O Grilo Capado e a Juriti Donzela.

Certa vez vi alguém dissertar com muito gracejo sobre o conúbio de um Grilo Capado com uma Juriti Donzela.

Preliminarmente, devo dizer que não sei qual o procedimento para capar um grilo.

Deve ser um processo extremamente difícil, no canivete, no laço ou à macete, enquanto praga, tanto que, para eliminar o bicho e seu grito, muitas pessoas utilizam, inseticidas cloradas, uma heresia contra o meio ambiente.

Quanto a Juriti Donzela, o gracejo não é real, afinal igual aos pombos, seus semelhantes, a Juriti põe poucos ovos, dois por vez, não tendo tanta fama de promiscuidade e excesso de lascívia.

Há quem diga, todavia, que tais aves realizam a chamada Cópula Invertida (“Gala Dupla”)

Um dos hábitos mais peculiares da espécie, registrado na WikiAves, é que logo após o macho galar (cruzar com) a fêmea, ela frequentemente inverte os papéis e “gala” o macho; um perigo, se a moda pega!

Trata-se de um comportamento pós-cópula que gera muita curiosidade em observadores de aves.

Dito isso, a história ouvida por mim, era diferente. Ela falava da dificuldade de reunir um Grilo Capado com uma Juriti Donzela para confeccionar uma mezinha de molde a realizar a cura definitiva de causas  perenes e impossíveis, como as do Brasil, que se teima miúdo embora tenha nascido grande.

Algo inerente à nossa tristeza comum e cotidiana, que bem suscita o riso em pouco pranto, afinal alguém melhor já o disse, e eu repito sem descrença e sem espanto: “Para tirar o Brasil dessa baderna, só quando morcego doar sangue e saci cruzar as pernas!”

Ou Deus tendo muita pena de nossa gente brasileira…

E em vendo tanta besteira entre candidatos lançados  à Presidência da República agora com um propagado jingle recitando; que  “O Cury é a cura”, eu imaginei um conúbio entre um Grilo Capado e uma Juriti Donzela, encarregando o ChatGPT para redigir um texto.

Eis o texto:

O conúbio do grilo capado com a juriti donzela

Há casamentos que se fazem no céu; outros, por manifesta distração da Providência.

Foi assim que se anunciou, numa tarde de verão, o conúbio de um grilo capado com uma juriti donzela.

A notícia causou espécie no matagal.

Não porque faltasse amor — palavra suficientemente elástica para justificar desde guerras homéricas até casamentos inconvenientes —, mas porque ninguém conseguia compreender o proveito daquele consórcio.

O noivo era grilo de boa aparência, casaca preta, maneiras razoáveis e respeitável experiência de vida. Tinha, porém, uma limitação que os amigos, por delicadeza, chamavam de circunstancial e os inimigos, menos cerimoniosos, consideravam definitiva: era capado.

A noiva, ao contrário, era uma juriti ainda donzela, dessas que arrulham baixinho pelas manhãs e imaginam que todo amor sincero deve necessariamente terminar em ninho, ovos e filhotes.

Apaixonaram-se.

Ou disseram que sim, o que para efeitos matrimoniais quase sempre basta.

A cigarra, cronista social da mata, publicou que se tratava da união do ano. O papagaio repetiu a notícia sem entendê-la. O macaco fez comentários impróprios. E a velha coruja, que já vira muitos casamentos começarem com marcha nupcial e terminarem em demanda judicial, limitou-se a perguntar:

— E descendência?

Foi um silêncio constrangedor.

O grilo pigarreou.

A juriti corou.

E alguém tratou imediatamente de mudar de assunto, porque existem perguntas que, embora pertinentes, são consideradas deselegantes justamente por serem pertinentes demais.

Celebraram-se as bodas.

Compareceu toda a fauna importante. Houve discursos sobre diversidade, superação das diferenças e a força irresistível dos afetos. Um pavão, convidado especialmente para abrilhantar a cerimônia, pronunciou longo arrazoado demonstrando que perguntar pela utilidade prática daquele matrimônio constituía preconceito zoológico.

Todos aplaudiram.

Ninguém quis parecer retrógrado.

Passada, porém, a lua de mel, chegou a realidade — essa velha inconveniente que nunca recebe convite, mas comparece a todas as festas.

A juriti começou a falar em ninho.

O grilo mudou de assunto.

Ela falou em ovos.

Ele comentou sobre o tempo.

Ela mencionou filhotes.

Ele achou melhor cantar.

E foi então que a pobre juriti compreendeu que havia confundido entusiasmo com possibilidade e promessa com potência.

Não houve escândalo.

Houve coisa pior: explicações.

Convocaram-se especialistas. Vieram sabiás, tucanos, dois papagaios e até um urubu apresentado como consultor em relações interespecíficas. Todos produziram pareceres demonstrando que o matrimônio era perfeitamente viável, desde que ninguém insistisse na antiquada expectativa de que dele resultasse aquilo que naturalmente não poderia resultar.

A juriti ouviu tudo em silêncio.

Depois voou para um galho mais alto e pôs-se a arrulhar sozinha.

Quanto ao grilo, continuou grilo.

E continuou capado.

A floresta, entretanto, declarou o casamento um retumbante sucesso.

Porque há uniões assim: começam contrariando a natureza, prosseguem contrariando a evidência e acabam contrariando o bom senso.

Mas fracassadas?

Nunca!

Fracasso é palavra proibida quando existe uma boa narrativa para substituí-la.

E desde então, sempre que na mata alguém propõe uma aliança impossível, uma parceria estéril ou um acordo entre partes que nada podem oferecer uma à outra, a velha coruja ajeita os óculos, suspira e sentencia:

— Lá vem outro conúbio de grilo capado com juriti donzela.

E ninguém precisa perguntar o que ela quis dizer.

 

Como o ChatGPT redigiu uma fabula satírica, quis que ele a reformasse dando um formato mais mordaz, mais político e mais ferino comparando-a ao casamento pretendido pelo candidato Augusto Cury e a República Brasileira, não tão donzela.

O ChatGPT me retrucou:

A comparação funciona especialmente bem se o alvo não for a pessoa de Cury, mas a desproporção entre a sedução de suas ideias e a brutalidade concreta da Presidência.

Como ele é de fato candidato pelo Avante e apresenta um programa centrado em gestão emocional, pacificação, empreendedorismo e forte emprego de tecnologia — inclusive drones e inteligência artificial —, há matéria suficiente para a sátira sem precisar inventar fatos.

O ChatGPT me atendeu devolvendo outro texto:

 

O Grilo capado, a Juriti Donzela e a República

 

Escrevi outro dia sobre o improvável conúbio de um grilo capado com uma juriti donzela.

Não imaginava que a bicharada de minha fábula estivesse tão próxima da política brasileira.

Porque eis que surge Augusto Cury, escritor de sucesso, psiquiatra, conferencista, vendedor de milhões de livros e, sobretudo, especialista declarado em administrar emoções, pretendendo agora casar-se com uma velha senhora que de emocionalmente administrável não tem absolutamente nada: a República Federativa do Brasil.

A noiva não é propriamente donzela.

Muito pelo contrário.

Já passou por imperadores, marechais, coronéis, bacharéis, generais, sindicalistas e outros tantos pretendentes. Conheceu golpes, contragolpes, revoluções, quarteladas, impeachments, mensalões, petrolões e crises suficientes para fazer corar uma cortesã romana.

Mas continua vestindo branco em cada eleição.

É a nossa eterna juriti donzela.

E Cury resolveu cortejá-la.

Chega-lhe não propriamente com flores, mas com inteligência multifocal, gestão da emoção, empreendedorismo, inteligência artificial e drones.

Muitos drones.

Drones para fronteiras, drones para agricultura, drones contra incêndios e até drones para auxiliar mulheres ameaçadas por agressores.

É quase uma cavalaria aérea da autoajuda.

Napoleão precisou de canhões.

Churchill, da RAF.

De Gaulle, de tanques.

Cury pretende começar pelos drones.

Nada contra.

O problema é que a República Brasileira costuma mastigar idealistas no café da manhã e pedir tecnocratas de sobremesa.

Governar o Brasil não é administrar uma sessão terapêutica de cento e poucos milhões de pacientes dispostos a colaborar.

Há Congresso.

Há Supremo.

Há Governadores.

Há Partidos Políticos.

Há Sindicatos.

Há Corporações.

Há Orçamento.

Há Dívida.

Há Interesses econômicos.

Há uma burocracia que, se receber ordem para andar depressa, constitui imediatamente uma comissão para estudar a conveniência do primeiro passo.

E há, sobretudo, políticos.

Políticos de verdade.

Daqueles que não precisam administrar emoções porque aprenderam, há muito, a administrar cargos, verbas, emendas, alianças, dissidências, traições e reconciliações — às vezes tudo isso antes do almoço.

É aí que reencontro meu grilo capado.

Não afirmo, evidentemente, que Cury o seja.

Seria injusto com o grilo e prematuro com Cury.

Mas existe qualquer coisa daquele casamento zoologicamente improvável nessa candidatura.

De um lado, um homem cuja matéria-prima sempre foi a mente humana, os sonhos, a educação emocional e a esperança de transformar indivíduos.

Do outro, a República Brasileira, essa Juriti que já perdeu a virgindade política tantas vezes que somente por prodígio eleitoral consegue reaparecer donzela a cada quatro anos.

Cury lhe promete pacificação.

Ela conhece fisiologismo.

Ele fala em gestão das emoções.

Ela pergunta quantos deputados há na base.

Ele oferece inteligência multifocal.

Ela quer saber quem presidirá a Câmara.

Ele fala de empreendedorismo.

Ela pergunta pelo Centrão.

Ele responde com inteligência artificial.

Ela devolve com inteligência naturalíssima para ocupar ministérios.

E quando ele anuncia drones, a velha República talvez finalmente sorria:

— Quantos cargos comissionados cabem em cada um?

Eis o problema.

O casamento pode até realizar-se.

A urna é padre suficientemente poderoso para celebrar matrimônios ainda mais estranhos.

Mas uma coisa é conquistar o coração da juriti; outra, muito diferente, é emprenhá-la de realizações.

Porque o Brasil não carece propriamente de sonhos.

Sonhos nunca nos faltaram.

Tivemos o Brasil-potência, o país do futuro, cinquenta anos em cinco, ninguém segura este país, esperança vencendo o medo, pátria educadora, nova política e outras tantas luas de mel republicanas.

O problema sempre começa na manhã seguinte.

É quando acabam as flores, chegam as contas e o noivo descobre que a juriti tem duzentos anos de hábitos, parentes demais, credores à porta e uma extraordinária habilidade para transformar reformadores em síndicos.

Talvez Cury consiga.

Não se deve negar previamente ao homem o benefício da dúvida.

Pode ser até que o escritor surpreenda os profissionais da política, assim como já surpreendeu aqueles que imaginavam sua candidatura destinada apenas à figuração eleitoral.

Mas, até lá, permitam-me contemplar o namoro com a mesma curiosidade da velha coruja de minha fábula anterior.

O noivo chega carregado de livros, teorias, inteligência emocional, inteligência artificial, pacificação e drones.

A noiva chega carregada de Brasília.

E Brasília, convenhamos, pesa muito mais.

Por isso, quando me perguntarem o que acho do pretendido conúbio de Augusto Cury com a República Brasileira, não direi que seja impossível.

Direi apenas que já vi a Juriti.

Agora quero saber se o Grilo canta.

E, sobretudo, se emprenha.

Eu gostei muito dos textos, por isso é que estou a publicá-los.

Como o Cury para mim não é cura, prefiro ir de 22.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.

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