Violência diminui em Sergipe, mas se mata muito

Por Marcos Cardoso*

As mortes violentas intencionais diminuíram em Sergipe, seguindo um padrão nacional. No ano passado, 508 pessoas foram assinadas no Estado por causas e  instrumentos diversos. É muita violência, é uma epidemia, mas o número é bem menor do que em 2016, um ano emblemático, quando ocorreram 1.450 mortes violentas. Desde então, o número de pessoas assassinadas no estado tem caído ano a ano.

É o que revela o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026, publicação do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, agora divulgado. A categoria Mortes Violentas Intencionais corresponde à soma das vítimas de homicídio doloso, latrocínio, lesão corporal seguida de morte e mortes decorrentes de intervenções policiais.

Em 2022, o número proporcional de mortes em Sergipe foi de 33,8 assassinados para cada 100 mil habitantes. Em 2025, essa taxa caiu para 22,1 mortes violentas por 100 mil habitantes. Esse número faz de Sergipe um oásis. A taxa está bem abaixo das registradas pelos estados vizinhos, apesar de que neles também os índices têm melhorado. No ano passado, Alagoas registrou 1.066 mortes violentas, taxa de 33,1/100 mil. A Bahia registrou 5.473 assassinatos, taxa de 36,8/100 mil.

Sergipe apresenta ainda taxa melhor que a do Nordeste, que registrou 31,6, e na região só fica atrás do Piauí, que registrou 17,1 assassinatos por 100 mil habitantes em 2025. Mas Sergipe também fica atrás do índice nacional, de 19,1 mortes violentas.

Mortes Violentas Intencionais Números absolutos Taxas por 100 mil habitantes
2022 2023 2024 2025 2022 2023 2024 2025
Sergipe 768 689 522 508 33,8 30,2 22,8 22,1
Alagoas 1.187 1.210 1.141 1.066 36,9 37,6 35,4 33,1
Bahia 6.663 6.579 6.047 5.473 45,0 44,4 40,7 36,8
Nordeste 20.198 19.973 19.362 18.117 35,5 35,1 33,9 31,6
Brasil 47.963 46.441 44.220 40.775 22,7 21,9 20,8 19,1

Fonte: Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026/Fórum Brasileiro de Segurança Pública

Há redução significativa nas taxas de mortes violentas intencionais, no Brasil como um todo, em todas as regiões e em quase todos os estados, mas para fins de saúde pública e segurança, a Organização Mundial da Saúde considera tolerável uma taxa de até 10 homicídios por 100 mil habitantes. Acima desse limiar, a situação é classificada como uma epidemia de violência.

Lamentável para quem é desse lugar mais festejado do país é que o Nordeste ainda se mantém como a região mais violenta do Brasil e os estados daqui são mais violentos do que a maioria dos estados do Sul e Sudeste. Além disso, os 10 municípios mais violentos, com taxa de mortes que chega a 100 por 100 mil habitantes, como é o caso de Maranguape, no Ceará, estão no Nordeste. Terra de Chico Anysio e Capistrano de Abreu, uma pena.

Feminicídios e intervenção policial

O Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026 não trata somente de mortes violentas. Em seu conjunto, os dados e análises revelam um país que alcança importantes avanços na redução da violência letal, mas que enfrenta novos desafios decorrentes da expansão das economias ilícitas digitais, da persistência das desigualdades, da violência contra grupos vulneráveis e da necessidade de modernização das instituições de segurança e justiça. Os estelionatos consolidam-se como o principal crime patrimonial do país.

A publicação informa que, apesar da queda consistente de quase todas as Mortes Violentas Intencionais, permanecem em crescimento duas modalidades particularmente preocupantes: os feminicídios e as mortes decorrentes de intervenção policial, revelando que a redução geral da violência letal não beneficia igualmente todos os grupos sociais e não muda opções político-institucionais sobre padrões de uso letal da força.

Em 2025, contou-se no Brasil 1.571 vítimas de feminicídios e 65,1% dessas mulheres assassinadas em razão do gênero eram negras. Mais de dois terços delas foram mortas pelos parceiros íntimos ou ex-parceiros, dentro das próprias casas. Em Sergipe, foram registrados 15 feminicídios, uma taxa crescente e que representa 68,2% dos homicídios cometidos contra mulheres. É a maior proporção nacional.

O crescimento do número de mortes decorrentes de intervenção policial é preocupante. No Brasil, em 2025, foram 6.602 mortes resultantes de intervenções de policiais, 5,4% mais do que no ano anterior. Em Sergipe, o IML contou 193 mortos por PMs ou policiais civis em serviço, 32,6% mais do que em 2024. Isso corresponde a 38% das mortes violentas intencionais no estado. Com 24 mortos, Itabaiana é o quarto município nacional com mais mortes decorrentes de intervenção policial. A maioria era jovem, a maioria era negra, todos mortos pela polícia de Sergipe. Nenhum policial sergipano morreu no serviço no ano passado.

*Marcos Cardoso é jornalista. Autor de “Sempre aos Domingos – Antologia de textos jornalísticos” (Editora UFS, 2008), do romance “O Anofelino Solerte” (Edise, 2018) e de “Impressões da Ditadura” (Editora UFS, 2024). marcoscardosojornalista@gmail.com

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.

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