Tentativas Maniqueístas.

Tentativas Maniqueístas.

O maniqueísmo foi uma das mais influentes religiões da Antiguidade Tardia.

O fundador do Maniqueísmo foi Mani (também chamado Maniqueu, Manes ou Manichaeus), nascido por volta de 216 d.C., no Império Persa, durante a dinastia sassânida.

Maniqueu morreu por volta de 276 ou 277 d.C., preso e executado por ordem do rei persa Bahram I.

Maniqueu entendia-se como o último e definitivo mensageiro de Deus.

Viera ao mundo com a missão de completar a revelação divina por sequência de Krishna, e todo Hinduísmo, de Zoroastro ou Zaratustra, e seu Zoroastrismo, de Buda, o Sidarta Gautama, homem perfeito, nascido príncipe,Sakyamuni, e até de Jesus, o Nazareno.

Jesus a quem os apóstolos pregavam como o Cristo, o Filho do Deus Altíssimo.

Jesus que fora gestado por Deus no ventre de Maria, adquirindo ali a nossa humanidade, e com esta, todas as fragilidades inerentes aos filhos de Eva.

Falo de Eva, porque se Adão fez o bom semeio, é preciso dizer, que Eva burilou melhor a escultura, sem ousar nada desdizer, nem lhe ousar atentar ou reduzir, porque a vida, até nas incubadeiras de gestação artificial, a vida só é criada a partir do complemento do concavo com o convexo, o receptáculo permitindo o bom amplexo, que dos dois constrói uma unidade, mistura de tal modo indissolúvel, para sempre inimitável e criado único, e para sempre irrepetível.

Quanto a Mani, o Maniqueu, todos seus ancestrais nenhum seria deus para ele, ou um semideus.

No máximo teriam sido seres iluminados, e até Jesus, aí sendo incluído, sobretudo porque àquele tempo, o Cristo era alguém distante ressuscitado, fruto de um relato longínquo, e que reluzia remoto, qual chama tênue, soprada, toscamente ainda, na oralidade de alguns circunstantes, a inspirar os primeiros Evangelistas (55d.C – 70 d.C.) e Mártires!

Segundo Mani, todos de Krishna a Jesus, a seu modo e no seu tempo, tinham sido simples mensageiros de Deus, a ensinar parcelas da verdade.

Sua teoria, todavia, era bem mais simples, bastava ver o mundo como uma luta sem fim do bem contra o mal.

Mani era um homem culto, pintor, médico e escritor. Orgulhava-se de ser diferente de seus ancestrais líderes religiosos fazendo questão de escrever vários livros para evitar que seus ensinamentos fossem deturpados.

Um desses livros, conhecido como Arzhang, era ilustrado com pinturas destinadas a facilitar a compreensão da sua doutrina, que passou a se chamar Maniqueísta.

O núcleo do Maniqueísmo define uma ideia central qual seja a de um dualismo radical.

Por essa ideia, existem dois princípios eternos e independentes: o Reino da Luz e seu antípoda; o Reino das Trevas.

Tais princípios, segundo Mani, jamais foram criados; sempre existiram.

Em determinado momento, professou Mani que as Trevas atacaram a Luz, iniciando uma luta cósmica.

Partículas da Luz ficaram então aprisionadas na matéria, razão pela qual o mundo material é visto como uma mistura de bem e mal.

O ser humano participaria dessa tragédia sem fim, afinal “a alma pertence à Luz” e “o corpo pertence às Trevas”.

A missão da vida então, consistiria em libertar a luz aprisionada na Matéria.

E nesse dealbar de uma batalha sem fim, era preciso suscitar algumas, consequências morais na inserção do homem nessa luta.

Ao homem, enquanto ser pensante, era recomendado um forte ascetismo de vida, ensejando-lhe um continuado aperfeiçoamento no existir.

Aqueles tidos como os mais perfeitos e vitoriosos nessa porfia, passaram a ser chamados de “Eleitos”, aos quais eram exigidos a observação de princípios severíssimos.

Aos “Eleitos” era exigido, entre outras práticas: o celibato; o vegetarianismo; a pobreza; jejuns continuados; uma serie de renúncias a diversas atividades consideradas ligadas à matéria.

Se os “Eleitos” eram raros, havia também os “Ouvintes”, que levavam vida comum, sustentavam os “Eleitos” e esperavam renascer futuramente em melhores condições espirituais.

Desnecessário dizer que com tanta recomendação e pregação contra os costumes pecaminosos, o Maniqueísmo se espalhou mesmo sofrendo ampla perseguição, persa e romana.

A parte tudo isso, a doutrina Maniqueísta espraiou-se como epidemia impressionante da Pérsia ao Egito; invadiu o Império Romano; atingiu a Índia; chegou ao extremo oriente na China, onde sobreviveu durante séculos; ao longo da Rota da Seda.

Durante certo período, foi uma das maiores religiões do mundo, chegando mesmo a conquistar muitos cristãos, como Agostinho de Hipona (354-430), que antes de se converter Santo, fora um forte adepto do Maniqueísmo.

Durante cerca de nove anos, Agostinho aderiu à seita porque ela parecia oferecer respostas racionais para um problema que o inquietava profundamente:

Se Deus é infinitamente bom, questionava-se o Mestre de Hipona: de onde vem o mal?

Mais tarde, ao converter-se ao cristianismo, Agostinho tornou-se um dos maiores críticos do Maniqueísmo. Grande parte de sua obra filosófica combatendo precisamente essa doutrina.

O cristianismo rejeita o dualismo Maniqueu por diversas razões:

  1. Deus é o único princípio absoluto.
  2. O Mal não possui existência própria; é uma privação do Bem (privatio boni), conforme formulou
  3. Toda a criação é boa em sua origem, como afirma o livro do Gênesis.
  4. O corpo humano não é mau por natureza; também será glorificado na ressurreição.

Essa diferença é fundamental, porque no Maniqueísmo a Matéria se identifica com o Mal e o Espírito com o Bem.

Já no Cristianismo, tanto a Matéria quanto o Espírito foram criados bons por Deus;

Quanto ao pecado, este corrompeu a criação, mas não a tornou intrinsecamente má.

Durante muitos anos o Maniqueísmo cresceu de adeptos, começando a desaparecer entre os séculos VII e XIV, sobretudo com o sucesso do Islamismo, a pregação de Maomé na Ásia Central.

Como religião organizada, o Maniqueísmo praticamente desapareceu, embora, sua maneira de pensar continue ainda bastante influente.

Até hoje se chama “maniqueísta” qualquer visão que divida a realidade em dois campos absolutamente opostos — bem contra mal, luz contra trevas, sem admitir nuances ou complexidades

Curiosamente, esse uso moderno nem sempre corresponda exatamente à doutrina original de Mani.

O Maniqueísmo histórico era um sistema religioso extremamente elaborado, com uma cosmologia, uma antropologia e uma ética próprias, e não apenas uma forma simplista de enxergar os conflitos humanos, como atualmente acontece.

Nesse particular, impressiona-me a desenvoltura de certos formadores de opinião que se autoproclamam independentes, sacerdotes da verdade e paladinos da justiça.

Pregam tolerância em público, mas, à primeira divergência, sacam o rosário dos rótulos: “extrema direita”, “fascista”, “homofóbico”, “antidemocrata”.

Descobriram nesse arremedo Maniqueísta uma forma curiosa de pluralismo: todos podem pensar livremente, desde que pensem exatamente como eles.

São o avesso simétrico daqueles que tanto condenam.

Se Donald Trump em seus discursos comemorativos de duzentos e cinquenta anos de América, costuma fulminar os dele adversários, chamando-os de “comunistas”, seus imitadores antípodas por aqui, respondem com um catecismo oposto.

Trocam-se as palavras de ordem; preserva-se intacto o espírito inquisitorial.

Mudam os estandartes, permanecem as fogueiras e os garrotes vis, com os verdugos exibindo a mesma serventia!

Cada qual cultiva a sua velha intolerância, convencido de que a própria é virtuosa e a do outro, criminosa.

Nada há de mais dogmático do que um sectário persuadido de sua superioridade moral.

E, nessa luta interminável entre o rochedo e o mar, não basta ao cidadão comum esconder-se dentro de uma concha.

 Conchas protegem moluscos; não formam homens.

Para resistir ao embate das ondas e à violência das marés ideológicas, é preciso espinha dorsal, independência de espírito e a rara coragem de suportar a convivência com quem pensa diferente.

É todavia, um difícil desafio percorrer este corredor polonês neste maniqueísmo atual.

Modus in rebus, minha gente!

Nesses nossos tempos bicudos Maniqueus, Horácio em suas “Sátiras” , se fosse revisitado; teria melhor valia. E sem valentia!

Tudo tem um limite, minha gente!

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.

Comentários estão fechados.

Nós usamos cookies para melhorar a sua experiência em nosso portal. Ao clicar em concordar, você estará de acordo com o uso conforme descrito em nossa Política de Privacidade. Concordar Leia mais