Quem acompanha este espaço no blog da Infonet sabe que gosto de compartilhar textos que não apenas informam, mas provocam, incomodam e permanecem na cabeça depois da última linha. É exatamente o caso de “Nós somos todas Gisele”, da jornalista Bia Muniz, uma coluna escrita com rara combinação de sensibilidade, inteligência, coragem e responsabilidade, porque consegue tratar de violência contra a mulher, intolerância digital, liberdade de crítica e ameaças sem cair nem no sentimentalismo fácil nem na caça irresponsável a culpados. Bia faz aquilo que o bom jornalismo deveria fazer com mais frequência: humaniza sem perder o rigor, emociona sem abandonar os fatos e transforma a história de uma procuradora atacada em uma reflexão muito maior sobre o que tantas mulheres ainda enfrentam quando ousam ocupar espaços de poder sem pedir licença para existir. Recomendo a leitura até o fim. Vale cada linha, inclusive aquelas que talvez nos deixem um pouco desconfortáveis, porque são justamente essas que mais precisamos ler. Segue o texto:
Nós somos todas Gisele

Eu li o que aconteceu com a procuradora Gisele Bleggi e, por alguns minutos, deixei de ser jornalista. Deixei de ser professora, deixei de procurar enquadramento jurídico, tese sociológica, explicação psicológica. Eu simplesmente pensei como mulher. Como mãe de dois filhos. Como avó de dois netinhos. E confesso que me veio uma pergunta quase infantil: meu Deus, como ainda estamos discutindo isso em pleno século XXI? Como uma mulher pode estudar, construir uma carreira, enfrentar concursos, processos, pressões, responsabilidades públicas e, quando resolve exercer com firmeza aquilo para o qual foi preparada, descobrir que existe uma multidão menos interessada no que ela pensa do que no cabelo que ela usa? A tecnologia evoluiu tanto que colocamos inteligência artificial dentro do telefone, mas há gente que ainda utiliza a própria inteligência como se estivesse esperando atualização desde 1952. O MPF confirmou que Gisele sofreu ataques e até ameaças de morte ligadas à sua atuação. A partir daí, não existe graça. Existe medo. E mulher nenhuma deveria precisar aprender a conviver com o medo como cláusula escondida do contrato de trabalho.
Talvez eu sinta isso de maneira ainda mais profunda porque, na personagem que construí ao longo de tantos anos entre universidade, consultório, jornalismo e ambientes de poder, conheci esse olhar. Conheci a sala em que uma mulher começa a falar e alguém parece primeiro conferir sua roupa para só depois decidir se escutará sua inteligência. Conheci a pressão silenciosa, aquela que não deixa hematoma, não aparece em exame de corpo de delito, mas vai dizendo baixinho: seja menos firme, sorria mais, não incomode tanto, não responda desse jeito, não seja tão você. Na universidade, quantas mulheres aprenderam que um homem contundente é brilhante, enquanto uma mulher contundente corre o risco de ser chamada de difícil? Essa palavra, “difícil”, aliás, talvez seja uma das mais extraordinárias invenções do patriarcado. Muitas vezes significa apenas: “esta mulher não fez aquilo que eu esperava dela”. E quando li o que fizeram com Gisele, reconheci imediatamente esse mecanismo. Primeiro tentam enquadrar a mulher. Quando não conseguem, tentam ridicularizá-la.
Porque existe uma crueldade particular no policiamento estético das mulheres. O homem público pode repetir o mesmo terno durante vinte anos, perder metade do cabelo, ganhar duas barrigas e continuar sendo chamado de experiente. A mulher muda o cabelo e surge imediatamente o Supremo Tribunal Federal da Estética, com milhares de ministros nomeados pelo Instagram. Um analisa a tatuagem, outro julga a roupa, um terceiro profere sentença sobre o penteado. Ninguém leu o processo, ninguém estudou licenciamento ambiental, ninguém conhece a atuação institucional, mas todos se sentem perfeitamente habilitados para decidir se aquela mulher “parece” uma procuradora. Parece? Desde quando competência tem corte de cabelo? Desde quando inteligência possui dress code? O que aconteceu com Gisele revela uma doença antiga: ainda existe gente profundamente incomodada quando uma mulher se recusa a pedir licença estética para exercer poder.
Mas há uma fronteira que transforma o grotesco em assustador. Quando começam referências a arma, desaparecimento, queima e morte, acabou a piada. Aí eu penso novamente como mãe e como avó. Imagino uma mulher chegando em casa depois de trabalhar, colocando a bolsa sobre a mesa, olhando o telefone e lendo que alguém gostaria que ela desaparecesse. Imagino seus familiares. Imagino o segundo de silêncio que existe depois que uma ameaça dessas entra numa casa. Porque ameaça nunca alcança apenas quem está na fotografia. Ela senta à mesa com os filhos, entra no quarto dos pais, acompanha o companheiro, visita os amigos. E é por isso que eu tenho dificuldade de aceitar aquela expressão cômoda de que “é coisa de internet”. Não. A internet não é um país estrangeiro onde a civilização termina na alfândega. Perfil falso não transforma ninguém em personagem de videogame. Atrás daquele avatar existe uma pessoa. E, dependendo do que essa pessoa escreveu e fez, precisa existir também uma investigação.
É aí que a Polícia Federal tem uma responsabilidade enorme. Não para proteger Gisele porque ela é procuradora da República, como se membros do Ministério Público merecessem uma cidadania premium. Nada disso. É justamente o contrário. A investigação precisa ser exemplar porque Gisele poderia ser qualquer uma de nós. Hoje é uma procuradora que contrariou interesses e posições em debates ambientais. Amanhã pode ser uma professora que reprovou um aluno, uma jornalista que publicou uma reportagem, uma médica que negou um pedido, uma vereadora que votou de determinada maneira ou simplesmente uma menina que resolveu terminar um namoro. Se houver uma rede por trás dos ataques, que se descubra a rede. Se houver dinheiro, que se siga o dinheiro. Se houver mandante, que apareça o mandante. Se não houver articulação alguma e forem apenas covardes agindo individualmente, que cada um responda individualmente. O que não podemos fazer é transformar ameaça contra mulher em paisagem digital, como se fosse aquele anúncio irritante que aparece na tela e aprendemos simplesmente a fechar.
E também quero dizer algo que considero fundamental como mulher, mãe, avó e como jornalista: defender Gisele não significa inventar culpados. Ela levantou a hipótese de que possa existir articulação por trás dos ataques, mas isso precisa ser investigado. Não há, até agora, prova pública que autorize apontar empresário, grupo político, construtora ou qualquer outra pessoa como mandante. E sabe por que faço questão de dizer isso? Porque feminismo não é linchamento com sinal trocado. Nós não precisamos cometer contra alguém a injustiça que denunciamos quando praticada contra uma mulher. Queremos prova. Queremos investigação. Queremos responsabilidade. Queremos que os criminosos verdadeiros sejam encontrados. Isso é muito mais poderoso do que escolher um vilão por conveniência. Justiça não precisa de torcida organizada. Precisa de coragem, método e prova.
No final, o que mais me emociona nessa história é imaginar quantas vezes disseram a mulheres como Gisele, como tantas de nós, para baixar o tom. Quantas vezes sugeriram que seria melhor não comprar aquela briga. Quantas vezes uma mulher voltou para casa perguntando a si mesma se tinha exagerado, quando na verdade apenas falou com a mesma firmeza que seria admirada se viesse de um homem. Gisele disse que não pretende recuar. Eu espero sinceramente que não recue. Não porque concordemos obrigatoriamente com cada posição que ela defenda. Procuradora nenhuma está acima da crítica, e ainda bem. Democracia é justamente o direito de contestá-la, enfrentá-la intelectualmente, questionar seus atos e desmontar seus argumentos. Mas há uma distância civilizatória enorme entre dizer “a senhora está errada” e dizer “a senhora precisa desaparecer”. A primeira frase pertence à democracia. A segunda pertence ao medo. E talvez esteja aí a razão pela qual essa história não seja apenas sobre Gisele. É sobre todas nós. Sobre nossas filhas. Sobre nossas netas. Sobre o direito aparentemente simples, mas ainda tão caro, de uma mulher caminhar olhando para frente sem precisar passar a vida inteira olhando por cima do ombro.
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