Jairton Peterson Rodrigues dos Santos
Mestre em Ensino de História (UFS)
Professor de História do Instituto Federal de Sergipe
Sergipe, palavra que nasce do tupi, “rio dos siris”. Antes de ser mapa, capitania ou estado, era território vivo de muitos povos, de muitas vozes, de muitas formas de existir. Nome indígena, memória indígena, chão indígena. Dizer Sergipe é, portanto, evocar uma presença que atravessa o tempo e resiste às tentativas de esquecimento.
Muito antes da chegada dos colonizadores europeus, esta terra era habitada por diversos povos como Tupinambá, Kiriri, Xokó, Fulkaxó, Karapotó, Kaxagó, entre tantos outros. Eram milhares, talvez dezenas de milhares, vivendo em uma complexa rede de relações sociais, espirituais e ambientais. Suas formas de organização, seus saberes e suas cosmologias estruturavam um modo de vida profundamente integrado à natureza. Essa diversidade não desapareceu: foi violentada, fragmentada, mas nunca anulada.
A narrativa oficial, durante muito tempo, insistiu em falar em “conquista”. No entanto, o que houve foi resistência. Resistência armada, simbólica, cultural. Nesse contexto, destacam-se lideranças como os caciques Aperipê e Serigy, figuras centrais nas lutas contra a invasão portuguesa no final do século XVI. Longe de serem personagens secundários, eles encarnam a recusa indígena em aceitar a dominação. A lenda que envolve Serigy, a de que teria lançado uma maldição sobre os invasores, afirmando que naquela terra nada vingaria, pode ser compreendida como um gesto simbólico de denúncia e de memória. Não se trata apenas de mito, mas de uma narrativa que preserva a dor e a dignidade de um povo em luta.
A resistência indígena em Sergipe, contudo, não se limita ao passado colonial. Ela atravessa os séculos e se reinventa em diferentes contextos históricos. Mesmo diante de políticas de apagamento, de classificações raciais e culturais que buscavam negar sua existência, os povos indígenas persistiram. Foram chamados de “caboclos”, tiveram suas identidades diluídas por discursos oficiais, mas mantiveram vivas suas práticas, suas memórias e seus vínculos comunitários.
O povo Xokó é um exemplo emblemático dessa reexistência. Após séculos de dispersão e invisibilidade, reorganizou-se entre as décadas de 1970 e 1990, fixando-se na Ilha de São Pedro, em Porto da Folha. Sua trajetória revela que a identidade indígena não é estática, mas construída e reafirmada na luta. Do mesmo modo, os Fulkaxó protagonizam uma das mais recentes páginas dessa história. Após anos de mobilização, iniciados em 2007, conquistaram o reconhecimento de parte de seu território em Pacatuba, no baixo São Francisco no ano de 2024. Essa conquista não representa apenas um direito jurídico, mas a possibilidade concreta de reconstrução de modos de vida, de fortalecimento cultural e de autonomia.
Essas experiências demonstram que os povos indígenas em Sergipe não são vestígios de um passado distante, mas sujeitos históricos ativos, que continuam a disputar espaço, memória e reconhecimento. Sua luta é, ao mesmo tempo, territorial, política e simbólica. É uma luta pelo direito de existir como povo, de nomear o mundo a partir de suas próprias referências, de manter vivas suas tradições e de projetar futuros possíveis.
Sergipe, em seus nomes e paisagens, guarda marcas profundas dessa presença. Japaratuba, Muribeca, Serigy, Pacatuba, Aperipê, são mais do que topônimos: são inscrições da memória indígena no território. Até mesmo o nome do estado carrega essa herança. No entanto, reconhecer essa presença exige mais do que constatar vestígios; exige romper com o silêncio histórico e com as narrativas que invisibilizaram essas trajetórias.
Pensar Sergipe como terra indígena é, portanto, um exercício de reescrita da história. É deslocar o olhar dos vencedores para aqueles que resistiram. É compreender que, apesar da violência, do apagamento e das tentativas de assimilação, os povos indígenas não foram vencidos. Eles permanecem se reinventando, reexistindo, afirmando suas identidades.
Entre rios e memórias, entre passado e presente, Sergipe continua sendo terra indígena. E essa história, longe de terminar, segue sendo escrita.