Inversão de prioridades

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Quando a Prefeitura de Aracaju promovia a entrega de mais 430 casas no novo bairro 17 de Março, sexta-feira passada, o ambiente alegre e de gratidão ganhou em emoção quando um idoso de aparência frágil, sustentado por duas muletas, em sua mulatice crestada pelo sol, levantou-se para receber a chave do lar tão sonhado.

Era Wellington Alves de Almeida, 77 anos, um homem que tem história para contar. Que história! Natural da cidade alagoana de Igreja Nova, que se mudou para Aracaju no início dos anos 90, repetindo a trajetória de muitos imigrantes nordestinos que buscam uma vida mais digna nos centros urbanos, ele acabou indo morar, literalmente, embaixo da ponte. Mais precisamente sob o viaduto próximo ao Detran, onde já viviam outras famílias.

"Um dia – conta ele –, chegou a polícia no local e mandou que nós subisse num caminhão e nos levou para fora do estado de Sergipe, nos deixando na divisa de Pernambuco". Seu Wellington é um dos mendigos deportados para o sertão pernambucano em 1992, a mando do então governo de João Alves Filho.

No mesmo caminhão estava Arlindo de Oliveira, 49 anos. "Não esqueço aquela noite. Ficamos todos muito assustados, sem saber qual seria o nosso destino. Ninguém nos dizia nada, só nos davam a ordem de subir no caminhão", contou, lembrando que estava em Aracaju a dois meses, vindo de Arapiraca, mas não havia conseguido emprego e tinha sido despejado. Por isso também se tornou morador de rua.

Os que de Pernambuco retornaram a Aracaju formavam um grupo de 29 pessoas, sendo 25 adultos e quatro crianças, algumas de colo, com menos de um ano de idade. Havia também um adolescente de 16 anos e pessoas com necessidades especiais: uma mulher cega do olho esquerdo, um jovem epiléptico e um doente mental.
O grupo foi resgatado em Garanhuns pela seção local da Ordem dos Advogados do Brasil, que entrou em contato com os colegas da Comissão de Direitos Humanos da OAB sergipana. Os deportados foram escoltados de volta pela PM de Pernambuco em um ônibus que veio diretamente para a sede da OAB em Aracaju.

A Comissão de Direitos Humanos da OAB de Sergipe tomou o depoimento de cada um deles, reconstituindo todo o ocorrido e encaminhou documento ao Ministério Público Estadual pedindo investigação pelos crimes de lesões corporais e constrangimento ilegal.

Hematomas e escoriações foram constatados nas vítimas, segundo a notícia-crime assinada pelo então presidente seccional da OAB, Jorge Aurélio Silva, que denunciou ao Ministério Público diversas autoridades apontadas como responsáveis pela ação, entre elas o secretário de Ação Social e o comandante do Corpo de Bombeiros.

Embora o governo alegasse que a ação se destinava a “repatriar” migrantes que desejavam partir mas não tinham como voltar à terra natal, foram identificados no grupo diversos sergipanos do interior, dos municípios de Boquim, Lagarto, Maruim, Neópolis, Riachuelo e Simão Dias. Havia também pescadores, tanto que tarrafas e anzóis foram listados entre os pertences de algumas das pessoas ouvidas ainda em Garanhuns pela OAB.

O banimento de moradores “indesejáveis” foi admitido na época pelo secretário de Comunicação do Estado, o jornalista Raymundo Luiz, que declarou em matéria publicada na edição de 22 de agosto de 1992 do extinto jornal Gazeta de Sergipe que a ação teria continuidade e era “prática comum em todos os estados brasileiros”.

"Todas as pessoas sonham em ter um lugar para viver que seja nosso. E o prefeito Edvaldo Nogueira realizou esse sonho. Agradeço primeiramente a Deus e depois a ele por nos dar essa felicidade", desabafa agora o idoso Wellington, após finalmente realizar o sonho da casa própria.

"Hoje, tenho a alegria de receber uma casa, a minha casa, e dela ninguém jamais vai me tirar. Devo isso a Deus e ao prefeito Edvaldo Nogueira", enfatizou Arlindo de Oliveira, que já era beneficiário do auxílio moradia da Prefeitura de Aracaju, já que egresso da invasão do Morro do Avião, uma das antigas favelas que deixaram de existir na gestão municipal atual.

"Morei 22 anos na invasão do Marivan e era um sofrimento, porque as pessoas que moram num lugar como aquele não têm paz", declarou Fátima Santos Silva, 53 anos, que passou o último ano na casa de um amigo, na Prainha, no bairro Santa Maria, desde que foi removida da ocupação irregular pela Prefeitura de Aracaju, no ano passado. "Hoje, vejo meu sonho realizado. Por isso, é importante sonhar", recomendou.

O bairro 17 de Março foi construído pela Prefeitura de Aracaju na área de expansão da capital. Em 2010, o presidente Lula inaugurou o núcleo habitacional, entregando na ocasião 956 unidades residenciais para famílias que viviam em ocupações irregulares e em áreas de risco e insalubres.

Com as mais de 1.000 casas que entregará ainda antes de concluir o mandato, 500 delas no 17 Março e outras tantas na antiga ocupação das Salinas, no Lamarão, Edvaldo Nogueira terá atingido o número de 6.300 casas e apartamentos que contemplam famílias de baixa ou baixíssima renda, como é o caso das 430 beneficiadas na última sexta-feira.

É, de longe, o maior programa habitacional já realizado pela Prefeitura de Aracaju, que praticamente acabou com as favelas da capital e, bem diferente do que acontecia no passado, contempla essas famílias com habitações dignas.

Essa inversão de prioridades, que é utilizar o dinheiro público para também promover benefícios sociais, ao contrário de gastá-lo com obras faraônicas, iniciou-se em Aracaju na primeira gestão de Jackson Barreto em 1986, quando foi o primeiro prefeito a olhar para a periferia. O trabalho social aprofundou-se quando Marcelo Déda e Edvaldo Nogueira chegaram à Prefeitura em 2001 e se retirou centenas de famílias das palafitas dando a elas casas em área urbanizada na Coroa do Meio.

Nos últimos anos, esse trabalho ganhou um impulso extraordinário, permitindo, ao mesmo tempo em que se cuida da cidade, hoje reconhecida como uma das capitais brasileiras com qualidade de vida, que se dê atenção a quem mais necessita. E esses precisam de acolhimento e de um lar para morar. Não serem enxotados do nosso convívio.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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