Leite Derramado

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Leite Derramado

 

                        

 Não adiante chorar o leite derramado, – dizia minha avó Angelina. As eleições neste país servem para dizer a nós mesmos que isto é um circo. Não adianta o TSE gastar milhões com uma eleição que se permite escrachos. É a velha história do homem e da mulher traídos serem os últimos a saber. As práticas costumeiras, advindas do coronelismo servil, pontilham, na prática, as regras do jogo – numa mistura de pão e circo, pataquada da inoperância da nossa sociedade, violentada e aferida como imbecil, vendida, sórdida. Não gosto de ditados populares, tenho pavor a todos eles, mas recorro desde o início, para dizer que o povo não tem o governo que merece. O povo vive, na verdade, abaixo da linha de pobreza, é facilmente cooptado por qualquer vintém e a culpa é da máquina. No Brasil isto é aberrante. A compra de votos é como o tráfico de drogas.  Confere ao eleitor o vício a qualquer preço. O voto perdeu o sentido, o valor, não tem ideologia. Ele é cínico, mordaz, liquidado. O voto que poderia ser o caminho da riqueza de uma nação, da transformação, é um veneno para a população – soberana aparentemente no seu poder de decisão, mas vulnerável no aparelhamento que gira em torno dele.
O Ministério Público Federal e Estadual, tentam, processam, flagram – mas não resolvem o problema da compra de votos. Falta recursos, falta campanhas, falta gerência de pessoal, falta tudo e verba também. Não é possível ver todo o desmatamento da Amazônia, porque o crime está infiltrado dentro das Associações de Moradores, líderes comunitários, grêmios escolares, entidades representativas, igrejas – porões da ditadura mais descarada, mais deslavada, retrato do servilismo de um povo massacrado pelo abuso do poder econômico. Se o MPE e o MPF não têm a capacidade de dizimar este câncer que assola as eleições, na cara dura, com bares com banners e outdors de candidatos, há menos de 200 metros da urna, no bairro industrial – o que fazer? Cachaçada rolando solta, dinheiro em espécie e em promessas e contratação de bandeiras, carros plotados e uma série de deformações – façam o MPE e o MPF  uma reciclagem, cobre do TSE uma postura de comando ostensivo, pedindo denúncias contundentes com premiação e proteção para o delator, como existe no código penal, interfira direto no processo eleitoral que está há três meses, à olhos claros, abertamente para quem quiser ver com seus escândalos.  Não há democracia onde há opulência. Não há nem haverá de haver justiça social, com condutas que mancham a nossa honra em troca de 10, 20, 50 reais. É muito lindo o TSE dizer que as eleições foram tranqüilas, dentro da maior normalidade e vamos parabenizar a polícia, o serviço dos mesários, delegados. E vamos dizer através da TV que o povo ajudou a construir a democracia das cidades, escrevendo uma história nova. Que história nova? Secretarias oficiais trabalharam abertamente para candidatos, empresas patrocinaram descaradamente candidatos, – tudo com a anuência do TSE, exigindo apenas que se preste contas certinhas no final do pleito. São as regras, desde que se declare(?)

A verdade é que para ser vereador, deputado estadual, federal, senador, governador, prefeito, presidente  tem que se costurar acordos, abrir os cofres, destruir valores buscados durante toda uma existência, numa vergonhosa marcha de miseráveis, comprados pelo dinheiro dos que detém o povo na rédea, enquanto nós – homens de bem de verdade – engasgados com a barbárie de mais uma eleição, nos comovemos e choramos – porque o povo nunca teve o governo que merece – porque se tivesse, teria, todo o povo , vergonha sim, de ser brasileiro.

 

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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