Meu nome é 304

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Essa empresa de construção que trabalha para o metrô de São Paulo mudou meu nome, depois que cheguei de Sergipe, para 304. Explico: sou da Jetimana, bairro de Aracaju, e lá minha família construiu uma casinha, com fruteiras e um terreninho com umas plantinhas de comer: feijão, quiabo, tomate, alface e outras, que quando davam pra valer, em tempos de chuvas regulares, davam também para vender um tantinho assim, mas já ajudava. Me criei lá, subindo nos pés de mangueira e goiabeira, joguei futebol nos terrenos desocupados, que quando eram ocupados nós procurávamos outro. Quando cresci meu pai me botou de ajudante de pedreiro, o que sou até hoje, até que meu irmão mais velho me chamou pra São Paulo, para ocupar uma vaga certa de ajudante de pedreiro nessa empresa que trabalha para a empresa maior que constrói o metrô. Meu irmão me disse: “isso é obra longa, vai demorar, vez por outra anda devagar, outras quase parando, mas aqui essa empresa sempre fica, não sei porque”. E eu com isso? Quero esse emprego, assim eu pensava e todos da minha família pensavam assim. Lá em Aracaju, me chamavam pelo meu nome: Toinho e eu gostava. Toinho do Seu Pedro, melhor ainda. Pedro é meu pai. Mas depois que cheguei aqui sou apenas o 304, durmo no dormitório ao lado da construção, uma porção de homens, todos com um número. Mas todos de carteira assinada e um chefe para obedecer (não conheço a cidade, só isso aqui). Quando eu quis falar ao meu irmão que em Aracaju era melhor ele disse para não pensar nisso. Obedeci. Aqui eu só sei que sou o 304.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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