Valmir pisa na periferia; rivais ainda procuram o endereço

Há um instante em que a política deixa de ser reunião de gabinete, café com lideranças e fotografia cuidadosamente ensaiada para entrar oficialmente em cena. Esse instante chama-se convenção partidária. A partir dali, não basta dizer que será candidato. É preciso colocar data, horário, endereço, ata, assinatura e enfrentar o julgamento da própria militância. Em outras palavras: chega a hora em que o discurso precisa encontrar um CEP e CPF.

O calendário sergipano já começa a desenhar um contraste curioso. O Republicanos resolveu abrir os trabalhos logo no primeiro dia permitido pela Justiça Eleitoral e escolheu o Conjunto Marivan, no Santa Maria, região que conversa diretamente com a história de Valmir de Francisquinho, criado entre feira, trabalho e vida simples. Enquanto isso, algumas legendas parecem ainda estar debatendo o item mais complexo da campanha: onde colocar as cadeiras. Tem partido que anunciou a data, mas esqueceu de informar o endereço. Outros seguem na fase do “aguarde novas informações”. O convite parece ter sido redigido a lápis, com uma observação no rodapé: “Local sujeito à inspiração de última hora.”

O PSD do governador Fábio Mitidieri, por exemplo, ainda não oficializou sua convenção. O relógio eleitoral já começou a correr, mas o GPS da convenção continua recalculando a rota. Na crônica política, sobra espaço para a ironia: enquanto o Republicanos já escolheu o palco e acendeu os refletores, há quem ainda pareça folhear o catálogo de salões de festa. Afinal, convenção também é estratégia, cenário e comunicação. E, como toda boa peça de teatro, há quem prefira esperar os primeiros atos antes de revelar o próprio roteiro.

Quem resolveu antecipar o endereço foi o MDB do senador Alessandro Vieira. A legenda escolheu o tradicional e climatizado Iate Clube de Aracaju, na Treze de Julho. É uma opção elegante e perfeitamente legítima, mas já há quem faça uma aposta bem-humorada: se a mobilização for grande, o primeiro embate da campanha poderá acontecer bem antes dos discursos, entre motoristas tentando atravessar a entrada da Treze de Julho sem transformar a convenção em um congestionamento histórico. Afinal, em Aracaju, às vezes o maior cabo eleitoral é o semáforo.

Enquanto isso, outras legendas seguem escrevendo o roteiro a prestações. O PSB já trabalha com uma data, mas ainda não divulgou oficialmente o local. Outros partidos continuam costurando definições e alianças antes de bater o martelo. Tudo dentro da normalidade do calendário eleitoral, mas o suspense já virou quase uma modalidade esportiva. O jornalista liga para um dirigente, que manda falar com o presidente, que encaminha para o cerimonial, que responde: “Estamos finalizando”. Traduzindo para o português político: “Ainda não sabemos onde será.”

A impressão é que algumas direções partidárias abriram o aplicativo de mapas e ele ficou eternamente em “recalculando rota”. Tem partido procurando clube, tem partido procurando ginásio, tem partido procurando consenso e alguns talvez ainda estejam procurando até candidato para discursar. Do jeito que a coisa caminha, qualquer hora aparece um QR Code no convite levando para a mensagem: “Endereço será revelado em breve. Continue acompanhando nossos canais.”

Enquanto isso, o Republicanos não apenas marcou a data; escolheu um lugar carregado de simbolismo político. Na comunicação eleitoral, endereço nunca é apenas endereço. É mensagem. É narrativa. É identidade. Há quem prefira começar cercado por comerciantes, trabalhadores e moradores da periferia. Outros optam por clubes, salões tradicionais e ambientes mais sofisticados. Nenhuma escolha é neutra. Toda convenção começa muito antes do primeiro discurso.

A comparação, inevitavelmente, rende boas cenas. De um lado, a política da feira, da rua e do bairro popular. Do outro, a política dos clubes, das marinas e dos salões climatizados. Não há certo nem errado; há estratégias diferentes para conversar com públicos diferentes. O curioso é que, em Sergipe, o endereço acabou virando personagem principal antes mesmo de os candidatos pegarem no microfone.

E existe outro detalhe divertido. A Justiça Eleitoral abriu oficialmente a temporada das convenções entre 20 de julho e 5 de agosto. Mesmo assim, algumas legendas parecem tratar o calendário como aqueles estudantes que deixam o trabalho para entregar às 23h59 do último dia. Dá certo? Às vezes dá. Mas até lá a ansiedade da plateia cresce mais do que pesquisa eleitoral.

Nos bastidores, jornalistas já fazem um esporte novo: descobrir onde será a convenção antes do próprio convite oficial. É quase uma gincana. Liga para dirigente, manda mensagem para assessor, pergunta ao cerimonial, consulta o dono do espaço de eventos. Em certos casos, descobrir o local da convenção está dando mais trabalho do que descobrir a chapa completa.

No fim das contas, as convenções funcionam como a estreia de um espetáculo. Alguns partidos já levantaram a cortina. Outros ainda discutem onde instalar o palco. O eleitor observa tudo isso com uma certa dose de curiosidade e outra de bom humor, porque sabe que o verdadeiro julgamento não acontece na convenção, nem no salão, nem no clube e nem na praça. A apresentação começa agora. Os aplausos ou as vaias ficam reservados para o dia da votação.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.

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