O adeus da matriarca

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A personalidade de Maria Virginia Leite Franco, carinhosamente chamada Dona Gina, está indelevelmente marcada pela humanidade expressa nos gestos de humildade, generosidade, discrição e senso de justiça. Mas poucos lembram da sua participação ativa na vida política e empresarial de Sergipe da segunda metade do século 20 até os primeiros anos desta Era de Aquarius.

Herdeira de família tradicional, Dona Gina foi esposa e mãe de governador do Estado, um fato considerável e quase inusitado que merece ser destacado. Também foi mãe, avó e tia de políticos e empresários responsáveis por parte importante do PIB sergipano, o que também não pode ser esquecido.

Era filha do médico e político Augusto Leite (Laranjeiras, 1886 – Aracaju, 1978), fundador, em 1926, do Hospital de Cirurgia, uma "santa casa" que foi um marco na modernização da medicina em Sergipe, e que ficou marcada e marcou seu criador pelo trabalho social ali promovido. Ele também construiu a primeira casa para atender mães solteiras em Sergipe, a Casa Maternal Amélia Leite.

Ela foi estudante interna no Colégio Nossa Senhora da Assunção, das Irmãs Felicianas, no Rio de Janeiro, de orientação francesa. Aprendeu francês e piano, tinha um instrumento em casa e durante muitos anos gostou de tocar Chopin.
Em 1940 casou-se com um médico também de família tradicional, mas de outra orientação política. A família Leite era do PSD e PR e a família de Augusto Franco era da UDN. "Minha mãe ouvia as conversas na nossa casa e na casa do meu avô, onde as posições eram diferentes, e ela sempre se manteve em absoluta discrição. Era um período de radicalismo político e ela sempre se portou de maneira exemplar, com muita habilidade", recorda o filho mais velho, Albano Franco.

"Simples e humilde, ela atendia a todos que a procuravam. Na minha infância em São Cristóvão, num sobrado vizinho à Matriz, onde moramos quase dez anos, ela tinha uma ligação com os frades e na Companhia Industrial São Gonçalo, dirigida pelo meu pai, ela demonstrava sua linha de austeridade, discrição e bondade. Meu pai tinha outro estilo, mais sisudo, mais severo, já era grande empresário, mas também era humano e simples".

Ela foi esposa do empresário mais importante de Sergipe no século 20 e provavelmente do político mais importante também, que criou um ciclo que durou quase três décadas. Durante esse longo período, Sergipe foi governado por quatro políticos, além do próprio, todos feitos mandatários por sua influência. Esse ciclo político iniciou-se no dia 15 de março de 1979, data da largada do governo de Augusto do Prado Franco (4.9.1912 – 15.12.2003), alongando-se por sete gestões: do general Djenal Tavares Queiroz, que foi seu vice-governador e o substituiu no dia 14 de maio de 1982, ficando no cargo até 15 de março de 1983; de João Alves Filho (em três oportunidades, 15.3.1983 – 15.3.1987, 15.3.1991 – 1º.1.1995 e 1º.1.2003 – 1º.1.2007); de Antônio Carlos Valadares (15.3.1987 – 15.3.1991); e do filho Albano do Prado Franco (em duas vezes consecutivas, 1º.1.1995 – 1º.1.2003).

Quando primeira-dama de Sergipe, ela criou o Núcleo de Trabalho Comunitário de Sergipe (Nutrac), feito reconhecido e lembrado agora pela deputada estadual Ana Lúcia Menezes, (PT) e pela senadora Maria do Carmo Alves (DEM). “Era uma ação brilhante, fomentando a formação profissional”, disse a senadora, lembrando que a instituição não recebia verbas públicas.

Ainda no governo Augusto Franco, ela assumiu a superintendência da antiga Legião Brasileira da Assistência (LBA), "instituição que se tornou a maior agência de serviço social do país, implementando políticas assistenciais de apoio aos mais pobres", recorda o sobrinho e deputado estadual Zé Franco (PDT).

No governo do filho Albano Franco (1995-2002), já não desempenhava atividade pública, mas nunca deixou de participar com seus aconselhamentos, inclusive, a ponto de influir nas decisões. "Ela tinha feeling, muita sensibilidade para a política, e fazia algumas observações, opinava de vez em quando. Inclusive eu cheguei a mudar decisões após ouvir as ponderações de minha mãe. E tudo ela fazia pensando no bem, para os outros e para a família", afirma o primogênito.

Numa decisão familiar importante ela teve participação ativa quando Augusto Franco decidiu, em 1990, dividir ainda em vida os bens com os nove filhos. "Sua preocupação era que a divisão beneficiasse igualmente a todos".

Dona Gina morreu na manhã de uma quarta-feira, dia 4 passado. Albano Franco almoçou com ela na segunda-feira, quando a mãe se queixou de uma mal estar. Após ouvir de um médico que ela estava bem, no dia seguinte ele viajou a Genebra, na Suíça, onde integraria a delegação da Confederação Nacional da Indústria (CNI), na 103ª Conferência da Organização Internacional do Trabalho (OIT).

Retornou assim que soube do falecimento da mãe, mas não conseguiu chegar a tempo de assistir ao sepultamento no Cemitério Santa Isabel. "Foi a pior viagem da minha vida, 10 horas e 42 minutos de angústia, pensando no enterro de minha mãe".

Casada com Augusto Franco por 63 anos, Maria Virgínia Leite Franco teve nove filhos: Albano Franco, Walter Franco, Amélia Franco Guimarães, Marcos Franco, Maria Clara Franco Melo, Osvaldo Franco e Ricardo Franco, além de Antônio Carlos Franco e César Franco, já falecidos. Sua morte também enlutou 26 netos e 11 bisnetos.

“Feliz de quem teve a sorte de conhecer e conviver com Dona Gina. Ela estava sempre de bem com a vida, era feliz e estava sempre pronta para ajudar a família e todos que necessitavam, era uma pessoa linda e muito iluminada”, recorda José Rodrigues, conhecido como Negão, que foi motorista da família por mais de 40 anos.

O coração de Dona Gina parou aos 97 anos. Ela deixou a vida sem sofrer.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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