
Coloque sobre a mesa André David, Danielle Garcia, Alessandro Vieira e Katarina Feitoza. Os quatro vieram da Polícia Civil, os quatro exploraram a autoridade do cargo e os quatro descobriram que distintivo não vota. Em 2026, a urna fez uma triagem impiedosa: Alessandro e Katarina saíram com mandato; André e Danielle ficaram com discurso, lembrança e explicações.
Os números não têm delicadeza. Alessandro voltou ao Senado com 399.775 votos. André David teve 378.710 e perdeu. Katarina chegou a 71.592 votos para deputada federal, quase dobrando os 38.135 de 2022. Danielle Garcia viveu o movimento oposto: 109.864 votos no segundo turno de Aracaju em 2020, 206.135 para o Senado em 2022, 16.769 para prefeita em 2024 e apenas 14.115 para deputada estadual em 2026. Quando uma candidatura sai de mais de 200 mil votos para pouco mais de 14 mil, já não dá para chamar tudo de azar. Em algum momento, o eleitor simplesmente deixou de comprar o produto.
André David merece o mesmo rigor. Quase 379 mil votos são muitos, mas política não distribui medalha para vice-campeão moral. Depois da derrota, ele disse que “o resultado das urnas é soberano e eu respeito”. Ótimo. Só faltava não respeitar. Reconhecer o resultado eleitoral é obrigação democrática, não certificado de humildade. A questão verdadeira é outra: como alguém que aparecia na liderança das pesquisas cerca de 10 dias antes da eleição conseguiu terminar fora das duas vagas? Em algum ponto, a confiança ganhou perfume de soberba. A cadeira começou a parecer reservada antes de a urna abrir. E urna tem um péssimo hábito: não lê pesquisa velha nem respeita favoritismo autoproclamado.
O problema de André é que a personagem policial parece ter crescido mais rápido que o político. Sua campanha vendeu ação, autoridade, confronto e imagem de homem que resolve. Funciona muito bem em vídeo de campanha. Só que Senado não é operação policial. Lá não há porta para arrombar nem suspeito para algemar. Há Constituição, orçamento, negociação, federação e articulação. Quando João Eloy o chamou de bom “derrubador de porta”, não exagerou na provocação e tocou no nervo da questão: o eleitor via um senador ou ainda enxergava principalmente um delegado com projeto de poder?
Alessandro Vieira oferece um contraste incômodo. Também nasceu eleitoralmente como delegado, também colecionou conflitos, mudanças e adversários. A diferença é que acrescentou camadas. Pode ser criticado por alianças, pragmatismo e contradições, mas já não depende apenas da antiga identidade policial. Virou político, goste-se disso ou não. Aprendeu a sobreviver ao ambiente institucional, a negociar, a ocupar espaço e a transformar mandato em argumento eleitoral. O distintivo abriu a porta; ele tratou de aprender o mapa da casa.
Danielle Garcia, por outro lado, parece presa a uma fórmula que o eleitor já demonstrou conhecer de cor. Quatro disputas, nenhum mandato. A notoriedade ficou. O título de delegada ficou. A presença pública ficou. O voto é que encolheu brutalmente. A política costuma ser cruel com quem acredita que reconhecimento de nome é patrimônio eterno. Não é. Eleitor também se cansa de reprise. Quando a candidatura vira repetição sem novidade, a urna troca de canal.
Katarina fez justamente o contrário. Ela já não é apenas “a delegada Katarina”. É a política Katarina. Isso muda tudo. Saiu de 38.135 votos em 2022 para 71.592 em 2026 porque conseguiu apresentar algo além do currículo policial: mandato, atuação parlamentar, presença institucional e trajetória política própria. O distintivo virou parte da biografia, não o centro permanente da propaganda. É uma diferença sutil na aparência e enorme na urna.
Essa talvez seja a fotografia mais dura de 2026. André ainda parece tentando converter autoridade policial em densidade política. Danielle parece tentando convencer o eleitor de que uma marca desgastada ainda conserva o mesmo valor. Alessandro já passou dessa etapa. Katarina também. Campanha pode fabricar herói, produzir música épica, vídeo de impacto, fotografia de autoridade e até a sensação de vitória antecipada. Mas a urna tem péssimo gosto para cinema: ela ignora o trailer e cobra o filme inteiro. Alessandro ouviu “sim” novamente. Katarina também. André recebeu um enorme “quase”. Danielle ouviu outro “ainda não”. E talvez a mensagem seja simples: o distintivo pode apresentar alguém à política. Depois disso, quem não aprender a ser político corre o risco de continuar famoso e, ainda assim, continuar do lado de fora.
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