MUSIQUALIDADE

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M U S I Q U A L I D A D E

 

 

R E S E N H A     1

 

Grupo: RIO MARACATU

CD: “LAPADA”

Selo: RÁDIO MEC

 

Um das grandes destaques da atual cena musical nacional é o grupo Rio Maracatu, fundado em 1997 no Rio de Janeiro, mas que condensa, na sua formação, músicos pernambucanos e cariocas que trabalham para resgatar e valorizar ritmos, cantos e danças tradicionais brasileiras, como o maracatu, a ciranda, o coco e o samba.

O grupo tem se destacado especialmente no cenário carioca, junto com outros que desejam a retomada e a renovação da nossa música tradicional, a exemplo do Afroreggae, do Monobloco e do Cordão do Boitatá. Desde que surgiu, o Rio Maracatu vem realizando desfiles, cortejos e shows de reconhecida qualidade musical, já tendo se apresentado em companhia de grandes artistas como Djavan, Manu Chao, Lia de Itamaracá e Mestre Ambrósio, entre outros. Os já tradicionais desfiles do grupo, seja em Santa Teresa, seja na orla de Ipanema, atraem tanto cariocas quanto turistas, terminando via de regra em uma grande confraternização musical.

E entendendo que a música também tem a sua missão social, o Rio Maracatu faz apresentações nas lonas culturais para comunidades de baixa renda e participa de vários eventos sociais em bairros da Zona Oeste e Baixada Fluminense.

É este grupo que pôs recentemente nas lojas, através do selo Rádio Mec, o belo CD intitulado “Lapada”, seu trabalho de estréia no mercado fonográfico. Composto por dez componentes, seus vocais são divididos entre as apropriadas vozes de Patrícia Oliveira e André Bala Bala.

Impossível ficar parado quando se ouvem os azeitados arranjos que trazem as batidas percussivas para o primeiro plano, dando novos ares a canções que já receberam, inclusive, memoráveis registros anteriores. É o caso, por exemplo, de “Festa” (de Gonzaguinha), “Fazê o Quê?” (de Pedro Luís) e “Que Baque é Esse?” (de Lenine) que, não obstante eternizadas pelas maravilhosas vozes de Maria Bethânia, Ney Matogrosso e Elba Ramalho, respectivamente, são agora matizadas com novas e bem-vindas tintas.

É lógico que a maioria das dezessete canções (constantes das quatorze faixas) têm raiz no maracatu e suas variações. Logo na bela faixa de abertura, “Maracatu Embolado” (do ótimo Rodrigo Maranhão), o grupo mostra a que veio, mostrando uma pulsação contagiante. Mas no álbum há ainda a inclusão de outros ritmos como o forró (“Pé da Ladeira”, de André Bala e Dudu Lacerda), o aboio (“A Seca Castiga”, de Maciel Salu) e até o choro (a instrumental “Pois Zé”, de Cachaça).

A vasta pesquisa musical soube pinçar boas canções inéditas (“Cana”, outra de André Bala Bala e Dudu Lacerda, agora ao lado de Fernando Jacutinga), resgatar pérola do cancioneiro nordestino (“Verde Mar de Navegar”, de Capiba) e até recolher canção do folclore popular (“Samba Negro”).

Dentre os melhores momentos do disco podemos citar a interessantíssima “Pele de Couro” (de André Bala Bala) e a oportuna homenagem a Chico Science e sua Nação Zumbi com a boa releitura de “Cidadão do Mundo”.

Um CD bem bacana de um grupo que merece ser descoberto e festejado!

 

 

R E S E N H A     2

 

Cantores: SAMBA DE FATO e CRISTINA BUARQUE

CD: “O SAMBA INFORMAL DE MAURO DUARTE”

Gravadora: DECKDISC

 

Mauro Duarte é nome respeitado no universo do samba. Embora atualmente seja pouco conhecido pelas gerações mais jovens, muito daqueles que possuem mais de quarenta anos certamente já cantarolaram diversas canções do compositor mineiro, a exemplo de “Lama”, “Portela na Avenida”, “Menino Deus” e “Canto das Três Raças”, todas imortalizadas pela voz da conterrânea Clara Nunes.

Aos dez anos de idade, período em que começou a compor, Mauro mudou-se com a família para o Rio de Janeiro. Falecido em 1989, o artista deixou várias canções inacabadas e algumas ainda em fase de esboço.

Foi a intenção de reunir essas músicas e mais outras composições menos conhecidas que serviu de inspirado mote para a criação do CD duplo “O Samba Informal de Mauro Duarte”, um projeto que alia a cantora Cristina Buarque (irmã caçula de Chico Buarque e que chegou, em 1985, a gravar um disco ao lado de Mauro) ao competente grupo Samba de Fato e que acaba de chegar às lojas através da gravadora Deckdisc. O grupo, frise-se, é um dos melhores atualmente na batalha e conta com os talentos de Pedro Miranda, Pedro Amorim, Paulino Dias e Alfredo Del-Penho. Foi este último, aliás, que, juntando-se ao pesquisador Paulo César de Andrade (que já fazia um levantamento da discografia de Mauro), teve a idéia inicial que deu origem a essa merecida homenagem.   

Da união dos esforços, além de dez sambas registrados em discos mas poucos conhecidos, resultaram dezessete inéditos, entre os lembrados por parceiros de Mauro, como Walter Alfaiate, e os recolhidos no acervo da família. E quatro vinhetas, com a voz do próprio Mauro, terminam por compor o CD.

Trata-se, de fato, de um trabalho memorável que certamente servirá de fonte para inúmeras regravações futuras. São belas canções que receberam tratamento respeitoso nos arranjos e nas interpretações e que comprovam que o Bolacha (apelido com que Mauro era conhecido pelos amigos) era realmente um grande criador de sambas. Assim sendo, é bom que se diga que se torna tarefa hercúlea explicitar destaques no recém-lançado trabalho.

A maioria das canções leva a assinatura de Paulo César Pinheiro como parceiro, o que por si só já é sinal de inquestionável garantia. Mas há parcerias também com outras “feras”, como Elton Medeiros, Noca da Portela, Maurício Tapajós, Edil Pacheco e Dona Ivone Lara.

Os sambas de Mauro fogem do convencional. Geralmente compostos em tom menor, possuem um sotaque melódico próprio e, apenas de ele não tocar nenhum instrumento harmônico, era um melodista que sabia percorrer, intuitivamente, os caminhos dos verdadeiros sentimentos. Corra e conheça!

 

 

N O V I D A D E S

 

·               Kadu Vianna é um jovem cantor e compositor mineiro em franca ascensão e acaba de lançar, de maneira independente, o seu segundo CD intitulado “Dentro”. Produzido por ele próprio e composto por doze faixas (onze delas de sua própria autoria, ao lado de parceiros como Léo Minax, Murilo Antunes e Magno Mello), traz a regravação de “Pedras Rolando” (de Beto Guedes e Ronaldo Bastos). Kadu mostra-se um compositor antenado com o momento presente e um cantor de ótimos recursos vocais, com identidade definida e timbre bastante envolvente. Há as participações mais que especiais de Milton Nascimento e Marina Machado na canção “Miragem”, um dos pontos altos desse bem-vindo álbum. Outros destaques ficam por conta das músicas “Pouco Tempo”, “Amor Faz Calor” e “Faísca na Medula”.

 

·               O sambista Mombaça, parceiro freqüente de Mart’nália, está relançando, através do selo Lua Negra Discos, o CD “Afro Memória”, originalmente editado em 2002. A canção “Pretinhosidade” aparece como faixa-bônus.

 

·               Chegará às lojas no próximo mês o novo CD de Zé Geraldo. Intitulado “Catadô de Bromélias”, o trabalho tem como maior destaque a faixa “Na Barra do seu Vestido”, parceria de Zé com Zeca Baleiro.

 

·               Depois de lançar alguns CD’s mostrando o seu próprio trabalho autoral, o catarinense Carlos Careqa lança o álbum “À Espera de Tom”, composto por versões de canções de Tom Waits. Já está nas lojas!

 

·               A cantora Olivia Hime põe no mercado o DVD “Palavras de Guerra Ao Vivo”, sua homenagem a Ruy Guerra. As canções “Fado Tropical”, “Ana de Amsterdam” e “Você Vai me Seguir”, que não fizeram parte do correlato álbum de estúdio lançado no ano passado, surgem agora em interpretações vigorosas da artista.

 

·               A gravadora Universal põe nas lojas nova compilação de fonogramas gravados pela cantora Cássia Eller. Integrante da série “Raridades”, o CD traz o talento da cantora em interpretações personalíssimas para canções de Djavan, Zé Ramalho e Herbert Vianna.

 

·               No ano passado, a excelente cantora Selma Reis, impulsionada por sua participação na novela “Página da Vida” na qual deu vida ao papel de uma freira, lançou o belo CD “Sagrado”, recheado de temas sacros. Continuando no terreno erudito, a cantora de voz poderosa acaba de lançar o CD duplo “Maria Mãe de Jesus”, gravado ao vivo na nave da igreja Martin Luther no Rio de Janeiro (RJ). Enquanto em um CD, ela narra a via-crúcis da Virgem Maria ao som de músicas de compositores como Bach e Bizet, no outro entoa cinco temas religiosos com arranjos e regências de Lipe Portinho. O charme especial fica por conta do órgão de tubos de 1928 tocado por Eder Targino, o qual ajuda a criar a atmosfera sagrada exigida por árias como “Agnus Dei”, “Crucifixus” e “Sancta Maria”.

 

·               Ainda sobre Selma: a artista estará entrando em estúdio, no próximo mês, para gravar disco duplo com músicas de autoria de Paulo César Pinheiro. Dentre as canções constantes do repertório (que ainda se encontra em fase de seleção), já estão confirmadas as regravações dos sambas “Tô Voltando” e “Vou Deitar e Rolar”.

 

 

RUBENS LISBOA é compositor e cantor


Quaisquer críticas e/ou sugestões serão bem-vindas e poderão ser enviadas para o e-mail: rubens@infonet.com.br

 

 

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