O PP de Laércio: tão progressista …

Editorial – O PP de Laércio: tão progressista que progride para todos os lados

O Progressistas de Sergipe fez festa, botou luz, chamou liderança, reuniu prefeito, vice-prefeito, vereador, deputado, suplente, aliado, candidato, pré-candidato e até quem ainda está procurando uma legenda para chamar de sua. Foi o grande encontro do PP, ou melhor, o grande encontro do “Partido Progressista de Direções Variadas”. Porque, convenhamos, o partido de Laércio Oliveira é progressista mesmo: progride para a direita em Brasília, progride para o centro-esquerda em Sergipe, dá uma piscada para a esquerda no Senado e ainda arruma uma cadeira para todo mundo sentar, desde que ninguém pergunte qual é exatamente o rumo da viagem.

Laércio Oliveira virou o maestro de uma orquestra curiosa. No plano nacional, conversa com a direita, acena para Flávio Bolsonaro e mantém discurso alinhado com esse campo. Em Sergipe, apoia Fábio Mitidieri, governador que caminha com a base governista e é lido por adversários como nome ligado ao campo de Lula no Estado. Aí começa o primeiro nó: se lá em cima o PP veste camisa azul, aqui embaixo aparece de branco, amarelo, vermelho, verde e ainda diz que é tudo combinação de São João. É como se o eleitor perguntasse: “Senador, afinal, o senhor vai de quê?” E a resposta viesse: “Depende do palanque, meu filho.”

Mas o balé político não para no Governo. Para o Senado, Laércio consegue produzir uma coreografia ainda mais ousada: não se alinha, pelo menos nesse desenho, aos nomes mais diretamente associados ao governador Fábio Mitidieri, como André Moura e Rogério Carvalho. Em vez disso, abre espaço para Rodrigo Valadares, do PL, vinculado ao campo bolsonarista, e para Edvaldo Nogueira, do PDT, de trajetória mais à esquerda. É o segundo contrassenso servido na bandeja: no Governo, Fábio; no Senado, Rodrigo e Edvaldo; na retórica, direita; na prática, salada de fruta política com leite condensado, granola e pimenta malagueta.

Rodrigo Valadares sai desse movimento com palanque, foto e sinalização importante. Edvaldo Nogueira também aparece no tabuleiro como nome lembrado, circulando em ambiente onde, em tese, muita gente deveria estar marchando sob a mesma lógica majoritária. André Moura, presidente da federação União Progressista em Sergipe, fica numa situação politicamente delicada: elogiado, respeitado, chamado de amigo, mas sem necessariamente receber o apoio que se esperaria de quem divide o mesmo condomínio partidário. É aquela federação em que todos dizem morar juntos, mas cada um tranca a geladeira no próprio quarto.

No campo proporcional, Laércio tenta mostrar força com Levi Oliveira. E aqui é preciso cuidado: há quem diga que Levi ainda precisa provar musculatura eleitoral; mas também há um dado que não se pode ignorar. Laércio já foi subestimado antes. Na eleição para o Senado em 2022, muita gente olhava para ele como quem vê um corredor largando lá atrás, amarrando o cadarço e procurando a pista. No fim, venceu. Portanto, Levi entra como aposta familiar, política e estratégica. Pode não ter hoje o tamanho de Yandra Moura, que saiu da última eleição com votação expressiva, mas entra no jogo para disputar espaço real com Gustinho Ribeiro e outros nomes da federação.

Gustinho Ribeiro, por sua vez, é o nome de mandato, de estrutura, de reeleição e de sobrevivência eleitoral. Chegou ao PP para tentar garantir estrada mais firme, mas agora vê Levi Oliveira crescendo como projeto direto de Laércio. A federação pode eleger dois federais? Pode. Pode fazer mais? Talvez. Mas a pergunta que corre nos bastidores é outra: quem senta na primeira cadeira depois da votação? Yandra Moura parece estar em outro patamar de lembrança e densidade. A segunda vaga, se o cenário apertar, pode virar duelo interno entre Gustinho e Levi. E quando parente de cacique entra na pista, até deputado de mandato começa a olhar pelo retrovisor.

Na disputa estadual, o enredo ganha outro capítulo. Luciano Pimentel, aliado conhecido e bem relacionado com Laércio, foi parar no PL de Rodrigo Valadares. Thiago Rangel, que orbitava o PP, foi deslocado para o Podemos. A leitura política é evidente: Laércio teria espalhado peças para aumentar as chances de eleger aliados em legendas mais viáveis, ainda que isso enfraqueça organicamente o próprio PP. É estratégia? É. É contradição? Também. É como desmontar a própria barraca de fogos para vender rojão na barraca do vizinho e depois dizer que a festa continua sendo sua.

No final, a festa do PP mostrou força, público, estrutura e capacidade de articulação. Mas também expôs uma contradição do tamanho de trio elétrico em rua estreita. Laércio Oliveira comanda um partido que apoia Fábio Mitidieri no Governo, Rodrigo Valadares e Edvaldo Nogueira no Senado, Levi Oliveira e Gustinho Ribeiro para federal, Luciano Pimentel no PL, Thiago Rangel no Podemos e ainda convive com André Moura presidindo uma federação onde nem todo mundo parece tocar a mesma música. É muita aliança para pouco compasso. O PP de Sergipe saiu da festa grande, iluminado e barulhento. Só falta combinar com o eleitor se aquilo era lançamento de chapa, ensaio de coligação ou desfile de fantasias políticas.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.

Comentários estão fechados.

Nós usamos cookies para melhorar a sua experiência em nosso portal. Ao clicar em concordar, você estará de acordo com o uso conforme descrito em nossa Política de Privacidade. Concordar Leia mais