Liberdade (parcial) de imprensa

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O Brasil ocupa o 58º lugar no ranking da liberdade de imprensa elaborado pela organização não-governamental Repórteres Sem Fronteira em 2010. Tem melhorado muitas posições, mas ainda está atrás de Paraguai, Argentina e Haiti, para citar países vizinhos. O que mais atrapalha é a recalcitrante violência contra jornalistas, já que o Brasil hoje respira um clima de liberdade de imprensa. O que não deve ser confundido com imparcialidade da imprensa. Não existe jornal 100% imparcial. Como não existe jornalista de jornal, rádio, TV ou revista 100% independente, inteiramente livre para fazer o que quiser.

No extremo, Cláudio Abramo dizia que a liberdade de imprensa só é usada pelos donos das empresas: “A liberdade de opinião do jornalista tem como limite a orientação do jornal”. Por isso, desconfie de jornalista ou radialista que se jacta de fazer jornalismo imparcial ou independente, porque isso é demagógico, quando não mentiroso.

Há colegas com arroubos juvenis que, antiquadamente, ainda defendem que, se já há mais de 25 anos a ditadura acabou e, por conseguinte, se a imprensa agora está livre da censura formal, imposta pelo Estado, então eles podem escrever o que bem querem, não tendo mais a quem dar satisfação, senão à sua livre consciência. As coisas não funcionam assim.

A imprensa é importante, ou, mais do que isso, é fundamental para o aprimoramento democrático? É. A imprensa é uma instituição respeitada pelos brasileiros? É sim, está cientificamente comprovado. Por causa da imprensa um presidente, o corrupto do Collor, foi execrado publicamente e empurrado rampa abaixo, e nem por isso o país deixou de manter a sua rotina de amadurecimento democrático.

A Rede Globo e a revista Veja interpretaram papéis de primeira no episódio do impeachment, mas todos sabem que foram a principal rede de televisão do país e a principal revista do país que deram o empurrão inicial para que um boy alagoano galgasse a condição de presidenciável — depois garantindo que o bonitinho não perdesse a eleição para um “sapo barbudo”.

Os jornalistas “livres-pensadores” da Globo e da Veja quiseram que fosse assim? Até hoje, profissionais da Globo se insultam publicamente apontando o culpado pela repugnante edição sobre o debate entre Collor e Lula, na eleição de 1989, que só mostrava os melhores momentos do primeiro e os piores do segundo. A Globo perdeu tanto — quem não se lembra do slogan popular “o povo não é bobo, abaixo a Rede Globo”? — que a emissora do Dr. Roberto Marinho vive reformulando seu jornalismo e hoje é bem mais palatável ao gosto dos interesses democráticos. Mas é livre? Claro que não, Mané!

Jornalista tem a mania de achar que pode tudo. Pode dizer o que bem quer, pode botar ou tirar do jornal quem ele bem quer. Isso não é nem possível quanto não é honesto. Porque não há liberdade de imprensa absoluta, assim como não há jornalista inteiramente livre para dizer o que bem quer. Jornalista é jornalista e deve procurar ser o mesmo, tanto em relação aos que não gosta quanto aos que são seus amigos. Ademais, como dizia o ex-governador Augusto Franco, repetido com satisfação pelo filho Antônio Carlos Franco: quem quiser publicar o que pensa que compre um jornal.

Vaidoso mas certeiro, recordemos o que escreveu Cláudio Abramo (1923-1987), um dos fundadores do novo jornalismo brasileiro e o principal responsável pela reforma que transformou a Folha de S. Paulo no maior jornal do País: “O jornalismo é um meio de ganhar a vida, um trabalho como outro qualquer, é uma maneira de viver, não é nenhuma cruzada. E por isso você faz um acordo consigo mesmo: o jornal não é seu, é do dono. Está subentendido que se vai trabalhar de acordo com a norma determinada pelo dono do jornal, de acordo com as idéias do dono do jornal. (…) Para trabalhar em jornal é preciso fazer um armistício consigo próprio.”

Isso não quer dizer que o dono da empresa jornalística deva transformá-la num panfleto político, sob pena de estar perdendo dinheiro, já que a credibilidade é o seu maior patrimônio. Portanto, quem pensa que um jornal ou uma rádio tem o poder de convencer eleitores, perde leitores e ouvintes, acaba empurrando a credibilidade do órgão ralo adentro. O que é um suicídio, pelo menos para a empresa, porque, como se diz: construir a credibilidade de um veículo é uma tarefa muito difícil, derrubá-la é fácil. E a quem interessa um veículo de comunicação sem credibilidade?

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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