PARTE 1 — A TORNEIRA SECA E O GOVERNO DE MÃOS LAVADAS
Imagine acordar cedo, ainda sonolento, colocar a mão na torneira e ouvir apenas o gemido do encanamento. Nenhuma gota. Não há água para o café, para o banho, para lavar a roupa, preparar a comida ou cuidar de uma criança. A pia começa a acumular pratos, o banheiro perde a dignidade e a casa inteira passa a funcionar em torno de baldes. É nesse instante que a falta de água deixa de ser assunto técnico e entra na vida como humilhação. Quem tem dinheiro compra garrafões ou chama carro-pipa. Quem não tem, aprende que até a sede respeita a divisão de classes. Em Sergipe, a água não chega, mas a conta chega pontualmente, limpa, impressa e cheia de autoestima.
Não se iluda: o problema não está resolvido. Para muitas famílias, ele ficou maior, mais frequente e mais angustiante. Parque dos Faróis, Conjunto Jardim, Guajará, Itacanema, Palestina, Santa Inês, Santo Inácio e outras localidades de Nossa Senhora do Socorro continuam convivendo com interrupções e abastecimento irregular. A própria Iguá já divulgou comunicados reconhecendo intermitências nessas áreas por manutenção emergencial em linha adutora. Em maio de 2025, a Prefeitura de Socorro já registrava problemas recorrentes no Parque dos Faróis, no Jardim e na sede municipal. O tempo passou, as promessas ganharam roupa nova e o morador continuou entrando no banheiro com um balde na mão.
A concessão conduzida pelo governo de Fábio Mitidieri repartiu o sistema com a elegância de quem divide a sobremesa antes de verificar se todos almoçaram. A Deso permaneceu pública, responsável pela captação e pelo tratamento. A Iguá assumiu a distribuição de água e os serviços de esgotamento em 74 municípios. O contrato vale por 35 anos, teve outorga de R$ 4,5 bilhões e prevê R$ 6,3 bilhões em investimentos. No PowerPoint, era quase a chegada do São Francisco a cada cozinha. Na vida real, criou-se um sistema em que uma empresa produz, outra distribui, uma agência regula e o consumidor tenta descobrir para quem deve telefonar antes que a caixa-d’água seque completamente.
Fábio Mitidieri não rompeu pessoalmente uma adutora nem desligou uma bomba. Mas foi seu governo que defendeu, estruturou e executou esse modelo. Portanto, o governador possui responsabilidade política direta por fiscalizar o contrato, cobrar integração entre Deso e Iguá e impedir que a população seja abandonada entre duas centrais de atendimento. Não é aceitável privatizar a distribuição, celebrar bilhões na outorga e, quando a água some, comportar-se como um vizinho curioso que também deseja saber o que aconteceu. Governo não é plateia. Fábio não pode posar para a fotografia da concessão quando entra o dinheiro e desaparecer do enquadramento quando falta água.
Em abril de 2026, pelo menos 16 bairros de Aracaju enfrentaram uma grande interrupção no abastecimento após problemas em adutoras. No meio da crise, surgiu até a hipótese de sabotagem, contestada pelos trabalhadores da Deso e sem comprovação policial apresentada naquele momento. Foi o instante em que o drama quase virou série criminal: “O mistério da torneira vazia”. Faltou apenas procurar o suspeito atrás da caixa-d’água. Antes de insinuar conspirações, o governo e a concessionária deveriam responder ao básico: por que um serviço essencial continua tão vulnerável? Onde está a manutenção preventiva? Qual é o plano de contingência? Quem responde pelo quê? A população não precisa de vilão cinematográfico. Já tem baldes suficientes no elenco.
A Iguá anuncia obras, reservatórios, adutoras, estações de bombeamento e investimentos milionários. É correto reconhecer que intervenções estão sendo realizadas. Mas investimento anunciado não mata sede. Planilha não dá banho em criança, vídeo institucional não lava roupa, e coletiva de imprensa não enche panela. O indicador usado pelo cidadão é rudimentar e implacável: ele abre a torneira. Se sai água, o sistema funciona. Se sai vento, alguma coisa falhou. Pode haver bilhões prometidos até 2033, mas a família que está sem água hoje não consegue cozinhar com uma meta futura. Universalização em contrato é importante. Sobrevivência no presente é um pouco mais.
O mais cruel é que essa crise sequestra a rotina e a dignidade. A mãe calcula a água do banho dos filhos. O idoso economiza descarga. O trabalhador chega cansado e não consegue tomar banho. O pequeno comerciante perde mercadoria e cliente. No Parque dos Faróis, no Conjunto Jardim, no Guajará e em grande parte dos interiores sergipanos, a torneira seca não é uma abstração administrativa. É ansiedade, revolta, mau cheiro, roupa acumulada e medo de não saber quando o abastecimento voltará. O governo fala em modernização. O cidadão modernizou mesmo foi o estoque de baldes.
Sergipe precisa de um comando único para crises, relatórios públicos sobre cada interrupção relevante, prazos verificáveis, abastecimento emergencial e punição quando houver falha contratual. Deso, Iguá, Agrese e Governo do Estado não podem continuar passando a responsabilidade de mão em mão como se fosse justamente o último balde disponível. A concessão foi uma escolha do governo Fábio Mitidieri, e toda escolha de governo vem acompanhada de responsabilidade. A água é um direito, não um brinde da concessionária nem uma bondade do governador. Enquanto a propaganda continuar jorrando e a torneira continuar seca, a população terá todo o direito de perguntar: afinal, os R$ 4,5 bilhões molharam o futuro de quem?
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