Flor de maracujá perruche – Araripe Coutinho

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Quando conheci J.Inácio apaixonei-me. Eu era da Secretaria de Cultura do Município e ele pintava no andar superior da Galeria de Arte “Álvaro Santos”. Eu o amava e ele adorava eu declamando Tobias Barreto “no pó que habito não terei as rosas/as doces preces que os felizes têm/pobres ervinhas brotarão viçosas/e o esquecimento brotará também.”

J. Inácio era um predestinado. Um altar de grandes revelações. Afagava-me com tanta carinho que parecia querer me devolver o mundo que havia perdido. Ninguém me olhava com tanto amor, com tanta felicidade. Ele dizia: -“hoje vou almoçar na sua casa.” E quando procurava Inácio ele já havia fugido. – “Hoje você é meu convidado” e me levava para o Empório. Tudo em Inácio era um convite à pureza e à delicadeza. Uma certa vez me levou para sua casa na 13 de julho. Nenhum móvel, nenhuma mesa, nenhuma cadeira – apenas os seus olhos imensos, e sua boca fazendo aqueles barulhos de pássaros. Eu fui o único – suponho – que ganhei uma bananeira vermelha de Inácio, que apesar de ter presenteado alguém, ela nunca deixou de ser minha.

J.Inácio foi sumindo de mim. Desaparecendo. Rompendo com os amigos. Rompendo com o tempo. Rompendo com a vida. J. Inácio foi sumindo. Eu, fui ficando pra trás. Cada vez mais longe, mais perdido. Mais Stefan Zweig. Como poderia um homem misturar um vermelho e um amarelo com tanta precisão e beleza. Como pode ter pintado tantos pássaros, tantas águas, tantas folhas, tantos Jesus verde, cavalos, casa de farinha e mundos.

O meu filme de J.Inácio vai junto com Ingmar Bergman e Antonioni, vai junto com Fellinni. Junto comigo e com o mundo e com a vida estiolada, mais esvaziada pela ausência de Inácio – magrinho, olhos fechados para sempre ali naquele baú da despedida final.

O que me fica? Lágrimas, dores infindas, profunda gratidão pelo ser humano único de Padre Pedro, seu irmão, Caã, seu filho gênio, Rute, sua filha amada. Eu, perdido, sempre varrendo o firmamento, buscando respostas na sua voz leve que me chamava silenciosamente e como se fosse num filme: de flor de maracujá perruche.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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