Profª. Drª. Andreza Maynard
Universidade Federal de Sergipe (UFS)
Grupo de Estudos do Tempo Presente (GET/UFS/CNPq)
No dia 30 de maio de 2026, o Governo Federal lançou o Tela Brasil, a primeira plataforma pública de streaming dedicada ao cinema nacional. O acesso é gratuito, por meio da conta Gov.br, e o catálogo reúne desde obras consagradas, como A Hora da Estrela (1985) e Carandiru (2003), até animações e documentários pouco conhecidos. Entre essas preciosidades está o Álbum cinematográfico de Sergipe.
Produzido por Raul Roulien em 1945, o curta-metragem também integra o acervo da Cinemateca Brasileira e apresenta um panorama de Sergipe em plena Segunda Guerra Mundial. Trata-se de um filme institucional, voltado à divulgação das potencialidades econômicas do estado, mas a obra também constitui um valioso documento histórico, capaz de preservar paisagens, práticas sociais, personagens e espaços urbanos que, em muitos casos, já não existem ou foram profundamente transformados.
A narrativa tem início com um desfile da Força Policial pelas ruas do centro de Aracaju. A partir dessa sequência, o filme conduz o espectador por um percurso que evidencia o desenvolvimento urbano e econômico da capital e de diferentes regiões do estado. Em Aracaju, destacam-se imagens da Rádio Difusora PRJ-6, do Quartel da Polícia, da Escola Normal e do Jardim de Infância, onde pequenos corpos executam movimentos lentos e sincronizados.
O percurso cinematográfico se estende ainda às cidades de Estância, Neópolis, Propriá e Rosário do Catete, revelando aspectos da economia, da arquitetura, das atividades produtivas e do cotidiano sergipano. São destacadas as produções de coco, sal, madeira, vidro, cana-de-açúcar, arroz, algodão e gado, além da indústria têxtil. Outro ponto que chama atenção é a imagem de Augusto Maynard Gomes, interventor federal, bem como os elogios do narrador à política econômica do governo estadual, que não estão ali por acaso.
A tônica que conduz o filme reforça os valores do Estado Novo. Em consonância com essa proposta, as imagens exibem um Sergipe ordeiro, rico em recursos naturais, habitado por um povo trabalhador e disciplinado desde a mais tenra idade. Há poucas referências à guerra, que aparecem sobretudo na sequência dedicada à fábrica de tecidos de Neópolis. Segundo o narrador, ali se desenvolve o cotidiano do “soldado pacífico do trabalho”.
Em poucos minutos, o filme se encerra. De uma hora para outra, somos trazidos de volta a 2026. A sensação é a de que o espectador realizou uma breve viagem ao passado e, subitamente, despertou de um sonho. É justamente essa capacidade de aproximar o presente de um Sergipe de mais de oitenta anos atrás que faz do Álbum cinematográfico de Sergipe um dos mais valiosos registros audiovisuais da memória do estado.
Para saber mais:
< https://telabrasil.cultura.gov.br/ > Acesso em 07/07/2026
< https://vivacinemateca.org.br/nitratos/album-cinematografico-de-sergipe/ > Acesso em 07/07/2026
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