Por que lembrar da Ditadura?

Ailton Silva dos Santos

Mestrando em História (PROHIS/UFS)

Integrante do Grupo de Estudos do Tempo Presente (GET/UFS/CNPq)

E-mail: ailton@getempo.org

Imagens de manifestações contra a Ditadura. Fonte: https://ubes.org.br/2018/por-que-o-regime-militar-foi-uma-ditadura/

 

A Ditadura Civil-Militar-Empresarial vigorou no Brasil entre 1 de abril de 1964 e, deveria ter durado, aproximadamente meados de março de 1985. Contudo, o eco de autoritarismo saído de tal ferida que não foi devidamente tratada chegou à nossa porta e ganhou bastante poder. A certeza disso veio quando um deputado chegou em plenário e elogiou um torturador; mas, ao invés de sair algemado, pôde continuar proliferando suas atrocidades e, como consequência, alcançou a presidência do país.

Das vítimas dessa tragédia social e humana, podemos relembrar a história da estilista Zuleika Angel Jones (1921-1976), popularmente conhecida como Zuzu Angel, que morreu em um “acidente” de carro ao voltar para casa na Barra da Tijuca. A estilista buscou, com coragem e determinação, esclarecer a morte do seu filho, Stuart Angel Jones (1946 – 1971), que militava no Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8). Tal acontecimento é fartamente conhecido, embora boa parte da população não dê a importância devida ou até nem saiba que exista, pois fora representado em filme; e a vida de Zuzu Angel memora em livros, sendo um deles Eu, Zuzu Angel, Procuro Meu Filho (1986), escrito por sua irmã Virginia Valli, assim como em músicas, a exemplo de Angélica (1977) de Chico Buarque e Miltinho. Entrementes, os versos da canção Cálice (1973) “Quero cheirar fumaça de óleo diesel / Me embriagar até que alguém me esqueça” fazem referência a como Stuart Angel fora torturado e morto.

Por que é necessário lembrar da Ditadura? Para que a sociedade e as novas gerações não continuem sendo cerceadas pelo discurso Neoliberal de aspirações fascistas que tenta suplantar o passado e apagar as memórias que julgam “incômodas”, a fim de estabelecer uma falsa narrativa na qual golpistas e torturadores figurem como ilibados heróis nacionais. Para que não se corra o risco de novamente se ter direitos políticos de opositores cassados, pois a democracia se faz pela livre expressão de ideias, ao passo que se combate a ideia e não a existência de quem a profere. Para que não haja repressão a movimentos sindicais e à livre manifestação cultural e artística. A busca por julgamentos nos quais se respeitem o devido processo legal, sem mais censura, prisões e execuções. Em que ninguém do Estado, ou até o Estado democrático governado por civis, não seja juiz e carrasco da população. Como costumeiramente acontece nas periferias do Brasil.

Após a Ditadura, a sociedade ficou marcada pela necessidade de que esse tipo de evento não tornasse a acontecer. Que não fossem estabelecidos mais Dops (Departamento de Ordem Política e Social); entretanto, projetos políticos extremistas ganharam cada vez mais adeptos e, alcançando o poder, estabeleceram gabinetes paralelos e de ódio; além de falsamente contestar as eleições e tentar dar um golpe. Para combatê-los, a busca pela rememoração de tal história precisa ser reforçada. Para que a sociedade se lembre de tantos filhos mortos e mães que, diferentemente da Zuzu Angel, não tiveram suas tragédias escritas, atuadas ou musicalizadas.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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