor financiado por quem, muitas vezes, nem conseguiu chegar perto do palco. Com a palavra o Ministério Público!
Comentários estão fechados.