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Valmir de Francisquinho fez a pergunta que faltava na mesa do governador: se o presidente da República decidiu proibir as bets por seus danos às famílias, o que Fábio Mitidieri fará com as apostas oferecidas pela Lotese? Há uma diferença entre administrar um banco estadual e colocar uma subsidiária desse banco para operar jogos online. Agora que Brasília apertou o botão de encerramento, não basta ao governo sergipano fingir que o assunto pertence a outro balcão. A Agrese identifica a Lotese como subsidiária do Banese e inclui apostas esportivas e jogos online em sua relação de modalidades.
Fábio poderá dizer, corretamente, que as leis iniciais da loteria estadual são anteriores ao seu mandato. O argumento tem prazo de validade curto: foi em seu governo que a legislação mudou para permitir a operação pelo Banese. Herdar uma lei é uma coisa; dar ao banco estadual um papel central no negócio das apostas é uma decisão que merece explicação. O sergipano tem direito de saber quem autorizou a operação, quanto ela arrecadou, quanto chegou aos cofres públicos e quanto foi gasto para proteger quem joga.
A MP tornou a cobrança urgente. Segundo o governo federal, novos depósitos nas plataformas ficaram proibidos com sua publicação; os apostadores têm até 5 de outubro para resgatar saldos, e o bloqueio de sites e aplicativos está previsto para 6 de outubro. Essas regras também alcançam autorizações estaduais de apostas de quota fixa. Fábio, Banese, Lotese e Agrese precisam informar, em linguagem que qualquer cliente entenda, quais jogos serão encerrados, como o dinheiro será devolvido e quem responderá se houver falha. O dinheiro do apostador não pode ficar esperando uma entrevista coletiva.
Valmir também provoca um debate sobre prioridades ao relatar máquinas de jogos no Baixo São Francisco e cobrar atendimento bancário nos municípios. A imagem é politicamente potente, mas uma máquina encontrada na rua só pode ser ligada à Lotese depois de identificado seu operador. A pergunta que depende apenas dos documentos do próprio governo já é suficientemente incômoda: por que ampliar a presença do Banese nas apostas, e quais resultados concretos essa escolha trouxe para a população?
Lula, por sua vez, não chegou a essa história de surpresa. Seu governo regulamentou o setor e, segundo o Ministério da Saúde, concedeu 85 outorgas de R$ 30 milhões, somando R$ 2,55 bilhões. Agora proíbe a atividade. Pode haver bons motivos de saúde pública para a mudança, mas o presidente deve explicar por que o risco aceito durante a regulamentação passou a exigir uma proibição tão rápida. A cobrança feita a Fábio não dá passe livre a Brasília.
Valmir fala em mais de 800 mil sergipanos endividados. Esse número, por si só, não prova que a Lotese causou essas dívidas. Para medir o impacto da operação, o governo estadual deve abrir dados de apostas, perdas, receita, repasses e atendimentos por jogo problemático. Fábio tem uma oportunidade simples de responder: apresentar os números e o plano de cumprimento da MP. Se preferir o silêncio, deixará uma conclusão política se espalhar sozinha: para convidar o sergipano a apostar, o governo tinha plataforma; para explicar a conta, falta microfone.
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