MUSIQUALIDADE, por Rubens Lisboa

M U S I Q U A L I D A D E

 

 

R E S E N H A     1

 

Cantor: LULA QUEIROGA

CD: “TEM JUÍZO MAS NÃO USA”

Gravadora: INDEPENDENTE

 

Pernambucano, Lula Queiroga começou sua carreira fonográfica em 1983, quando dividiu o disco “Baque Solto” com o conterrâneo Lenine. Durante um certo tempo, ambos batalharam por um reconhecimento maior. Lenine, sempre voltado para a música, conseguiu ver seu nome catapultado ao estrelato no final da década de noventa. Lula, por sua vez, enveredou, nesse meio tempo, pelos caminhos da publicidade, somente voltando a mergulhar na área musical em 2001 quando lançou o CD “Aboiando a Vaca Mecânica”. Três anos depois, pôs no mercado “Azul Invisível Vermelho Cruel”, comprovando que seu talento equipara-se ao do famoso parceiro (Lula e Lenine criaram juntos várias canções que se transformaram em hits, tais como: “A Ponte”, “O Verbo e a Verba” e “Mais Além”). Com músicas gravadas por feras da nossa MPB, tais como: Elba Ramalho, Ney Matogrosso e Milton Nascimento, entre outros, Lula é um artista completo: compõe, canta e produz, aliando doses complementares de simplicidade e modernidade.

Acaba de ser lançado, de maneira independente, o seu novo álbum produzido por Tostão Queiroga. Intitulado “Tem Juízo Mas não Usa” (título também de belo samba composto ao lado de Pedro Luís) traz na capa uma sugestiva foto de Luca, seu filho mais novo, e apresenta uma ótima safra de canções inéditas (a única regravação é a de “Belo Estranho Dia de Amanhã”, tema registrado anteriormente pela potiguar Roberta Sá).

Nordestino por natureza e também por opção, Lula faz das referências de sua terra o ponto de partida para a sua música. Mas, moderno (sem se perder na tênue linha que resvala para o modernoso), sabe que a arte é universal e, assim, está permanentemente aberto a novas influências. É desta forma que sabe construir (como poucos) discos ao mesmo tempo cosmopolitas e lúdicos, urbanos e com os pés na tradição.

É claramente constatável que o compositor supera o cantor, o qual se utiliza de efeitos vários para fazer com que suas mensagens cheguem aos ouvintes. Suas canções realmente crescem quando interpretadas por artistas mais talhados para o canto, mas o fato é que sua voz (cujo timbre lembra coincidentemente, em várias passagens, o de Lenine, presente, aliás, como convidado especial em duas faixas do CD ora resenhado) termina por não comprometer o resultado de um trabalho de qualidade inquestionável.

Os arranjos apresentam passagens pesadas, característica do trabalho de Lula, e programações eletrônicas pipocam aqui e ali. Já na faixa de abertura (a inspirada “Você Não Disse”) isso se faz presente, numa nítida tentativa de real aproximação com as gerações mais jovens (o público consumidor mais atento e o que forma opinião com maior velocidade). Dentre as quatorze faixas que compõem o repertório (várias são assinadas por Lula em parceria com seu sobrinho Yuri Queiroga) há algumas canções muito bem resolvidas como, por exemplo, a inteligente “Altos e Baixos”, a contundente “Coração Burro”, a balada “Fulana” e o pseudo-mantra “Megazen”. Lirinha (vocalista do Cordel do Fogo Encantado) é o convidado da bem-humorada “Geusa”, o ainda desconhecido Felipe S comparece em “Melhor Do Que Eu Sou” (um dos pontos altos do álbum), China pinta em “Manga, Graviola, Hortelã”, Silvério Pessoa divide os vocais de “Tectopop” e Alceu Valença valoriza a metafórica “Meus Pés”.

É incontestável que Lula Queiroga é nome de responsa e merece conquistar de vez o Brasil. Esse seu novo CD é um passo muito importante para isso.

 

 

R E S E N H A     2

 

Cantora: IZABEL PADOVANI

CD: “MOSAICO”

Gravadora: INDEPENDENTE

 

A opção musical é nítida: por uma música popular, mas nunca popularesca, daquelas que não costumam ser ouvidas facilmente por aí. Sem fazer concessões, a cantora Izabel Padovani acaba de pôr no mercado, de maneira independente, o seu novo CD intitulado “Mosaico”. Com harmonias complexas e letras quase nunca diretas, as onze canções que compõem o repertório desse trabalho passam ao largo de uma aceitação fácil em uma primeira audição.

Ganhadora do Prêmio Visa 2005 – Edição Vocal, Izabel é uma artista de voz potente e trabalhada. Segue a escola de Mônica Salmaso, na qual a técnica muitas vezes supera a emoção. No entanto, não é justo dizer que esta é posta de lado. Viveu dez anos entre o Brasil e a Áustria. Em Viena, formou-se pelo “The Alexander Technique Teacher Trainning Center” e tornou-se professora de Técnica Alexander.

Dirigido por Ronaldo Saggiorato (que também assina todos os arranjos), o álbum recém-lançado é ainda mais radical que o seu ótimo CD antecessor (“Desassossego”, de 2006), o qual trouxe impagáveis releituras de “Circuladô de Fulô” (de Caetano Veloso) e “Onde a Dor Não Tem Razão” (de Paulinho da Viola e Elton Medeiros).

O som é eminentemente acústico e orgânico, embora sutis programações eletrônicas surjam de vez em quando, sempre servindo, no entanto, como esteio para ressaltar efeitos ou detalhes, nunca tomando o pano de frente. Instrumentos delicados a exemplo de clarinete, flauta, bandolim e violoncelo pontuam as bases calcadas em violão, piano e baixo, as quais são sustentadas por uma percussão concisa cujo objetivo maior é mesmo o de firmar as ambientações das faixas.

Entre boas parcerias de Dante Ozzetti com Luís Tatit (“Alto Mar”) e de Guinga com Simone Guimarães (“Capital”), surgem poemas de Gregório de Matos (“Mortal Loucura”) e João da Cunha Vargas (“Deixando o Pago”) musicados por Zé Miguel Wisnik e Vitor Ramil, respectivamente. Os melhores momentos do trabalho, sem sombra de dúvida, ficam por conta da bela “Tudo Teu” (de Fred Martins e Marcelo Diniz) e da inspirada “Do Compositor” (de Eduardo Klébis).

Conseguindo vencer uma exótica exigência pessoal, o que decerto resultará numa necessária aproximação com o ouvinte médio, Izabel Padovani far-se-á pronta para se transformar em uma das nossas maiores intérpretes: talento e voz para isso ela tem de sobra. Torçamos, pois!

 

 

N O V I D A D E S

 

 

·                     Patricia Polayne estará se apresentando nesta quinta-feira (dia 28), a partir da 20 horas, em Salvador (BA), mais precisamente no Teatro Vila Velha. O show “Aparelho de Memoriar” será uma prévia de seu primeiro CD que já começa a ser formatado. Acompanham-na enxuta banda formada por Saulo Ferreira (no violão), Emanuel Jorge (no baixo) e Dudu (na percussão). Muito axé para a galera!

 

·                     A cantora piauiense Patrícia Mellodi põe nas lojas, através do selo Sala de Som Records, o CD “Pacote Mais Que Completo”. Na realidade, se trata do mesmo álbum intitulado “Pacote Completo” lançado em 2006 pela artista, só que agora com a adição de mais cinco faixas, além das doze originais. Também compositora, Patrícia se destaca mesmo é pela voz afinada e possante. Com um timbre muito bonito, ela mostra com talento as várias vertentes que influenciaram o seu trabalho. Os destaques ficam por conta das faixas “Faxina Geral”, “Sem Amor” (parceria com Eugênio Dale) e “As Aparências Enganam” (de Tunai e Sérgio Natureza, canção que foi imortalizada na voz de Elis Regina).

 

·                     Já está bombando nas rádios a canção “Chegamos ao Fim” que a gravadora Deckdisc escolheu como primeira faixa de trabalho do CD duplo (os dois discos também serão vendidos separadamente) e do DVD que o sambista Arlindo Cruz acaba de lançar. Gravado para integrar a série MTV ao vivo, o projeto conta com as participações especiais de Marcelo D2, Zeca Pagodinho e Beth Carvalho.

 

·                    O novo CD de Elba Ramalho acabou de chegar às lojas através da gravadora Biscoito Fino e comemora os trinta anos de sua vitoriosa carreira, iniciada em 1979 com o disco “Ave de Prata”. Intitulado “Balaio de Amor”, o trabalho vem recheado de xotes e baiões e conta com as participações especiais de seu filho Luã Mattar (tocando guitarra), de Dominguinhos, do produtor e atual namorado Cezinha do Acordeom e do maestro Spok, com quem, aliás, a cantora tenciona dividir um álbum ser lançado ainda este ano. No repertório, canções assinadas por Nando Cordel, Maciel Melo, Accioly Neto, Jorge de Altinho e Petrúcio Amorim. Em tempo: os álbuns temáticos com os repertórios de Zé Ramalho e de Chico Buarque ficarão para 2010.

 

·                     Gravado em Londres, mais precisamente no lendário estúdio Abbey Road, o novo CD (lançado também no formato DVD) do Roupa Nova (“Roupa Nova em Londres”) soa como ‘mais do mesmo’. Os seis rapazes continuam mandando muito bem na execução dos instrumentos (são, de fato, grandes músicos) e se utilizam com destreza dos arranjos vocais. O problema reside no repertório (bem fraco) composto por quinze faixas. Tanto que o ponto alto do disco é mesmo a imponente regravação de “She’s Leaving Home” (de John Lennon e Paul McCartney, a cargo somente de vozes a capella e cordas). E se canções como “A Cor do Dinheiro” e “Todas Elas” (das poucas que não se agarram a temas de amor) terminam soando rasteiras ao perseguirem a fórmula de antigos sucessos do próprio grupo, outras como “Muito Mais” e “Chamado de Amor” terminam por enfiar o pé no brega. Há uma nova versão (suave e pegajosa) de “Sonho” e uma tentativa para embalar festinhas da galera mais jovem em “Cantar Faz Feliz o Coração” (mas, ao invés de descolada, soa datada). “Coração da Terra” é um nítido exemplo de como nem mesmo um arranjo grandioso consegue salvar uma música insossa. Os momentos mais inspirados ficam por conta de “Do Outro Lado da Calçada”, “Quero Você” e “Lembranças” (esta também já gravada anteriormente pelo grupo). Há a participação especial da banda inglesa Ben’s Brother na bilíngue “Reacender”. O álbum termina com a frase: “Ouço a Terra me avisar que o sonho acabou” (pinçada de famosa declaração de Lennon). Quiçá não seja premonitória…

 

·                     O show “Romance” apresentado pela atriz Marisa Orth vai virar disco que chegará ao mercado através da gravadora Lua Music. O repertório inclui, entre outras, “As Dores do Mundo” (de Hyldon), “Sofre” (de Tim Maia) e “Minha Fama de Mau” (de Roberto e Erasmo Carlos).

 

·                     Depois de muito vai-não-vai, João Bosco bateu o martelo e lançará, através da gravadora MP,B, no segundo semestre deste ano um novo CD de canções inéditas. Além de retomar parceria com Aldir Blanc, Bosco apresentará novas parcerias feitas com seu talentoso filho Francisco e com o sambista Nei Lopes.

 

·                     A cantora Joyce (que a partir de agora passará a assinar artisticamente Joyce Moreno) acabou de lançar no mercado europeu, ao lado do marido e baterista Tutty Moreno, o CD instrumental “Samba-Jazz & Outras Bossas”. Além desse trabalho, também chegaram recentemente às lojas da Inglaterra “Visions of Dawn” (inédito álbum de tons psicodélicos, que foi gravado pela artista em Paris, em 1976, ao lado do percussionista Naná Vasconcelos e de Maurício Maestro), e “Celebrating Jobim” (registro ao vivo do show feito pela cantora com a alemã WDR Big-Band para festejar a obra de Tom Jobim). Por enquanto, infelizmente nenhum dos três discos tem previsão de lançamento no Brasil.

 

·                     Mais um título da série “Letra & Música” (o sexto) está chegando às lojas. Desta vez será a obra de John Lennon que é visitada e terá como um dos principais destaques uma canção muito pouco conhecida do artista: “My Life”. A gravação da faixa ficou a cargo da sempre perfeita Leila Pinheiro.

 

 

RUBENS LISBOA é compositor e cantor


Quaisquer críticas e/ou sugestões serão bem-vindas e poderão ser enviadas para o e-mail: rubens@infonet.com.br

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