O CAMPEONATO UNIVERSITÁRIO

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Conversar com as pessoas deveria ser um dos hábitos mais cultuados pela sociedade, mesmo porque delas se colhem lições de vida impagáveis. Esta semana foi Paulo, um dos amigos do meu primogênito, quem se tornara o meu orientador, até porque o assunto por ele exposto era extremante atual e instigador. Queixou-se ele da escola em que estudou, não lembro o nome dela, em razão de não ter mandado afixar uma faixa na porta de sua residência, anunciando que ele fora aprovado no vestibular da Unit.


Argumentou, ainda, que a sua escola era “unha-de-fome” e injusta, pois não custava agradecer publicamente o seu triunfo, mesmo porque várias outras instituições de ensino estavam divulgando que os seus respectivos alunos eram os grandes vitoriosos do vestibular. Imediatamente a sua bronca me fez lembrar o lamento de um amigo de infância que ganhara um campeonato importante, mas que não podia provar a conquista porque esqueceram de lhe entregar o troféu e a faixa de campeão. Como em Própria ninguém soubera do campeonato, a sua vitória era alvo de zombaria, dizíamos na época que era apenas fruto de sua imaginação fértil e sem serventia.


Depois desta instigante conversa, confesso ter reforçado o meu olhar crítico sobre as faixas que inundam as ruas e as fachadas dos prédios de Aracaju. Nelas os vestibulandos não passam de jogadores que animam, disfarçadamente, o campeonato que as escolas particulares jogam entre si. Ainda que se diga que o vestibular não tem a finalidade de apontar um campeão um time ou um jogador específico, os cartolas fazem questão de alardear que foram as vencedoras do certamente.


Esclareço que não chamo de cartolas os familiares dos concorrentes, pois estes são apenas torcedores que expressam a linguagem aleatória e emocionada do coração. Cartolas são aqueles que se comportam como donos dos passes dos denominados jogadores, os únicos responsáveis pela cobiçada vitória. Pouco importa se o atleta adquiriu as suas aptidões técnicas na convivência familiar, em cursos complementares ou mesmo em outros times escolares, as faixas apenas dizem que somente aquela escola ou cursinho detém o título de campeão.


Na verdade o campeonato que as escolas disputam não está diretamente ligado ao jogador, o troféu por elas cobiçado não é propriamente o vestibular, mas sim aumentar o número de alunos matriculados. É aí que entram as faixas, pois se não alardeassem os seus “feitos” os cartolas ficariam parecido com o meu amigo de Própria, pois não provariam que ganharam o campeonato, nem, tampouco, exibiriam o troféu da conquista de novos jogadores para o seu time. Se o real objetivo da escola fosse o de parabenizar o seu jogador bastaria uma doce palavra particular, uma carta agradecida ou uma interna comemoração.


O marketing deste campeonato particular exige, dentre outros aspectos, transformar o vestibular em uma espécie de mata-mata, divulgar que perder traz conseqüências gravíssimas para aqueles que não souberam escolher o melhor time e “esquecer” que vários dos não foram aprovados faziam parte desta mesma equipe tida como vencedora. Torcedores insensíveis, jogadores burros, técnicos incompetentes e cartolas ineficientes são algumas das mensagens sub-reptícias que atribuem aos pais, alunos, professores e escolas que não souberam ser “competitivos”. Somente “perdoam” os que integram o time das escolas públicas, talvez por acreditarem que estes jogadores pertençam à segunda divisão, nada comprometendo quando eventualmente ultrapassam a linha de acesso.


Neste domingo foi dado o pontapé inicial para mais um cobiçado campeonato, agora para disputar o garboso título de Campeã do PSS – Processo Seletivo Seriado da UFS. Certamente o vestibular da UFS, como é popularmente conhecido, servirá de pretexto para aumentar a quantidade de faixas, propagandas e anúncios de cartolas vencedores, até porque carrega o charme e a fama de ser um certame disputadíssimo e mais exigente. Não é incorreto torcer para que nossos filhos, familiares e amigos sejam aprovados no vestibular, até porque ampliar o saber é importante para conquistar direitos e espaços profissionais, especialmente em um país campeão em desigualdade e exclusões sociais.


Mas venhamos e convenhamos, acreditar que o vestibular tem o condão mágico tornar vencedor ou perdedor um vestibulando, com o devido respeito, é esquecer que a vida não se resume a um punhado de questões postas em um frio gabarito. E é o que fazemos quando alimentamos o campeonato travado pelas escolas, transformando nossos vestibulandos em jogadores ansiosos e vítimas do jogo profissional. Afinal, não é justo acreditar que a vida começa ou termina em uma universidade, mesmo porque personalidade, inteligência, ética e amizade não são ensinadas nos bancos acadêmicos.

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